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Compreensão mútua é segredo dos casais com idades distintas

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 7 min

 

João Rosan

Jornalista  Nádia de Oliveira, 44 anos, e o advogado Joaquim Mendonça Sobrinho, 75 anos 

Dizem que “não há idade para amar”. No entanto, basta aparecer um casal de faixa etária “desproporcional” que as mesmas bocas que tecem frases e ditados lindos de um mundo florido disparam comentários jocosos do estilo: “’papa anjo’.... ‘olha lá, mãe e filho’....’vai trocar a fralda’?” 

 

Contudo, apesar de ainda existente o preconceito, casais de distintas idades hoje são vistos com melhores olhos do que eram há algumas décadas. Num mundo que galopa na velocidade da internet, pares amorosos com larga diferença de idade acompanham a velocidade dos jovens (em atitude) e adotam estilo de vida marcado por compreensão mútua. 

 

É o caso de Joaquim Mendonça Sobrinho e da jornalista Nádia Naura de Oliveira. Ele, advogado, 75 anos. Ela, apresentadora da TV Preve, 44. Ambos se conheceram nos bastidores de um programa na época em que Joaquim militava na política e acompanhava candidato que seria entrevistado pela atual companheira. 

 

Quatro anos depois, o casal narra sua rotina, e é fácil identificar quem é quem. “Não acompanho o ritmo. Quero dormir cedo, ao ponto que [a pessoa amada] dorme só de madrugada, gosta de sair”, narra um deles. “Eu gosto de ir para restaurantes e viajar. Temos uma rotina muito dinâmica”, comenta o seu par. 

 

Acertou quem adivinhou que a jornalista quer aquietar e quem apostou no advogado como alguém que não sossega o facho. 

 

Para eles, o segredo em lidar com as diferenças (não com relação a idade), mas comportamento e preferências, está na compreensão, gerada apenas com o sentimento verdadeiro. “Ela entende e respeita até os problemas naturais de nossa idade”, valoriza Joaquim. 

 

Preconceito, contam, nunca enfrentaram. Pelo contrário, comenta Joaquim. “No nosso círculo de amizades há outros casais com realidade semelhante. Nunca enfrentamos rejeição ou reprovações”, assegura o advogado. 

 

Não é desculpa

 

Às vezes, entretanto, mesmo com as diferenças de idade encaradas de forma mais natural pela sociedade em geral (mas, principalmente, pelo próprio casal) incompatibilidade de gênios ou opções de vida também surgem. 

 

Aos 47, a vendedora Elaine Aparecida Botelho acaba de se separar de um casamento que durou mais de uma década com um homem 18 anos mais novo. 

 

Nada a ver com a idade o motivo do rompimento, garante ela. “Ele queria ir para a cidade natal, no interior do Paraná. Eu quis ficar. Não nos entendemos nesse sentido e terminou”, narra ela, seis meses após a separação. 

 

Diferentemente dos personagens que abrem a matéria, Elaine lamenta ter sido alvo de preconceito durante o tempo em que esteve com o, agora, ex-companheiro. “Nos separamos por diferença de pensamentos”, reforça. 

 

“Conseguimos conciliar bem a diferença de idade, em compensação já ouvi muita coisa, dos outros”, recorda, citando piadinhas maldosas no estilo das que abrem este texto, vindas de pessoas desconhecidas ou, pior, gente bem próxima. 

 

“No começo encaramos muita coisa assim, situações de entrar num restaurante e perguntarem sobre ‘meu filho’ ou a ‘sua mãe’. Mas isso tudo bem, porque não sabiam”, compreende, dizendo que o problema maior era o preconceito, reforça, vindo de gente conhecida. 

 

Apesar de considerar que a relação, mesmo findada, deu certo, sim -  “afinal foram 11 anos”, argumenta – ela não acredita que encarará uma situação semelhante. “No caso da gente, ele também era uma pessoa vivida e sofrida, mesmo com a pouca idade. Começou a trabalhar cedo e saiu da casa dos pais também antes dos jovens na mesma idade”, valoriza. 

 

“Hoje é diferente. Mesmo se eu encontrasse uma pessoa na faixa dos 30, ela dificilmente teria a mesma maturidade”, avalia. 

 

 

 

‘O meu ciúme...’

 

Entre casais com larga diferença nas primaveras vividas, os janeiros passados acabam sendo a menor das preocupações quando o assunto é um dos que mais causam separações ou, no mínimo, algumas noites no sofá, geralmente para eles. 

 

O ciúmes, acentuado para todos os casais (independentemente à idade) após o advento das redes sociais da Internet, continua sendo vilão para a harmonia conjugal, seja qual for a faixa etária dos envolvidos. 

