Eder Azevedo |
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Centro do Idoso de Bocaina: quase pronto para inauguração
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A população acima de 60 anos cresce a passos largos graças aos avanços tecnológicos e pesquisas médicas. Quem sonhava viver 70 anos, com uma ajudinha vai chegar aos 90. E quem tinha pretensões de conhecer os bisnetos, vai chegar lá.
A combinação de baixa natalidade e avanço na qualidade de vida garante que a população viva mais. E isso exige transformação na sociedade. Aos poucos, as cidades (e os governos de várias instâncias) vão se mobilizando para atender a uma população com necessidades diferenciadas.
Na região, algumas cidades têm o Centro Dia do Idoso (CDI), uma espécie de ‘creche’ onde os integrantes da terceira idade relacionam-se com pessoas da mesma faixa etária, participam de atividades físicas e manuais e cuidam da saúde física e mental diariamente.
O equipamento, que tem planta padrão determinada pelo Estado, responsável pela estrutura física, tem capacidade estabelecida pelo número de idosos de cada município. Mas para frequentar o CDI, é preciso que o idoso seja semi-independente, ou seja, não esteja acamado e consiga desenvolver atividades. Outro item que garante a vaga é que a família seja de baixa renda e não possa arcar com a despesa de um cuidador.
Em Agudos (13 quilômetros de Bauru), o CDI saiu do papel em maio deste ano e os usuários contam com quatro refeições e muitas atividades. “Estou aqui desde maio. Minha vida mudou. Eu ficava sozinha em casa e mal me alimentava. Não tinha vontade de cozinhar só para mim. Comia muita besteira. Aqui, convivemos em harmonia. Já engordei três quilos”, diz Leonilda Vital Costa, 75 anos.
Em Dois Córregos (73 quilômetros), o CDI deve entrar em funcionamento até o início do próximo ano. Tem capacidade para atender 15 idosos com quatro refeições, controle de medicamentos e com direito a uma ‘sonequinha’ após o almoço.
Em Bocaina (69 quilômetros de Bauru), o equipamento está pronto e em poucos dias deverá receber os primeiros ‘hóspedes’. Foi projetado para acolher 30 idosos. “Na verdade, a gente quer que esse idoso volte a ter um relacionamento interpessoal e comunitário. Queremos que se sinta capaz, uma figura importante. Temos certeza que vai melhorar a autoestima, a qualidade de vida,” diz a diretora da Assistência e Desenvolvimento Social de Bocaina, Ana Lúcia Bueno de Oliveira.
Já em Borebi (45 quilômetros de Bauru), o professor de educação física Abraão Ayub treina idosos de até 80 anos no vôlei adaptado. “São regras do vôlei adaptadas para esse público específico. O importante é que participem.”
Bocaina prepara-se para atender idosos
Preocupação com pessoasque ficam em casa sozinhas em casa inspira a criação de centro especial para a melhor idade
Bocaina tem uma população estimada em 11 mil habitantes. Deste total, 1.357 são moradores com idade acima de 60 anos, portanto, integrantes da melhor idade ou terceira idade. Viver em uma cidade tranquila, onde todos se conhecem, o trânsito não apresenta congestionamento, a verdura é fresca, muitas vezes do próprio quintal, e o atendimento médico básico é de fácil acesso são itens que colocam a cidade dentre as mais indicadas para que os idosos conquistem qualidade de vida.
Para completar mais uma etapa na busca pelo bem-estar do idoso, o município vai inaugurar nos próximos dias o Centro Dia do Idoso (CDI). A diretora da Assistência e Desenvolvimento Social, Ana Lúcia Bueno de Oliveira, explica que a população idosa cresceu e a preocupação é com aqueles que ficam em casa sozinhos.
“Nós nos preocupamos com aqueles que ficavam em suas casas correndo algum tipo de risco porque os familiares trabalham. Depois de certa idade, os filhos ficam com medo que eles mexam no fogão ou mesmo que caiam enquanto estão sós. Aqui, o município oferece transporte gratuito para todo mundo, os medicamentos básicos, via secretaria do Estado e a prefeitura, incrementam com outros remédios. Eles são preferencialmente atendidos.”
O atendimento aos idosos no CDI será feito por profissionais que já trabalham na rede municipal, explica a secretária. “A preferência é para os idosos que não exijam uma pessoa exclusivamente para cuidar dele. Aproveitaremos enfermeiras que já prestam serviço na área da saúde, auxiliares de enfermagem, assistente social, merendeira, faxineira.”
Com a chave
O Centro Dia do Idoso foi projetado para 30 frequentadores, mas a triagem será feita após a inauguração. A assistente social vai ficar lá no CDI e entrevistar o responsável daquele idoso para fazer uma ficha e verificar se aquele idoso se encaixa no perfil do projeto.
“O usuário vai passar por avaliação médica. Os medicamentos é a família que oferece e a enfermeira e auxiliar administram. A enfermeira é responsável por saber a quantidade e o horário que o medicamento deve ser administrado. Todos os remédios ficarão em um armário de vidro com chave para que eles não tenham acesso, somente os profissionais.”
