Recém-implantado há menos de dois meses, o projeto de ampliação da segurança do Fórum de Bauru começou mal. No primeiro dia de vigilância armada terceirizada no prédio de Execuções Criminais, uma agente de limpeza, de 26 anos, foi baleada. O disparo - acidental - perfurou órgãos da vítima e ocorreu enquanto ela e um dos vigilantes almoçavam no último andar do imóvel.
O prédio fica na quadra 12 da avenida Duque de Caxias, no Altos da Cidade. O vigilante R.G.A.S. (somente as iniciais foram divulgadas), 23 anos, da empresa GF Segurança Patrimonial, almoçava em uma área restrita com duas funcionárias da limpeza. Entre elas, a vítima Simone Pereira da Silva.
Segundo o relato do vigilante à polícia, a arma teria sido entregue a ele há duas horas e o disparo teria se dado de maneira acidental quando, ao se desfazer dos equipamentos, tentou evitar que o revolver calibre 38 caísse ao chão. O caso foi registrado no 3.º Distrito Policial (DP) como disparo de arma de fogo e lesão corporal.
“Ele disse que foi almoçar e retirou as balas do revólver, justamente para evitar algum risco. Porém, esqueceu de tirar uma única bala. Foi quando teria escorregado e, na tentativa de não deixar a arma cair, houve o disparo”, explica o delegado do 3.º DP, Carlos Creppe Júnior.
O tiro atingiu o abdômen de Simone da Silva, que foi socorrida pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) ao Pronto-Socorro Central (PSC). Ainda ontem, a mulher foi transferida para a unidade cirúrgica do Hospital de Base (HB), onde passou por cirurgia.
O procedimento foi realizado no fim da tarde. De acordo com o que o JC apurou junto aos familiares, o tiro atingiu o fígado, rim e o intestino da agente de limpeza, que ficou internada em estado estável na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da instituição. O projétil, porém, não foi localizado.
O vigilante prestou depoimento no 3.º DP e foi liberado. Bastante abalado, ele não quis conversar com a reportagem do JC. A arma, um revólver calibre 38, foi apreendida para ser periciada.
Pela culatra
Até há pouco tempo, o Fórum não contava com segurança armada. A ampliação de segurança faz parte de um projeto estadual do Tribunal de Justiça (TJ). Para tanto, foi contratada a empresa GF Segurança Patrimonial, de São José do Rio Preto. Por conta do que parece ter sido um acidente, o projeto saiu pela culatra.
“O projeto começou a valer em Bauru no último dia 2 de agosto. O prédio central do Fórum já conta com segurança armada desde esse dia. Nos outros locais, foi sendo implantado aos poucos. Hoje (ontem), foi colocada a vigilância armada no prédio onde ocorreu o acidente”, explica o juiz diretor do Fórum de Bauru, Gilmar Garms.
Antes, a segurança era realizada por agentes de segurança e vigia, entretanto, nunca armados. O juiz não esconde a preocupação com a ocorrência de ontem e afirma que há até a possibilidade de romper o contrato com a empresa terceirizada de segurança (leia mais abaixo).
Questionado sobre a necessidade de homens armados em um prédio público, ele afirma que “o Fórum é um lugar muito agitado. Além de impedir problemas, como o ingresso de alguém armado, a vigilância terceirizada protege o patrimônio tanto de dia quanto de noite”, completa.
Juiz: ‘Vamos apurar o que ocorreu’
Bastante preocupado com o fato, o diretor do Fórum de Bauru, juiz Gilmar Garms, afirmou que a apuração não se restringe somente ao âmbito criminal. De acordo com ele, o TJ também vai analisar o que ocorreu.
“Iremos abrir um procedimento administrativo no Fórum que pode resultar, inclusive, em alterações no contrato feito com a empresa de vigilância”, explica.
Segundo ele, há desde a possibilidade de adendos no contrato até mesmo do rompimento total. “Ficamos preocupados, uma vez que o objetivo desse projeto é ampliar a segurança. Iremos verificar quais procedimentos essa empresa está tomando, inclusive, no preparo dos vigilantes”, aponta o magistrado.
Gilmar Garms ainda ressalta que, como a sala em que os funcionários estavam era restrita, o público não foi ameaçado em momento algum.
A empresa que faz a vigilância terceirizada, a GF Segurança Patrimonial, de São José do Rio Preto, não quis se pronunciar. A reportagem tentou contato com representantes na delegacia e também por meio do telefone.
Na cadeira
Por conta do difícil acesso ao local onde os fatos ocorreram, o modo de socorro chamou a atenção: a PM optou pela retirada da vítima em uma cadeira.
“O prédio é antigo e o elevador é pequeno e não comporta uma maca, por isso os policiais optaram pela cadeira, que facilita a retirada em situações emergenciais”, reforça o oficial de Relações Públicas do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), capitão Alan Terra.
Após ser acomodada e presa à cadeira, a servente foi carregada pelos policiais escada abaixo, até atingir o elevador e depois o piso térreo da unidade, onde o Samu chegava para iniciar os primeiros atendimentos.
Investigações
Na tarde de ontem, a Polícia Civil conferiu o registro da arma de fogo e a autorização por parte do vigilante envolvido no disparo. Ambos estavam regularizados. “Ao que tudo indica foi algo acidental. Instauramos inquérito para verificar se houve negligência ou imperícia por parte do vigilante”, explica o delegado Carlos Creppe.
O local onde o fato aconteceu fica ao final dos lances da escada do prédio e é um espaço restrito a funcionários, ou seja, segundo a Polícia Militar (PM), a situação não produziu riscos à circulação do público frequentador do Fórum. Grande parte dos trabalhadores estava em horário do almoço.
Ainda de acordo com a polícia, o fato dos funcionários estarem almoçando naquela sala, que abriga o motor do elevador e as bombas de pressurização e não se caracteriza como refeitório da unidade, será apurado. O local foi periciado pela Polícia Científica.
Apesar do transtorno, o prédio da Vara de Execuções Criminais não precisou ser interditado e os serviços ocorreram normalmente.
Família da vítima está indignada
O disparo que atingiu Simone Pereira da Silva revoltou os familiares da agente de limpeza. Para eles, um vigilante armado não poderia estar almoçando junto com a vítima. Também questionaram o preparo do profissional.
“Parece não ter treinamento. Como um vigilante fica com uma arma assim e não tem um supervisor do lado?”, questiona o operador Carlos Roberto da Silva, 35 anos, marido da vítima.
Também bastante indignada, a tia da mulher baleada, Helena Félix da Silva, 49 anos, diz que não deveria ser permitido alguém ir para o horário do almoço com uma arma. “Ele não deveria estar com a arma lá”.
Simone tem três filhos, com idades de 2, 4 e 17 anos. Ela, inclusive, teria passado a noite inteira no hospital com o caçula por conta de uma pneumonia. “Agora, ela volta para o hospital desse jeito. Temo pela vida da minha mulher”, complementa, emocionado, Carlos da Silva.