Brasília - A presidente Dilma Rousseff não deu indicativo público ao premiê britânico, David Cameron, de que eliminará ou atenuará medidas protecionistas sobre importações. Essa demanda era um dos panos de fundo da primeira visita de Cameron ao país, mas foi ignorada por Dilma em sua declaração à imprensa, ontem, em Brasília.
Cameron foi ao Palácio do Planalto acompanhado de representantes de 50 empresas britânicas. Anteontem, ele disse que o protecionismo do Brasil trará custos no futuro.
Repetindo a essência de seu discurso na Assembleia-Geral da ONU, na terça-feira passada, em Nova York, Dilma afirmou que os estímulos econômicos internos representam um esforço do Brasil para ajudar na recuperação da economia internacional.
“O Brasil tem feito a sua parte, no que se refere à recuperação mundial, quando desenvolve incentivos ao crescimento do emprego e à demanda doméstica. E fiz ver ao primeiro-ministro que, em plena crise, temos aumentado as nossas importações”, afirmou a presidente.
Dilma ainda citou dados do comércio entre os dois países, que apontam um crescimento de 10% entre 2010 e 2011, e disse que a maior parte disso refere-se a mercadorias exportadas pelo Reino Unido. Cameron disse ter transmitido a Dilma a mensagem de necessidade de apoio à redução de protecionismos.
Acordo
Em uma cruzada para aumentar o comércio com o Brasil, o primeiro-ministro da Grã-Bretanha ressuscitou ontem, no encontro com Dilma, a tentativa de um acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia. Iniciada em 2000 e interrompida em 2006 por falta de qualquer tipo de avanço, o acordo voltou à pauta, agora com europeus muito mais interessados do que há 12 anos.
“A presidente Dilma e eu mandamos uma clara mensagem sobre nossa determinação de apoiar o comércio. Nós concordamos em resistir ao protecionismo e intensificar nossos esforços para atingir um acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia que poderia gerar um 45 bilhões de libras (R$ 147 bilhões) em exportações para a União Europeia”, afirmou o primeiro-ministro na declaração à imprensa depois do encontro com Dilma.
Na sua declaração, a presidente não tratou do acordo. Ao falar de economia, apenas relatou que conversou com Cameron sobre a crise internacional e que reiterou ao primeiro-ministro a necessidade de que sejam ampliados os esforços para recuperação econômica da Europa.
O assunto, no entanto, já havia sido levantado pelo presidente da União Europeia, Durão Barroso, em um encontro com Dilma em Nova York, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, na última segunda-feira. Barroso prometeu vir ao Brasil para tentar acelerar as negociações.
A tentativa de retomar o acordo surge quando, em plena crise econômica mundial e com seus mercados internos em recessão, os europeus tentam de todas as formas abrir mercado para seus produtos. Boa parte da visita de Cameron ao Brasil girou em torno da necessidade de aumentar o comércio com o País, especialmente na via Reino Unido - Brasil.
Visita a comunidade
Rio - Com um forte aparato policial para despistar a presença do tráfico no complexo de favelas da Maré, na zona norte do Rio, o primeiro ministro britânico David Cameron visitou na manhã de ontem um projeto social para crianças e adolescentes da comunidade. Para o percurso de cerca de 500 metros entre o Batalhão da Polícia Militar, onde desembarcou, e a ONG Luta Pela Paz, Cameron teve a ajuda de dois veículos blindados, um helicóptero e PMs armados com fuzis em patrulhas nas ruas da comunidade.
O Complexo da Maré não é pacificado e é dividido por quatro facções criminosas do tráfico de drogas. O projeto social visitado pelo primeiro ministro atende a cerca de 1.500 crianças e adolescentes que participam de oficinas de esportes, aulas de cidadania e cursos profissionalizantes. Na visita, cerca de 300 crianças e adolescentes receberam o britânico e discutiram o legado social dos jogos olímpicos.
O primeiro ministro ouviu das crianças um apelo para que os projetos de esporte e educação continuem mesmo após o fim dos jogos do Rio, em 2016. “É um projeto brilhante que está realmente ajudando crianças para que elas tenham um belo futuro”, afirmou. Quatro atletas britânicos medalhistas olímpicos em Londres acompanharam a comitiva e treinaram com as crianças. “Não é só o esporte que aprendem, é conhecimento para a vida, e com isso eles podem ser campeões”, afirmou o judoca Euan Barton.
Cameron também conversou com oito jovens lideranças sobre os problemas vividos na favela, como a violência e a falta de oportunidades.