Eles são imponentes, estão na moda e tornam a estética de qualquer ambiente mais atraente. Os vidros estão entre as preferências dos consumidores que buscam alternativas para fugir da tradicional parede de alvenaria na hora da construção, seja residencial ou comercial. Mas o que é bonito tem se tornado perigoso.
De acordo com a Polícia Civil e a Polícia Militar, vem aumentando de modo considerável, nas áreas Centro e sul da cidade, o índice de furtos e danos registrados em imóveis que geralmente acabam da mesma forma, com portas e janelas estilhaçadas.
Na semana passada, dois estabelecimentos comerciais na zona sul foram alvos de vândalos e registraram os fatos no Plantão Policial. O primeiro caso aconteceu à 0h30 na avenida Getúlio Vargas, quando a gerente de uma corretora de seguros foi acionada pela rede de monitoramento do local por conta do disparo do alarme. Ao chegar no estabelecimento, a mulher se deparou com a porta de vidro temperado danificada por uma pedra, mas nada foi levado, segundo consta em boletim de ocorrência.
No segundo registro, a porta de vidro de uma rotisserie também acabou arrombada na Araújo Leite, por volta das 2h25. Contatada, a corretora informou ter colocado vigilantes e tablados de madeira para a proteção do local danificado e que pretende inserir películas antifurto na nova porta.
Recentemente, o JC publicou diversos casos envolvendo danos e furtos a estabelecimentos com fachada em vidro, como o caso de uma agência bancária na Vila Falcão que teve uma quantia levada dos caixas após ter a porta giratória e o vidro lateral quebrados.
Ao escolher a fachada de sua loja de tintas decorada com portas e janelas em vidro, a intenção do sócio-proprietário do estabelecimento situado na avenida Getúlio Vargas era de transformar a frente de seu negócio em uma vitrine para atrair consumidores. Entretanto, a estratégia, em tese lucrativa, tornou-se dor de cabeça para o comerciante de 38 anos.
Em menos de uma semana, por duas vezes a loja acabou com as portas de 10 milímetros de espessura estilhaçadas, sendo alvo de furtos.
“A loja precisa ter visibilidade e ser valorizada, mas ao mesmo tempo o vidro se torna um atrativo do crime. Até pensamos em colocar grades, mas a estética fica prejudicada, então, ainda estamos decidindo o que fazer”, afirma o proprietário da loja, contabilizando um prejuízo de mais de R$ 1 mil somente com a porta que acabou apedrejada e virou estilhaço por duas vezes na madrugada, em uma das avenidas mais movimentadas da cidade. No local, havia sistema de alarme e monitoramento com câmeras.
Há algumas semanas, um cidadão também teve sua residência furtada por meio do estilhaçamento de uma porta de vidro temperado com espessura de 10 milímetros, nos fundos da casa.
Na ocasião, o sistema interno de segurança estava desligado. “A porta não possuía sensor de presença, mas o vidro temperado era resistente”, comenta a vítima, enfatizando que o fato de que a porta ser de vidro não influenciou. “Da mesma forma que o vidro foi estourado, a porta de madeira também poderia ser danificada”, avalia.
Uso correto do material reduz riscos
“O vidro está em alta desde a década de 90, quando os projetos passaram a incluir retas e serem mais funcionais”, explica a arquiteta Alana Campos Ciniciato.
Para ela, o vidro não representa problemas para a segurança se utilizado de maneira correta. “O vidro integra ambientes do interior e exterior do imóvel além de proporcionar mais luminosidade e visão. É ideal para residências e comércio. Ele demora mais tempo para ser quebrado e ainda faz um barulhão”, enfatiza a arquiteta. Ainda segundo ela, existe no mercado a aplicação de um tratamento que reduz ruídos externos e protege o vidro contra ações de vandalismo por aproximadamente R$ 70,00 o metro quadrado.
Segundo a Polícia Militar, a colocação de grades é apontada como uma das ações preventivas que podem evitar os furtos gerados pelo estilhaçamento de vitrines e portas. Entretanto, conforme Alana, a utilização de grades seria descartada por grande parte dos clientes por conta da ‘quebra’ na estética. “Por mais trabalhada que seja, muitas vezes a grade não casa com o projeto arquitetônico”, defende.
O que diz a polícia
Para o comandante da 1º Cia do 4º Batalhão da Polícia Militar (PM), capitão Jorge Luís Dias, dependendo do modo como o vidro for utilizado, pode fragilizar a segurança.
“Alguns comerciantes costumam expor mercadorias de muito valor e isso acaba chamando atenção do bandido. A mesma coisa ocorre nas casas, nas quais nem sempre são utilizadas persianas ou cortinas”, afirma o capitão.
Segundo ele, a PM não teria como contabilizar os furtos que ocorrem com danos ao patrimônio, como com a quebra de vidraças, mas o índice de furtos na cidade aumentou no último ano, principalmente na área central e sul.
“Nossa dificuldade são os flagrantes porque nesses casos as ações são muito rápidas e os autores usam pedras e pedaços de pau, o que dificulta o trabalho de identificação”, explica o comandante da PM, ressaltando que o uso de câmeras com gravação, alarmes e a atenção dos moradores quanto aos arredores e vizinhança da casa são primordiais para evitar e auxiliar na segurança. “Qualquer indício deve ser comunicado à PM pelo 190”, orienta Jorge Luís.
Conforme ele, a intensificação do patrulhamento tem sido realizada de modo a priorizar algumas regiões de maior incidência desses tipos de delitos, como os corredores comerciais das avenidas Rodrigues Alves, Nossa Senhora de Fátima, Nações Unidas, Comendador José da Silva Martha e das ruas como a Gustavo Maciel e Araújo Leite.
Investigações
De acordo com o delegado Kleber Granja, da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), diante da recorrência dos furtos que envolvem a quebra de vidraças na região sul e centro, a polícia deverá investigar se os delitos em questão envolvem um único autor que agiria em série ou se as ações seriam isoladas.
“A prisões em flagrante apuradas pela DIG nos mostram a vertente de que esses tipos de ações podem ser cometidas por pessoas que buscam alimentar o vício pelas drogas. Mas nada será descartado”, avisa o delegado.
Segundo ele, a pena para crimes que envolvam o rompimento de obstáculos, como por exemplo, a quebra de vidraças, é majorada. Em um caso em que ocorra o flagrante, o autor poderá pegar de 3 a 8 anos de detenção, sem a possibilidade de fiança.