Precisamos de ajuda para que os dependentes químicos recém-tratados não retornem às ruas e ao vício. O apelo é feito por um grupo de religiosos que, em uma inciativa pioneira na cidade, busca parcerias para instalar uma Casa de Pós-tratamento que ofereça atividades, estudo e treinamentos para ex-usuários de drogas em tempo integral.
O projeto, chamado “Alimentando Corpo e Alma” já engatinha há alguns meses com a ajuda de voluntários, mas ainda não possui sede fixa.
Conforme explica a coordenadora da ação, a pastora Elaine Domenegheti, o projeto propõe que os ex-dependentes, após passarem por tratamento de desintoxicação em clínicas ou centros de recuperação, sejam acolhidos por uma espécie de centro de apoio, chamado de Casa de Pós-tratamento.
Nesse local, segundo a coordenadora, os ex-usuários seriam recebidos das 8h às 17h para participar de atividades e treinamentos profissionais, que possibilitariam a autopreparação da pessoa para o retorno ao convívio social.
“Hoje, os ex-dependentes saem
perdidos das clínicas de recuperação e, na maioria das vezes sem um apoio familiar ou amigo. Por isso, eles acabam voltando facilmente para o mundo das drogas. Queremos reverter essa situação”, explica a pastora, enfatizando que a intenção é de transformar o projeto em uma futura ONG no combate às drogas.
Necessidade
De acordo com Roberto Cardoso da Silva, que também é pastor e há alguns anos trabalha com dependentes químicos em uma clínica de recuperação, de cada dez pessoas que passam pelo tratamento na cidade, ao menos cinco voltariam para o vício.
O fato, segundo ele, aconteceria por conta da pouca participação das famílias no tratamento do usuário. “Os familiares também precisam frequentar algumas reuniões nas clínicas para entender que o tratamento continua por toda a vida, mas, muitas vezes, eles acabam não participando e isso prejudica o paciente”, considera o pastor, que também participa da ação junto ao grupo.
Mesmo sabendo que não existe cura para o vício, Silva defende que um pós-tratamento adequado e com o apoio garante o estacionamento da ‘doença’. “A pessoa precisa de um lugar que a acolha, que a ensine a viver de novo e que a mantenha ocupada, longe das substâncias psicoativas e dos locais de alto risco”, reforça o pastor.
Primeiro passo
Há seis meses e com um grupo de seis pessoas, o projeto “Alimentando Corpo e Alma” deu o seu primeiro passo, realizando um trabalho de ajuda para internação de dependentes químicos.
Segundo a pastora Elaine, todas as sextas-feiras, por volta das 23h, o grupo religioso, coordenado por ela, se reúne em pontos críticos da cidade, como próximo à linha férrea e abaixo dos viadutos centrais, na intenção de proporcionar aos usuários de crack e demais drogas uma espécie “luz ao fim do túnel”.
“Muitas vezes encontramos pessoas ali com vontade de sair das drogas, mas que não sabem o caminho para o tratamento ou que não acreditam em si mesmos”, pontua a coordenadora do projeto.
Com meios próprios, a pastora e o grupo se organizam para levar os usuários que aceitam a recuperação ao atendimento oferecido pela Casa de Passagem e pelo acolhimento do Centro de Apoio Psicossocial/Álcool e Drogas (Caps/AD). Após as avaliações e tratamentos médicos iniciais, o grupo religioso se compromete a acompanhar os pretendentes até a liberação da vaga em unidades clínicas de internação.
Respeito à doença
Com 41 anos de idade e mais de 15 despendidos ao vício pelo crack, um ex-mecânico bauruense, que pediu para não ter seu nome divulgado, ainda carrega as marcas dos anos em que trocou sua vida, razoavelmente confortável com sua família, para viver nas ruas em busca da droga.
“Quando me dei conta já havia perdido tudo. Não tinha mais nada e só me restava a tentativa de sair dessa”, revela o homem de 41 anos.
Internado em uma clínica para dependentes químicos por vontade própria, após alguns meses de tratamento, o ex-mecânico quase voltou ao mundo das drogas depois da recuperação. Por sorte, ou pelo destino acabou se encontrando com a ajuda proporcionada pelo grupo coordenado pela pastora Elaine e conseguiu forças para lutar mais uma vez contra o vício.
“Hoje eu me considero curado, mas respeito a doença. Não frequento bares, minhas amizades mudaram e meus hábitos mudaram. Sem uma ajuda amiga, seria impossível resistir. Posso dizer que consegui voltar a viver e quero ajudar as outras pessoas a também conseguirem”, frisa o rapaz sobre os trabalhos realizados pelo grupo com dependentes químicos, a qual atualmente também faz parte.
Ajuda
Para que o projeto “Alimentando Corpo e Alma” se constitua em uma casa de pós-tratamento na cidade, o grupo pede ajuda para empresas e pessoas interessadas, pois ainda não possui um imóvel para a sede e precisa de parceiros para montar uma grade com as atividades no centro, que deverão incluir desde cursos de estudos até trabalhos manuais.
“Quanto mais parceria, melhor será a recuperação e menor serão os índices de pessoas usuárias de drogas”, projeta Elaine Domenegheti, coordenadora do projeto.
O contato com o grupo pode ser feito por meio dos telefones (14) 3237-7573; (14) 9833-1562; (14) 8800-2028.
Etapas
Com a Casa de Pós-tratamento, os ex-usuários, recém-tratados, passariam a contar com uma sede fixa para receber o apoio diário.
Já o tratamento para dependentes químicos na cidade apresentaria quatro ciclos: o pré-atendimento, oferecido pelas futuras Casas de Passagem, o tratamento realizado pelo CapsAD, a internação e desintoxicação feita nas clínicas de recuperação e hospitais e o pós-tratamento, oferecido pela futura Casa de Pós-tratamento.
Para a secretária do Bem-Estar Social do município, Darlene Tendolo, a iniciativa é vista com extrema importância na cidade. “Ainda não temos um trabalho nesse sentido. Sugiro que os idealizadores procurem se informar e inscrever o projeto no Conselho Municipal de Assistência, assim podemos ser parceiros. Nos colocamos à disposição para toda ação de fortalecimento contra a droga”, salienta a titular da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes).
Segundo explica a psicóloga do CapsAd, Valéria Moron Gimenes, o trabalho oferecido aos pacientes na unidade já inclui a reinserção social. “A maioria dos nossos pacientes aderem ao tratamento enquanto ainda estão no mercado de trabalho, mas nos casos de pessoas que já perderam o emprego, após o tratamento, realizamos o encaminhamento para que os Cras, Creas, Centro Pop. ajudem nessa reinserção”, salienta Valéria, sobre o plano de tratamento individual oferecido.