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Temporada das águas: alívio e riscos

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 9 min

Depois de 63 dias de estiagem, completados ontem, finalmente deve voltar a chover em Bauru. A expectativa é de que uma pancada de intensidade moderada a forte seja registrada no final da tarde de hoje, o que deve trazer alívio, mas também preocupação aos bauruenses.

Segundo o Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a chuva de hoje deve abrir oficialmente a temporada das águas na cidade, em que enchentes e alagamentos formam um cenário comum.  Ainda que algumas melhorias tenham sido executadas pela prefeitura no último ano, entre elas a implantação de galerias em vários bairros, nem todos os problemas foram resolvidos e a população deve ficar atenta e adotar algumas medidas de prevenção para evitar surpresas desagradáveis.

De acordo com o coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, a avenida Nações Unidas continuará sendo o ponto mais crítico de enchentes na área central durante o período de chuvas, que deve se prolongar pelo menos até março. Locais conhecidamente problemáticos, como as avenidas Alfredo Maia e Comendador José da Silva Martha, próximo à linha férrea, também não receberam soluções definitivas para evitar alagamentos.

Os bueiros entupidos da cidade, que por questões burocráticas ainda não estão sendo limpos por uma máquina de sucção a vácuo comprada pela prefeitura, também representam riscos. Diante desta condição, Brito explica que a população deve adotar medidas práticas para evitar transtornos quando os temporais chegarem.

De forma preventiva - e ainda há tempo para isso -uma das primeiras ações é limpar calhas, rufos e ralos, além de verificar as condições do telhado da residência. Outras duas importantes recomendações são jamais jogar lixo nas ruas e sempre acionar o 193 ou 190 em caso de perigo.

“Estando a pé, de carro ou em casa, peça ajuda. Não tente enfrentar enxurradas”, salienta Brito. Motoristas devem programar, de antemão, caminhos alternativos às vias tradicionalmente críticas, como a avenida Nações Unidas.

“Enquanto as obras não são realizadas, as pessoas precisam se planejar, sair de casa com um trajeto diferente na cabeça, que ela possa fazer se começar a chover. E, não custa reforçar, em hipótese alguma tente transpor alagamentos”, frisa.

 

Na rua e em casa

Para quem tem carro, é importante verificar as condições dos limpadores de para-brisas, que podem ter ressecado após o longo período de estiagem. “É um equipamento importante, mas a maioria só vai descobrir que não está funcionando direito quando precisar dele”, observa o sargento José Roberto Francelozo, policial militar do Pelotão de Trânsito de Bauru.

De acordo com ele, pneus e freios também devem estar em ordem, já que a água da chuva deixa as ruas mais escorregadias e, portanto, mais suscetíveis a acidentes. “E, mesmo com todos os equipamentos funcionando perfeitamente, os condutores devem, sempre, reduzir a velocidade”, completa.

Caso a enxurrada invada os bairros, é preciso atenção redobrada com crianças e animais, que podem ficar com medo e tentar se esconder em locais nem sempre seguros. E, por mais que possa parecer divertido, os pais devem advertir os filhos sobre os perigos de brincar em locais alagados ou com correnteza.

“Além da possibilidade de afogamento, há risco de transmissão de leptospirose, hepatite, dermatites, entre outras doenças. Por isso, qualquer alimento que cair na água represada da chuva, mesmo sendo enlatado, deve ser descartado”, detalha Brito.

 

Vítimas de vendaval reconstroem histórias

O borracheiro Valdonir Antônio Nascimento e a dona de casa Eliana Maria de Souza vivem em bairros diferentes, mas possuem algo em comum. Ambos foram vítimas dos vendavais atípicos registrados em Bauru no início de junho deste ano e, com sacrifício, conseguiram reconstruir o que a chuva derrubou.

Na época, Nascimento, conhecido como Niquinho, contou seu drama ao JC. Sua borracharia localizada na rua São Sebastião, Jardim Nova Esperança, foi totalmente destelhada por um vendaval e o prejuízo, de cerca de R$ 10 mil, foi dividido com o proprietário do imóvel.

“Ficamos duas semanas com a borracharia coberta por lona. Além do telhado, parte das paredes cedeu e tudo precisou ser refeito”, comenta o filho dele, Vitor Matheus Bueno Nascimento. Niquinho não estava quando o JC visitou o estabelecimento, mas Vitor explicou que a inclinação da telha foi aumentada para evitar novos acidentes.

Já Eliana, moradora da rua Jeso Contijo de Moraes, no Parque Jaraguá, apenas substituiu a telha de amianto levada pelo vento e diz ter medo de perder a cobertura da casa novamente. “Não tinha condições de fazer nada além disso. Só a telha ficou em R$ 300,00 e ainda estou pagando. Comprei em seis vezes”, lamenta.

No dia da chuva, Eliana estava jantando com o marido e os quatro filhos. Com exceção da cozinha, em todos os demais cômodos mais de metade do telhado foi arrancado. A família teve de se abrigar na casa de parentes. “Depois do vendaval, começou a chover forte. Molhou tudo o que estava dentro e tive que jogar todos os colchões fora”, lamenta.

 

Apesar de melhorias feitas, velhos entraves persistem

Apesar da Secretaria Municipal de Obras ter implantado cerca de 20 quilômetros de galerias - distribuídas em bairros como Parque das Nações, Viaduto, Jardim Silvestre e Jaraguá -, alguns problemas devem persistir em Bauru com a chegada da época de chuvas. Um exemplo é a avenida Nações Unidas, que passa por cima de um rio e não conta com galerias capazes de drenar todo o fluxo d’água em dias de temporais, e a avenida Alfredo Maia.

