Local restrito somado ao medo faz com que a rotina num veleiro seja estressante. São dificuldades diferentes das vividas em terra. A voz do comandante deve ser obedecida, ainda que seja por alguns momentos, de imediato. Caso contrário, pode se instalar o caos.
O alerta é de Yamandú Rodriguez Villalba, que com sua experiência em velejar no mar diz: “O medo é brutal. Quem disser que não tem medo é ridículo, insano. Você junta o medo ao lugar restrito e muita gente a bordo e pode ter certeza que vai ter problemas. Acontece muito quando a situação é de perigo. Quando tem um dia lindo de sol, todo mundo curte.”
Ele lembra que para driblar situações de conflito é preciso comando. “Se o barco tem um bom comando, não tem problema. É comum o comandante mandar os demais calar a boca em situações perigosas. O cara pode ser seu melhor amigo que depois de dois dias navegando vai dar problema. Em uma regata que fiz de Santos para o Rio de Janeiro, tivemos que jogar vários objetos para fora do barco para não correr riscos.”
As brigas acontecem por fatos insignificantes que em terra não seriam tão graves. “Brigam porque um deixou a cueca em tal lugar, só besteira. A verdade é que navegar e conviver bem é difícil. É tão interessante que valeria um estudo. Um profissional poderia estudar a reação das pessoas em situação de medo, área restrita e falta de comando.”
Villalba frisa que no livro “Navegando Del Plata ao Amazonas” ele descreve algumas das aventuras do casal. “Não é fácil ficar preso em um lugar restrito, ter o mar como parceiro e conviver com uma única pessoa, como é o meu caso”, confessa.
Para ele, é muito diferente viver a bordo de um barco em comparação com uma casa. “Ficamos sete meses viajando pelo mar. Quando fizemos a 1ª viagem de veleiro, Elaine não tinha a menor ideia do que iria acontecer, não tinha muitos medos. Mas depois de várias vivências, ela passou a ficar com medo, embora seja uma mulher forte.”
Durante a viagem pela costa brasileira, Elaine tomava um remédio para controlar os enjoos, porque ela passa muito mal no mar. “Depois de três dias só na rede, ela não aguentava mais e dizia que queria morrer. Então, eu tomei as rédeas da situação e disse: ‘Agora não sou mais seu marido e sim seu comandante. Vou preparar um soro e você vai tomar de hora em hora e pronto’.”
Outra situação estressante que exigiu a voz do comandante, lembra Villalba, aconteceu no rio Tietê, próximo de Barra Bonita. “Aqui estamos numa piscina, no mar é pior. Estávamos a poucos quilômetros daqui quando houve a quebra de uma peça e estava escurecendo. Fui colocar o motor para funcionar e ele não funcionou. Ela se apavorou. Eu tive que pedir muita calma, o vento empurrava contra a terra, mas nós tivemos que manter a calma e com uma vara de bambu fomos nos livrando das margens e entrando no rio.”
Ele explica que o barco atual é todo equipado, tem comida e óleo diesel para navegar mais de cinco mil quilômetros. “Em terra você pode ser democrático, no barco, não, especialmente quando há perigo. Sem comando, todos podem perder a vida.”