O transporte gratuito e específico será feito por uma Kombi que a secretária aguarda a chegada. “Eles serão trazidos para o CDI onde farão quatro refeições. Poderão tirar uma soneca após o almoço, assistir televisão e praticar várias atividades físicas e motoras. As atividades físicas ficarão sob a responsabilidade da diretoria de esportes. Eles vão direcionar os exercícios para a idade deles . Pretendo contratar uma professora de Ioga para ensinar postura e respiração correta.”
Haverá atividades manuais, artesanato... O trabalho será discutido com os usuários. “Adotaremos aqueles trabalhos que eles queiram fazer, de acordo com o perfil do usuário. Faremos reuniões com familiares para discutir a satisfação do usuário.”
Segundo a secretária, o mais importante do projeto é garantir a convivência familiar do idoso e evitar o abrigamento. “A função do Estado é evitar que esse idoso vá para um abrigo. Queremos ele junto de sua família. A forma disso acontecer é o Centro Dia do Idoso, onde ele passa o dia num local com alimentação sem risco, cuidados médicos e a tarde retorna para sua casa.”
CDI é comparado a ‘creche’
Agudos tem uma população estimada em 34 mil habitantes, segundo o Censo do IBGE. Deste total, 2.179 estão com idade entre 60 e 69 anos e 1.771, acima de 70.
Com quase 4 mil habitantes na melhor idade, a cidade se prepara para atender essa população. O Centro Dia do Idoso de Agudos foi inaugurado no primeiro semestre e o veículo que irá fazer o transporte está para ser entregue, já foi comprado, explica a secretária municipal de Assistência Social, Simone Tolosa Pires de Bortoli.
“É um equipamento projetado para 50 idosos, um projeto do governo do Estado. Embora a capacidade seja para 50, achamos por bem acolher 30 para que eles fiquem bem acomodados. Assim ficam com mais espaço para conviver. No momento estamos com 15, porque o restante precisa de transporte. Estamos aguardando a entrega de uma Kombi que irá buscá-los e levá-los.”
A secretária enfatiza que o projeto é direcionado para os idosos de baixa renda. “Muitas dessas famílias não possuem veículo. Embora no município o transporte coletivo seja gratuito, alguns não têm condições de embarcar sozinhos em ônibus.”
Segundo ela, a demanda está levantada e com a chegada do transporte, todas as vagas serão preenchidas até o número de 30.
Todos têm que ser semi-independentes, não podem ser acamados. No CDI, eles se alimentam e ingerem os medicamentos no horário certo. Alguns moram sozinhos e não conseguem administrar a vida como deveriam. Outros moram com filhos que trabalham fora, são de baixa renda, a família não tem condições de pagar um cuidador.
O objetivo do centro, ressalta a secretária, é evitar o abrigamento. “Não é parecido com hospital. É algo semelhante a uma creche, onde eles passam o dia. Aqui eles se alimentam, conversam, se divertem. Tem uma pedagoga para atividades de estimulo à memória, tem uma fisioterapeuta que faz atividades, tem enfermeira. Além disso, temos os cuidadores que monitoram durante o dia. Fazem artesanato de acordo com o que eles conseguem.”
A segurança do idoso é uma marca do trabalho. “O idoso em segurança é tranquilidade para toda a família. Eles melhoram o relacionamento familiar, porque quando chegam em casa, têm assunto para falar. Os filhos passam a conviver melhor com eles. Temos um caso de um idoso que chegou de andador porque ele não se alimentava direito. Estava muito fraco. Ele já está caminhando. Às vezes, a pessoa está debilitada porque mora sozinha e não tem vontade de fazer as coisas.”
Só saio para ir à missa
Ítala Lopes Abelha Cristianini, 74 anos, vive em Bocaina há duas décadas. Antes disso, morava na área rural. Mora ao lado da casa de um dos quatro filhos, mas só sai de casa acompanhada. “Tenho medo de cair, tendo que segurar no braço de uma pessoa. Não vou nem à padaria sozinha.”
Para ela, viver em uma cidade de pequeno porte é qualidade de vida, porque tem mais tranquilidade, o trânsito não oferece muitos perigos e todo mundo se conhece. “Eu fico dentro de casa fazendo o serviço doméstico. Somente aos domingos vou à missa.”
O marido dela, Orozimbo Cristianini, tem 80 anos e comprometimento no andar, enxerga pouco e apresenta sintomas de Alzheimer. “Ele só sai de carro com meu filho”, diz a esposa.
O filho caçula, Antônio Ângelo Cristianini, tem 44 anos e explica que os pais não se adaptam a sair de casa. “Eles dizem que querem curtir o fim da vida aqui dentro.”
Mas para ele, essa maneira de viver a velhice não é modelo. “Espero que, quando chegar a minha vez, as coisas seja diferentes. Quero mais qualidade de vida e pretendo ser ativo, quero mais interação com a comunidade.”