“Uma solução seria o piscinão da Água do Sobrado (onde está projetada a construção de uma avenida), que ainda não está funcionando. Ele pode drenar toda a água da chuva que desemboca no córrego Água do Sobrado e segue em direção a Alfredo Maia”, cita o coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito.

A obra está atrasada, assim como a interligação entre os bairros Jardim Flórida e Núcleo Habitacional Nobuji Nagasawa (Bauru 2000), onde estão previstos serviços de galerias, aterro e pavimentação para a transposição do Córrego Barreirinho. O secretário municipal de Obras, Eliseu Areco Neto, cita como desafios a implantação de células de concreto para a transposição de córrego nas imediações da Chácara Itália e o mesmo tipo de serviço na região do antigo Bauru Country Club, localizado nas imediações do Jardim Tangarás.

As obras, segundo ele, devem ser concluídas até dezembro. “Da mesma forma, na região da rua Marcondes Salgado, as condições devem ser melhoradas até o final do ano, quando as obras para conduzir a água da chuva ao rio Bauru (executadas pelos empreendedores do Boulevard Shopping Nações) devem ficar prontas”, comenta.

Há riscos ainda para populações que vivem em áreas de várzea que não receberam a devida infraestrutura e ficam próximas a córregos que cortam a cidade. Exemplos são as favelas Filomena e São Manoel, e parte das residências do Parque das Nações, Jaraguá e Jardim Andorfato. “A solução definitiva é a retirada dessas pessoas de lá, assim como já foi feito em outras áreas de risco, como o Jardim Ivone”, observa Brito.

 

Limpeza de bueiros continua ‘empacada’

No final do ano passado, a prefeitura adquiriu uma máquina de sucção a vácuo, avaliada em R$ 400 mil, que tem a função de desentupir galerias. Mas o equipamento, que tem capacidade para realizar o serviço executado por 10 homens, ainda não foi posto em funcionamento.

“Ele é usado em cima de um caminhão, que a prefeitura ainda não dispõe. Fizemos a compra de alguns caminhões, mas por problemas na licitação, o processo está atrasado. Porém, esperamos que tudo esteja resolvido até meados de novembro”, comenta o secretário de Obras, Eliseu Areco Neto.

Para o coordenador da Defesa Civil, Álvaro de Brito, o investimento só foi necessário porque falta educação e consciência ambiental por parte da população. “Infelizmente, a gente ainda encontra de tudo dentro das galerias. Desde sacos de lixo e coco verde em grande quantidade até pedaços de eletrodomésticos, computadores e celulares.”

 

Poda e supressão de árvores

Segundo Valcirlei Gonçalves da Silva, titular da Secretaria Municiapl do Meio Ambiente (Semma), o tempo de espera para a pasta autorizar serviços de poda e supressão de árvores condenadas foi reduzido neste ano. Antes, o morador aguardava, em média, dois meses para ter seu pedido liberado - ou negado.

Agora, ele garante, a fila não demora mais do que uma semana. “Passamos a dar treinamento específico para os funcionários aprenderem a identificar a necessidade ou não de poda, deixando apenas a análise de supressão para os técnicos. Isso agilizou nosso trabalho”, frisa. O total de oito funcionários para realizar os serviços de supressão e poda permanece o mesmo.

 

Prevenção contra a dengue

Água limpa e parada, chuvas frequentes e temperaturas elevadas são combinações perfeitas para os criadouros do mosquito da dengue, o aedes aegypti. A fêmea vive em média 40 dias e pode colocar cerca de 450 ovos em qualquer época do ano, todos em condições de resistir por mais de um ano à espera de água para eclodir.

Para tanto, basta haver locais de fácil concentração de água - de caixas d’água a pneus até copos descartáveis e cascas de ovos. Ao se tornar adulta, a fêmea pode voar à distância de até 100 metros de seu criadouro, com capacidade de contaminar, em média, 300 pessoas. Geralmente, as picadas ocorrem durante o dia.

 

É só o começo

A chuva chega hoje a Bauru e a previsão é de que pancadas ocorram nos fins de tarde pelo menos até sexta-feira. Segundo dados do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTec), hoje o céu deve permanecer ensolarado ao longo do dia, com ocorrência de chuva de intensidade moderada a forte no período da tarde.

“Vai ser uma chuva quase típica de verão, de menos de meia hora de duração. Só vai causar estrago se a cidade não estiver preparada para recebê-la”, frisa o meteorologista Eduardo Gonçalves, do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Com o tempo nublado, as temperaturas máximas devem cair para 30 graus, garantindo alívio ao calor dos últimos dias.

No dia 2 de setembro, a umidade relativa do ar chegou a 13% em Bauru, marca classificada como estado de alerta. Ao todo, foram 63 dias de estiagem, o período mais longo de seca dos últimos cinco anos.

Em 2007, os bauruenses ficaram 64 dias sem chuva, mas o recorde histórico foi registrado pelo IPMet em 1988, quando a ausência de chuva se prolongou por 86 dias.

 

Para afastar o aedes aegypti

* Manter quintais limpos, descartando garrafas vazias, pneus velhos e recipientes que possam armazenar água ou mantê-los devidamente protegidos com tampas

* Manter caixas d’água devidamente tampadas

* Manter pratos de vasos com areia

* Cobrir piscinas com lona

* Manter a limpeza de calhas (três vezes ao ano)

* Tampar vasos sanitários

* Depositar hipoclorito de sódio (alvejante) em ralos externos e internos

 

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