Esportes

Noroeste: ?Fecharam a torneira e vamos morrer de sede?

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 5 min

Quioshi Goto

A foto de Quioshi Goto retrata o sentimento predominante no Noroeste após renúncia de Damião; os atletas das categorias de base deixaram o Alfredão, ontem, arrasados 

“Acabaram deixando pior do que há dez anos, hoje é mais difícil para alguém pegar. Se não tivesse esta folha de pagamento, era mais fácil.” Assim, Toninho Gimenez, presidente em exercício do Noroeste após a saída de Damião Garcia e do aporte financeiro da família Garcia do clube, resume a situação do centenário Alvirrubro. Com uma despensa mensal de R$ 400 mil e uma receita de R$ 80 mil, Gimenez teme que o clube agonize e pereça. “Fecharam a torneira e vamos morrer de sede”, alerta, referindo-se ao abismo entre créditos e débitos mensais. O Noroeste é deficitário e a abissal diferença de R$ 320 mil reais era bancada do próprio bolso por Damião. Além disso, dos R$ 80 mil de orçamento, R$ 50 mil vêm da Kalunga, empresa dos Garcia e só é garantido até o final do ano.

Diante da agonia financeira, o presidente em exercício admite que é possível a adoção de cortes no atual elenco alvirrubro para adequar a folha salarial à nova realidade do clube. “Temos um elenco inchado, com 30 profissionais”, argumenta. “Mas para acertar com estes jogadores vamos precisar de apoio, inclusive da família Garcia”, diagnostica Gimenez. Hoje, o orçamento com o departamento de futebol é de aproximadamente R$ 300 mil. Gimenez revela que os Garcia recusaram as propostas que fez para capitanearem a fase de transição alvirrubra. “Fiz proposta de dar todos os jogadores para eles, em troca de entregarem o clube sem esta folha. Mas não aceitaram”, lamenta.

Gimenez revela que o clube ainda tem gastos fora do planejado no momento de arrocho. O presidente em exercício expõe que, dos R$ 20 mil que o Norusca tem em caixa, R$ 8 mil foram gastos para pagar as passagens dos garotos das categorias sub-15 e sub-15 dispensados após a dissolução das equipes.

O presidente alvirrubro se reuniu, ontem, com a cúpula administrativa do clube. Na pauta do encontro estava uma “radiografia” da saúde do clube. O objetivo, agora, é intensificar contatos e buscar saídas, pois os salários do atual mês estão quitados, mas não há dinheiro em caixa para o pagamento do próximo.

Dentro das alternativas não descartadas pela diretoria para viabilizar o clube está acertar uma parceria com investidores. Mas Gimenez salienta que parcerias só para as categorias de base não resolvem o principal problema. “Não adianta vir investimento para a base e largar esse monte de gente sem salário, os funcionários e jogadores profissionais”, crava. Em mais uma frase impactante, Gimenez sintetiza o esforço do clube: “Estou tentando achar uma luz no final do túnel e isso depende da família Garcia”.

 

Reunião com família Garcia

O presidente em exercício do Noroeste, Toninho Gimenez, revelou, ontem, que conseguiu contato com Paulo Garcia, filho de Damião Garcia, e acertou uma reunião em São Paulo para discutir a saúde financeira alvirrubra. Gimenez, no entanto, afirma que falta definir a data do encontro, o que deve ocorrer em breve.

Na reunião, Gimenez tentará sensibilizar a família Garcia e convencê-la a ajudar o clube - entenda-se com dinheiro - a reduzir o tamanho da estrutura noroestina, que consome mensalmente R$ 400 mil. O presidente frisa que, sem a ajuda de Damião e familiares, o clube não tem como arcar com os custos de enxugamento. A adequação do clube aos patamares locais é fundamental para a sobrevivência do Noroeste. Hoje, somente R$ 30 mil vêm de patrocínios locais.

 

Sem dinheiro, clube pode pedir alimentos

João Gonçalves admite que não há dinheiro em caixa para quitar os débitos do próximo mês e lamenta a falta de apoio ao clube até agora. De acordo com o gerente, a situação pode chegar ao ponto de o Noroeste ter que apelar à torcida para arrecadar alimento para a base. “No momento não temos dinheiro. Até agora, não apareceu ninguém para ajudar o Noroeste. Apareceu um torcedor e falou que poderia ajudar com R$ 500,00. Falei para não trazer dinheiro, para mandar em alimentos. Daqui a pouco, tenho 25 jogadores da Copa São Paulo para alojar. O que pode ser feito é pedir um quilo de alimento para a torcida para fazer um estoque para manter a base até o dia 26 de janeiro na Copa São Paulo. É uma vergonha. Mas estou falando que não veio ninguém ajudar, não recebi ajuda de grandes mercados, ninguém se sensibilizou. Só este torcedor. De repente, vamos fazer uma campanha nos jogos em Bauru. Se 25 jogadores ficarem sem alimento aqui, vai ser difícil alguém levar para casa. A responsabilidade é nossa”, considera.

 


Emoção na despedida da base

Visivelmente emocionado, o gerente de futebol do Noroeste, João Gonçalves, cumpriu, ontem, o que chamou de sua pior missão no clube. O dirigente dispensou comissões técnicas e jogadores do sub-15 e sub-17, equipes que ajudou a formar. “Sinto muito, mas muito mesmo. São 40 jogadores que os sonhos acabaram. Eu plantei esta semente e hoje estou cortando a árvore. Mas podemos começar a passar por turbulência e termos problema com alimentação. Estou parecendo um agente funerário, só dou notícia ruim”, compara.

Gonçalves garantiu que o trabalho na categoria sub-20 vai seguir e se comprometeu com o clube e a cidade a honrar os compromissos assumidos e disputar as competições agendadas. “Temos compromisso de terminar o Paulista, disputar os Jogos Abertos por Bauru e a Copa São Paulo de Juniores, em janeiro. Colocar o time em campo na Copa São Paulo é um compromisso meu com o Noroeste, mesmo se não aparecer uma parceria. Eu assinei o convite e tenho responsabilidade nisso. Se aparecer uma parceria, ótimo, é o que eu quero. Se não aparecer, venho aqui para colocar o time em campo. O Noroeste não vai passar por esta vergonha”, salienta.

 

Profissional

Gonçalves fez um apelo à cidade. “Bauruense tem que ajudar o Noroeste. Minha forma de ajudar é me comprometer a colocar o time na Copa São Paulo, mesmo sem salário. Não sei se tem mil bauruenses que gostam do Noroeste, mas se cada um deles fizer alguma coisa, vamos conseguir levantar o clube. Peço ao torcedor, tem dois jogos e tem que lotar o estádio. Vamos pedir para a Sangue Rubro desvirar a faixa. Temos que nos juntar e incentivar”, prega. Gonçalves ainda elogiou o comprometimento do técnico Moisés Egert e do elenco e enalteceu a atual situação do time na Copa Paulista, projetando a classificação com mais vitória. 

Comentários

Comentários