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O que decide uma eleição

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

O resultado de uma eleição depende de uma série de fatores combinados. Existem componentes, inclusive aleatórios, capazes de modificar previsões feitas com rigor científico pelas pesquisas de mercado. Mesmo assim, é possível flagrar com antecedência um retrato aproximado da criança que vai nascer mediante um trabalho das tendências de intenções de voto. O jornalista Gaudêncio Torquato, autoridade em marketing político, divide os eleitores brasileiros em cinco categorias. A primeira reúne um eleitorado de clientela, que gira em torno de 25% do colégio eleitoral. Trata-se de um contingente que vota pelas atenções recebidas. O prefeito candidato à reeleição leva vantagem neste item se durante o mandato amassou o barro na periferia, ouviu o povo e procurou atender as suas necessidades.

O segundo contingente é formado pelo chamado proletariado inorgânico. É uma caixa de surpresa. Age sob o efeito manada. Decide na última hora e descarrega os votos sem se importar se o candidato é da direita ou da esquerda. Em São Paulo elegeu Erundina e depois Paulo Maluf. Pita e Kassab. As massas sem ideologia vivem de sentimentos. Televisão só com imagem plástica não vai conquistar esse povo. Será preciso abordar diretamente os seus problemas ? dificuldades na assistência médica, falta de moradias, de creches. Coisas que atingem diretamente os mais pobres. Leva vantagem o candidato que tem um discurso consistente. A promessa vazia de quase nada adianta. É preciso mostrar, claramente, a estratégia de como essas necessidades serão atendidas. Em Bauru, o total desse colégio deve atingir outros 25%.

Bauru já tomou o seu banho de modernidade. De bacia, vá lá. Não tem os currais, comuns nos chamados "grotões" do país. A classe média tem decidido eleições, engrossada recentemente com a ascensão de trabalhadores aos desejos de consumo. Gosta de exibir uma faceta avançada, mas não recua de posições tradicionalistas, principalmente em matéria de moralidade, sexualidade, aparência. Os segmentos médios apresentam capacidade de se transformar em polos de irradiação de opinião.

O estudo clássico do comportamento do voto, elaborado por Lazarsfeld, descobriu que o eleitor não é impregnado diretamente pela propaganda eleitoral. Os chamados líderes de opinião, geralmente pessoas mais letradas e com mais tempo de exposição à mídia, influenciam mais que os veículos de comunicação de massa. Somente após discutir com essas lideranças naturais o eleitor menos politizado decide em quem votar. Os candidatos seguem essa teoria por instinto. Contratam cabos eleitorais. Se esses agentes não tiverem prestígio em suas comunidades, o dinheiro dos cachês terá sido inútil. Isso quando também não vendem seus serviços a mais de um.

Os líderes de opinião autênticos são os dirigentes sindicais, de associações de moradores, religiosos, as donas Maria que agitam os bairros populares. São capazes de garantir outros 25% do eleitorado. O restante se posiciona numa linha de engajamento, em torno de mudanças arrojadas e profundas. Ou então são conservadores clássicos, aqueles que defendem com unhas e dentes posições fechadas. Acham que o bom é do jeito que está. Para que mudar? Os corruptos estão em baixa com a Lei da Ficha Limpa e as repercussões do processo do "mensalão", em julgamento no Supremo Tribunal Federal. Jamais se viu no banco dos réus da mais alta Corte do país plantel tão numeroso de ex-luminares da República.

Este fato justifica a expectativa do cidadão que quer valorizar o seu voto, porque descobriu que uma coisa chamada ética é importante para o País e para a democracia republicana. Em Bauru, a campanha atual é marcada por possíveis falhas de gestão. Denúncias de corrupção foram numa fase que ficou para trás sem deixar saudades. Em tese, todos estão com a "ficha limpa".

Com essa moldura fica mais fácil traçar as costuras. Quem vota em quem? O difícil é conquistar os inorgânicos antes que a porteira se abra e estourem numa direção. O segredo está em "como fazer". Há que ser melhor alquimista que os adversários.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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