 

Marcos  Antônio Joaquim de Oliveira, biólogo de 34 anos, é casado com a publicitária Malvina Waisberg, de 48. Juntos há três anos, eles convivem com as qualidades e “peculiaridades” comportamentais do outro da melhor forma possível. 

 

O único entrave, no caso de Marcos, é o ciúme da mulher, acentuado, segundo o biólogo, sempre que ele posta e compartilha comentários na rede. 

 

Por outro lado, Marina garante, está aprendendo a lidar com a situação. Da mesma forma, o maridão também terá que se enquadrar e maneirar nas biritas do final de semana. 

 

“Mostro para ele que não pode exagerar. Ele se conscientizou e tenta se policiar. Vai dar certo, beber apenas socialmente”, considera a esposa. 

 

‘Eu, a minha patroa e as crianças’

 

 

 

Casais com ampla diferença de idade também trazem, principalmente os mais velhos, larga bagagem de vida que é incluída na trajetória do parceiro. O “kit”, geralmente, vem com hábitos, memórias e, em boa parte dos casos, filhos. 

 

Clarisse Tzirulnik Edelstein, de 48 anos, e Márcio Luiz Edelstein, 57, ao todo, têm quatro filhos juntos (dois apenas dele e outros dois frutos da atual união). Para Márcio, o maior pilar para a relação dar certo é o comprometimento familiar. Já Clarisse considera fundamental a honestidade. 

 

Ela diz encarar perfeitamente a incumbência de ser mãe “em dobro”. O ciúme, no caso, começa a aflorar do lado do maridão, que, segundo ela, está de orelha em pé depois que Clarisse deu uma enxugada no visual.  “Eu emagreci bastante e ele está mais ciumento. Sempre tivemos uma relação bacana, de confiança”, considera ela, que não dispensa um happy hour com as amigas. 

 

“Ele não fala nada, pode até não gostar, mas não reclama”, enfatiza, garantindo, contudo, que o ciúme de Márcio é leve, sem possessão. “A vida é bem melhor se compartilhada com quem você ama, não importa a idade e sim a boa companhia”, ensina. 

 

Contudo, mesmo com todo o carinho e compreensão, sempre existe a insegurança, inerente a qualquer ser humano. 

 

No caso do par Sérgio e Louise Klass, que moram em São Paulo, ela bate no lado do mais velho. Sérgio, que tem 11 anos a mais do que a mulher, admite: às vezes não é fácil carregar um pouco mais de bagagem em relação à mulher.

 

 Contudo, ele garante que confia no próprio taco. “A confiança é a base da nossa relação”, atribui Klass, já cinquentão, com ela na beira dos os 40. 

 

 

Conexão dupla

 

Para evitar dores de cabeça inerentes ao inevitável mundo novo virtual, o casal, que tem cinco filhos, prefere jogar limpo quanto ao uso das redes sociais. 

 

Para isso, Sérgio diz preferir que a esposa cuide de seu perfil na web para que tudo, de fato, fique às claras entre o casal. No mais, aconselham, o importante é aprender a lidar com as diferenças e eventuais conflitos. “Aprendi a respeitá-lo como ele é e contornar as situações”, avalia ela. (Colaborou Adriana Klass Pekler)

 

 

Idade é o de menos

A compreensão mútua, salienta a psicóloga e terapeuta cognitiva Mauricéia Quinhoneiro, é uma das chaves para a perfeita convivência, não apenas entre casais de gerações diferentes, mas para todo e qualquer tipo de vínculo amoroso.  “Na prática clínica, a diferença de idade não é, necessariamente, um fator de destaque de problemas entre o casal”, atesta. 

 

As maiores diferenças inerentes ao choque de gerações, observa a terapeuta, são facilmente superadas quando há amor e boa vontade mútua. 

 

“Com o avanço da medicina e o surgimentp, a cada dia, de novas técnicas para se manter a jovialidade, pessoas de diferentes faixas etárias sentem-se menos vulneráveis e com maior confiança em termos de atratividade em relação ao parceiro mais jovem”, conceitua.  

 

Isso também gera até mesmo afinidades iguais. “Vejo pessoas de idades diferentes se aproximarem por gostarem das mesmas coisas, tais como música, livros, teatro, cinema, esportes, entre outras”, elenca.

 

“Idade, muitas vezes, fica em segundo plano”, considera a terapeuta que diferencia totalmente maturidade emocional de janeiros já vividos. 

 

“A cumplicidade e o companheirismo também são fatores importantes para uma relação saudável. Nem sempre a maturidade emocional capaz de favorecer um relacionamento está diretamente relacionada à idade”, acentua a psicóloga, do Centro de Terapia Cognitiva (CTC), de Bauru. “Claro que a experiência de vida conta muitos pontos, mas não é determinante”, diferencia. 

 

 

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