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Mais um morre à espera de UTI em Bauru

Paola Patriarca
| Tempo de leitura: 4 min

Um homem de 43 anos morreu, ontem, enquanto aguardava uma vaga para internação em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em Bauru. Aparecido Nelson Pinto sofreu um infarto na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) do Núcleo Mary Dota, onde estava desde quarta-feira.

O caso de Aparecido, que era lavrador e deixou esposa e três filhos, se soma a uma trágica estatística que nos últimos meses vem escancarando uma série de deficiências na saúde pública do município. Somente no mês de julho deste ano, outras duas pessoas morreram à espera de um leito em UTI, que infelizmente não foi liberado a tempo (leia mais ao lado).

Segundo a irmã de Aparecido, Nilza Belíssimo, ele sentiu fortes dores no peito na manhã da última quarta-feira e foi levado por familiares à UPA do Mary Dota. Lá, ficou aguardando por uma vaga na UTI do Hospital Estadual (HE). Durante este período, sofreu um infarto e não resistiu.

“É um absurdo alguém esperar o dia todo por uma vaga na UTI. Meu irmão ficou 24 horas na UPA sendo medicado, mas a vaga não saiu. Hoje (ontem) foi meu irmão, mas amanhã pode ser outra vítima”, desabafa Nilza.

De acordo com ela, Aparecido tinha um histórico de problemas cardíacos e já havia sido atendido por um médico. Segundo Nilza, a vaga na UTI era primordial, já que o coração de Aparecido estava fraco e na UPA não havia equipamentos para dar o suporte necessário a seu irmão.

Paulo Netto, amigo da família de Nilza, lamentou a morte de Aparecido em meio à difícil situação que envolve o gerenciamento do sistema de saúde pública na cidade. “Está muito complicado o setor da saúde em Bauru. É preocupante. Eu fico pensando que isso pode acontecer comigo ou com meus familiares. O mais preocupante é que ninguém tem uma solução”, enfatiza.

 

Central de regulação

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, Aparecido Nelson Pinto passou por atendimento clínico na UPA do Mary Dota e foi solicitada vaga em UTI à central de regulação logo em seguida. Entretanto, na manhã de ontem o quadro clínico dele se agravou e Aparecido sucumbiu a um infarto.

A assessoria de imprensa do Hospital Estadual de Bauru informou ontem que foi recebido o pedido de vaga na enfermaria da Unidade Coronariana para Aparecido às 11h do dia 12 de setembro. Porém, a unidade, que possui 19 leitos de internação, “estava lotada e permanece sem disponibilidade de vaga”, acrescentou a assessoria em nota oficial.

O secretário municipal de Saúde, Fernando Monti, afirma que Aparecido Nelson Pinto deu entrada na UPA com um quadro de hipertensão. “Ele estava hipertenso e já havia um quadro de cardiopata, mas durante o dia (quarta-feira) ficou estável, com a situação controlável e bem. Entretanto, durante a manhã da quinta-feira ele sofreu fibrilação ventricular e teve uma arritmia cardíaca grave”, afirma.

Ainda segundo o secretário, a vaga em uma UTI foi solicitada tanto para o Hospital Estadual quanto para o Hospital de Base.

O diretor do Departamento de Urgência e Emergência (DUE) da Secretaria Municipal de Saúde, Luiz Antônio Bertozo Sabbag, diz que a disponibilidade de leito em UTI depende dos hospitais estaduais.

“Nós é que acabamos sofrendo com essa lotação, pois o município não tem controle com a gestão dos hospitais estaduais. Dependemos muito deles e não sabemos ao certo o número de vagas disponíveis”, afirma.

Lavrador é terceira vítima fatal da falta de vagas

A morte do lavrador Aparecido Nelson Pinto, 43 anos, ocorrida ontem na UPA do Mary Dota, foi a terceira registrada em Bauru neste ano de pacientes que ficaram à espera de vaga para internação em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Em julho, duas pessoas também morreram nessa mesma situação.

A estudante universitária Drielly Carla Alves de Brito, 22 anos, aguardou por três dias em uma maca instalada improvisadamente no corredor do Pronto-Socorro Central (PSC), após dar entrada na unidade em 26 de julho. Ainda sentindo-se mal, dois dias depois foi levada por familiares à Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) do Núcleo Mary Dota, onde realizou exames cujos resultados só ficaram prontos no dia seguinte.

Drielly continuou esperando a vaga e, na madrugada do dia 29, seu estado agravou-se, quando foi levada para a sala de emergência do PSC e entubada.

Nova vaga foi solicitada ao Estado, desta vez para internação em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). O leito foi liberado duas horas depois no município de Promissão, que fica a 122 quilômetros de Bauru, mas quando ela foi colocada na maca para fazer a transferência, teve uma parada cardiorrespiratória e morreu.

Já o aposentado Antonio Toledo, 76 anos, deu entrada no PSC na madrugada de 19 de julho com problemas respiratórios. Em estado grave, foi entubado e permaneceu na Unidade de Pacientes Graves, espécie de mini UTI. No mesmo dia, a vaga para internação teria sido solicitada à Central de Regulação Estadual e, no dia 23, o paciente morreu sem que o leito tivesse sido disponibilizado.

A Secretaria de Estado da Saúde disse que chegou a liberar, no mesmo dia, a internação no Hospital Estadual (HE), quando o PSC informou que ele precisava ser isolado por apresentar quadro de síndrome respiratória grave. Sem vaga específica, o HE teria monitorado a evolução do caso e sido informado que o estado do paciente era estável. Em nota, a Secretaria de Saúde esclareceu que o paciente recebeu no PS o mesmo tipo de tratamento medicamentoso que seria oferecido no hospital.

 

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