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Talento artesanal traz cliente fiel

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 4 min

“Tudo que tenho, conquistei na ponta da agulha”. O depoimento sugere alguém que manuseia um armamento. Se for considerar o tesourão como armamento, o economista José Roberto Nascimento, 49 anos, tem em sua alfaiataria um vasto arsenal com alfinetes e outros aparatos que deixam os homens alinhadíssimos para a “guerra” do dia a dia.

Em Bauru, já é possível contar nos dedos de uma única mão artistas como Nascimento, mas ele é, sim, um exemplo sob medida de alfaiate e camiseiro. 

A grife Nascimento tem clientes de Curitiba (PR) e Santos que mandam o tecido e recebem camisas via Correios. Nascimento conta que eram pessoas que residiam em Bauru e se mudaram para outras localidades, contudo não perderam o ideal de vestir uma roupa de alfaiataria. São gerentes, comerciantes, executivos de empresas de São Paulo, Agudos, Brotas e Lins.

É gente disposta a investir em tecidos de até R$ 300,00 o metro em busca da melhor modelagem.

Nascimento, aos 10 anos, começou a aprender o ofício com seu pai Manoel, 78 anos, que já se aposentou. Nascimento tem a impressão de que o pai não fez esforço para que o filho continuasse a linhagem de alfaiates da família, talvez já prevendo a concorrência da confecção industrial. Porém, se nem a promissora carreira de economista foi capaz de arrebatar Nascimento, nada o fará desistir de uma profissão nobre.

 

Ajuda com os botões

Graças à  sua sensibilida de, trabalho não falta. Porém falta mão de obra que possa ajudá-lo a transformar artesanalmente tecidos em roupas. A esposa Edna Biroli Nascimento ajuda na fixação de botões que em uma confecção industrial são costurados nas máquinas.

Nascimento puxa uma calça de um cliente tradicional de Bauru e mostra a braguilha de botões, sistema de fechamento praticamente abolido com a fabricação industrial.

Há clientes que pedem habilidade para aplicar na trama do tecido de camisas o monograma com as letras iniciais da pessoa que irá vestir a peça. Edna é responsável pelo trabalho delicado em tecidos finos. Alguns clientes querem a inscrição no bolso; outros optam pelo punho.

Nascimento conta que dois dias é o tempo médio para se produzir uma camisa. O trabalho minucioso vai do corte, costura, à colocação de colarinhos e punhos sob medida. Sempre com busca de atualização nesses quase 40 anos de profissão.

Em tempo, aos interessados: a alfaiataria de José Roberto Nascimento fica na rua Padre João, 8-16. O telefone é (14) 3234-7294.


Artesão reproduz um mundo na madeira

O artesão Geraldo Pereira dos Santos, 54 anos, desenvolve uma sensibilidade para retratar na madeira experiências particulares e universais. Uma de suas primeiras peças, o engenho de cana de açúcar movido por bois, recupera o ambiente em que viveram seus antepassados, os escravos. A singela peça fica exposta na estante da sala.

Ele revisita em suas obras sua infância em Campos Belos, município de Goiás. Sua profissão sempre foi de motorista. Indo de um ponto ao outro do país e até para Argentina e Paraguai, confessa que arquivou em sua memória muito do acervo que transpõe para a madeira.

Atualmente, está talhando uma fazenda, em que dá forma a cachoeira, casa grande, animais e gente trabalhando.

A coleção de obras preservada em sua residência mostra temas recorrentes. Uma passada de olhos e se percebe que Geraldo faz dos temas uma desculpa para encontrar novas paisagens, personagens e enredos.

A reprodução do Taj Mahal, erguido na Índia, sugere que as colunas esculpidas por Geraldo foram obra de uma colagem de peças estanques. Pois aí o artista esconde sua trucagem. A peça é inteiriça. Assim o dragão da cultura oriental também foi esculpido descolado de sua base, porém em uma mesma peça. A influência do dragão veio do filho Anderson Fernandes dos Santos, 21 anos, técnico de computação, designer sonoro, músico e integrante da banda Sinapse.

 

Todas preservadas

A mesma engenharia fez “brotar” um coqueiro proeminente e uma cena pitoresca de arraiá de pescadores com casarão à beira mar.

A esposa de Geraldo Diva Fernandes, 49 anos, comenta que o marido nunca perdeu uma peça.

O artesão já expôs por um período na feira de artesanato Ubá, em Bauru.

Um colecionador se encantou pelo seu trabalho e adquiriu 20 diferentes peças do seu acervo. Há cerca de seis anos passou a produzir também peças encomendadas e utilitárias, como baú, bancos de madeira, todas com acabamento cuidadoso. Já ganhou algum dinheiro vendendo sua produção. Algumas peças fez por encomenda. Recriou o palco do Parque Vitória Régia com suas colunas entrelaçadas. 

Geraldo comenta que sua primeira obra foi uma cigarreira. Há cerca de 26 anos, vinha de Brasília a São Paulo de ônibus.

Ele notou uma passageira com uma caixinha em formato de maço de cigarro. Quando chegou em casa produziu a sua versão que deu de presente à esposa. A caixinha continua com Diva.

Onde encontrá-los? Na rua Felício Atala, 4-06, no Jardim Flórida. Telefone é (14) 3277-2674. E tem e-mail: ge_arts@hotmail.com. 

 

 

Desde a infância

 

O artesão Geraldo Pereira dos Santos comenta que desde pequeno mostrou habilidade para fazer seus próprios brinquedos. O sabugo de milho foi sua matéria-prima na infância. 

 

Adulto, começou a produzir sua arte depois de um problema de saúde que abalou profundamente o seu modo de interagir com a vida. 

Como terapia, Geraldo mergulhou no artesanato. “Me escondi atrás disso. É o melhor remédio”, define.

 

O primeiro prejuízo foi a impossibilidade de dirigir após 28 anos comandando o volante de caminhão e de ônibus. (RS)  

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