O público de estudantes universitários da Instituição Toledo de Ensino (ITE) lotou o auditório onde foi realizado, ontem, mais um debate entre os candidatos a prefeito de Bauru. Aproximadamente 350 pessoas estiveram lá e foram as protagonistas de um dos mais picantes confrontos entre os prefeituráveis desta morna campanha. Os aplausos dos eleitores foram o principal termômetro do encontro e apontaram para uma mudança de comportamento ao longo das duas horas de duração do encontro.
Rodrigo Agostinho (PMDB) gozou de sua popularidade e favoritismo no cenário eleitoral assim que foi anunciado para compor a mesa onde já estavam seus adversários. Diferentemente dos demais, que receberam apenas o aplauso cordial dos presentes, o prefeito foi ovacionado, com intensos gritos, especialmente os femininos. O mesmo se repetiu quando os candidatos tiveram o tempo inicial para se apresentarem.
O cenário foi invertido, porém, quando começaram a ser respondidas as perguntas, elaboradas pelos cursos da ITE e dirigidas, cada uma, a todos os prefeituráves. A primeira delas abordou justamente a crise no abastecimento de água, que tem sido o ‘calcanhar de Aquiles’ da campanha de Rodrigo e preocupado o alto escalão da coligação ‘Bauru de Todos’.
Após o candidato à reeleição atribuir o problema ao rápido crescimento da cidade nos últimos anos e à reduzida capacidade de investimento do Departamento de Água e Esgoto (DAE), foi contra-atacado por Chiara Ranieri (DEM), que pontuou contundentes críticas à administração municipal.
Ela citou os superávits de R$ 12 milhões e de R$ 10 milhões da autarquia nos dois primeiros anos do governo Rodrigo e enfatizou que recursos não foram investidos em ações planejadas por conta das falhas de gestão da autarquia. “Não dá para falar em crescimento se outras cidades do mesmo porte tiveram os mesmos índices, de 10%, e a água só está faltando aqui”, disparou.
Chiara lembrou ainda que a administração só entregou o primeiro poço depois de três anos e deu ênfase aos vazamentos, que segundo ela, jogam pelo ralo R$ 2 milhões por mês em água tratada. “Imaginem uma empresa que não consegue vender o que produz. É isso o que acontece. Não dá para aceitarmos desculpas”.
Com este discurso, a demista superou os aplausos e gritos iniciais a Rodrigo e repetiu o feito quando comentou o aparelhamento político e a inércia da política industrial do prefeito. “O zoneamento dos lotes urbanizados para receber indústrias está previsto desde 2008, mas o prefeito só mandou isso para a Câmara agora, vocês sabem por que, né?”, ironizou, referindo-se ao período eleitoral.
Ordem de respostas prejudicou Rodrigo
A ordem de resposta dos candidatos às questões propostas no debate promovido pela ITE foi definida por sorteio único para os quatro blocos. Respondiam Clodoaldo Gazzetta (PV), Paulo Sérgio Martins (PSTU), Rodrigo Agostinho (PMDB), seguido por Chiara Ranieri (DEM).
Sem alterações na dinâmica, o candidato à reeleição foi prejudicado por, em nenhuma parte do debate, ter condições de rebater as informações e acusações de sua principal algoz, Chiara.
Apesar disso, Agostinho teve momentos positivos no debate. Sem ter sido abordada em nenhuma questão, a Educação foi colocada na pauta pelo próprio prefeito, que conquistou reações positivas do público, além das funcionárias da Secretaria Municipal de Bem-Estar Social (Sebes), que estavam presentes, junto da titular da pasta, Darlene Tendolo.
O curso de Direito foi responsável pelas duas primeiras do primeiro bloco e abordaram a falta de água e aparelhamento político da administração indireta. O curso de Serviço Social quis saber sobre o enfrentamento ao crack e o sistema de Saúde. Administração e Ciências Econômicas questionaram sobre as vocações para o desenvolvimento de Bauru e políticas para atração de empresas ao município.
No final, três perguntas do público foram selecionadas pela organização. A primeira delas questionou as prioridades dos prefeituráveis; a segunda, soluções para os gargalos do trânsito; e a última, a relação da prefeitura com as entidades sociais.
Gazzetta empolga o público com história da ‘saúde de dona Maria’
Clodoaldo Gazzetta (PV) atingiu seu auge no debate ao comentar a Saúde. Livre das amarras aos governos municipal e estadual, que empurram entre si os problemas nos serviços de saúde pública em Bauru, o candidato exemplificou como a falta de gestão impacta ainda mais o sistema.
Utilizando-se de personagem fictícia, a quem chamou de dona Maria, de 80 anos, o candidatou relatou que esta senhora, queixando-se de dor no estômago, procurou a UPA do Mary Dota. Lá, o médico solicitou um exame de ultrassonografia. No entanto, a paciente não se conforma com o tempo de espera no Ambulatório Médico de Especialidades (AME) e se dirige a UPA do Bela Vista e a diversos postos de Saúde. “Com isso, o sistema é impactado muito mais vezes do que o necessário, encarecendo-o ainda mais”, explicou Gazzetta.
O candidato concluiu ainda que, sem o exame e o diagnóstico preciso, o quadro de saúde de dona Maria se agrava, ela vai para o Pronto-Socorro Central (PSC), precisa de internação, não consegue vaga e morre. “Mas aí, dizem que ela faleceu porque já estava velhinha. Mas não. O problema está lá na origem, mas a comoção só é criada quando isso acontece com alguém jovem”, pontuou.
Segundo Gazzetta, essa situação só vai se resolver quando o município tiver seu próprio AME. Rodrigo Agostinho (PMDB) rebateu, alegando que as responsabilidades são dividias entre município e o Estado e este deve cumprir sua parte. “Deixaram morrer nosso Hospital de Base”, comentou.
Logo em seguida, Chiara Ranieri (DEM) retrucou que o município também não faz sua parte, citando as filas de pacientes formadas durante as madrugadas para obtenção de senhas nos postos de Saúde. “Não fizeram nem a informatização na rede. A gente não sabe que a dona Maria vai em cinco lugares porque a rede não conhece seus pacientes”