Dois Córregos atenderá 15 idosos
O Centro Dia para o Idoso de Dois Córregos (73 quilômetros de Bauru) está pronto e vai entrar em funcionamento assim que terminar o período eleitoral, quando poderá contratar funcionários através de concurso público. A população idosa na cidade soma 3.405 pessoas, segundo o Censo.
O CDI vai ter capacidade para 15 idosos, aqueles que têm condições de praticar algumas atividades. “O idoso tem que estar inscrito no cadastro único do Governo Federal. Desses, faremos uma triagem daqueles que necessitam realmente dos serviços. Para aqueles que a família não tiver condições de transportá-los, vamos oferecer o transporte de ida e volta.”
O usuário do CDI vai chegar às 8h e vai ser recebido com café da manhã. Antes de retornar para sua casa, receberá o jantar. “Para aqueles que têm costume de dormir após o almoço, teremos quatro camas, com alas feminina e masculina. A grade de atividades não está definida, mas teremos lazer, esportes e outras.”
‘CDI mudou a minha vida’
Aos 75 anos, Leonilda Vital Costa, viúva, conquistou nova vida após ter encontrado o Centro Dia do Idoso na cidade de Agudos. “Mudou a vida. Venho todos os dias. Eu tinha pressão alta. Depois de estar aqui por três meses, minha pressão passou para 12 por 8. Precisava tomar calmante para dormir, sentia muita solidão, embora more nos fundos da casa de minha filha.”
Ela comenta que os filhos se preocupam com ela. São 14 ao todo. Oito moram em Agudos, os demais na região de Bauru e Campinas, mas todos trabalham. “Eles ligam para saber se estou bem, mas eu ficava sozinha. Comia mal, porque não tinha vontade de cozinhar só para mim.”
A mulher diz que vai sozinha para o CDI. “Eu pego o ônibus e vou. Aqui faço ginástica, crochê, tricô, fuxico. Converso e volto para casa tranquila. Aqui tudo é bom, especialmente os funcionários, que não economizam carinho e atenção.”
Vôlei adaptado, vida aprimorada
Esporte recebe regras específicas para integrar ‘jovens senhores e senhoras’ com muita disposição e energia
O esporte tem suas regras, mas nem todos estão em condições de cumpri-las. Para não ficar fora das atividades esportivas, foram feitas adaptações para o público idoso. Em Borebi (45 quilômetros de Bauru), a equipe de vôlei treina há três anos e ainda não está no ponto que o treinador quer. No município, segundo o Censo, há 254 moradores com mais de 60 anos.
“Minha equipe de vôlei tem 18 idosos de 60, 70 e 80 anos. A idade dos atletas influencia nos resultados. Este ano, participamos pela primeira vez dos Jogos Regionais do Idoso (Jori), em Lençóis Paulista. O desempenho não foi satisfatório. Deparamos com cidades muito fortes no esporte para terceira idade. Tem equipes com participantes mais novos, e isso prejudica a gente,” explica o professor de educação física Abraão Ayub.
Apesar do desempenho não ter sido bom, na avaliação do treinador, ele não desanima. “Espero em três anos ter renovação na equipe e ganhar mais força. Já temos algumas pessoas treinando com os mais experientes. Minha equipe vai ficar boa. Há equipes de idosos que treinam há 10 anos. Digo sempre que o importante é participar. Nesse final de semana, vamos participar de jogos em Macatuba.”
Ele enfatiza que o vôlei adaptado poderia acolher mais participantes. “Estamos tentando atrair mais idosos, mas tem muitos deles que não gostam do jogo. Esses idosos participam das aulas de ginástica, que adota uma linha chinesa. É outro professor que dá aulas duas vezes por semana.”
De acordo com Ayub, há três, anos quando começou a formar a equipe, a maioria dos idosos tinha problemas de saúde. “Pressão alta, colesterol, diabetes. Hoje, os exames deles estão todos dentro do normal. A atividade física auxilia muito na qualidade de vida. Quando começamos, fazíamos exercícios físicos e aos poucos fomos implantando o vôlei adaptado.”
O jogo de vôlei para o idoso tem diferenciações, explica o professor. “Usamos as regras baseadas nos campeonatos dos Jogos Regionais do Idoso (Jori). Não pode saltar quem está antes da linha dos 3 metros. Se você pega a bola, pode passar de mão em mão, pode segurar, jogar para o outro e atravessar direto para a quadra adversária.”
As adaptações recentes, segundo o professor, transformou o vôlei tranquilo em jogo mais rápido. “Para minha equipe, atrapalhou um pouco, porque tenho idosos de idades mescladas. Para quem tem equipe mais jovem, deu rapidez.”
Regras
O professor fala das mudanças. “Ultimamente, eles mudaram. A primeira bola pode atravessar para a quadra adversária. Antigamente não podia. Antes era obrigatório dar três toques dentro da sua quadra, agora você saca e eu pego a bola e já posso devolver para você, antigamente não podia”, exemplifica.
Na opinião do treinador, o jogo ficou mais rápido. “Antigamente era mais tranquilo. Você saca, eu seguro a bola e jogo para outro colega. O outro pega e joga para o campo do adversário. Era mais tranquilo, menos movimentado”, explica.
