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A compulsão de repetir

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O ser humano tem uma "compulsão à repetição" que já havia sido detectada desde o início do século passado por Sigmund Freud, em suas pesquisas psicanalíticas. Repetir é um exercício mental desde o nascimento. Repetimos o comportamento dos nossos pais, repetimos para aprender e imitamos para fixar modelos de identificação. Logo, repetir é imprescindível para crescer, aprender e desenvolver psiquicamente. Talvez esse comportamento humano explique a tendência dos eleitores de reeleger os executivos. Desde os gregos, e nas democracias mais antigas do mundo ocidental, até se proíbe a recondução a mandatos eletivos sob o argumento de que repetir por repetir é mesmo uma "compulsão" a serviço da mesmice. Lula e o PT foram contra a reeleição. O primeiro reeleito seria Fernando Henrique Cardoso. Depois (já que aprovaram a lei), Lula experimentou da mesma receita. Esse ritual obsessivo, sem caráter criativo, é que Freud conceituou de "morte psíquica".

Bem, é só um exercício teórico provocativo. Personagens e situações parecidas são meras coincidências. O escritor português Eça de Queiroz dizia que "os políticos e as fraldas devem ser trocadas frequentemente e pela mesma razão". Mas o povo gosta de repetir até como defesa contra o medo do novo. Nada a ver com o crescer e o progredir. Trata-se apenas de um automatismo mental da sociedade que também é utilizado no esporte: "em time que está ganhando não se mexe". Atendida a necessidade básica que é ganhar, ótimo. Mesmo que seja por um gol, feito com a mão aos 46 minutos do segundo tempo. Então, os problemas pontuais como falta d?água e de vaga nos hospitais em nada influem no ânimo do eleitor em votar neste ou naquele candidato. O povo quer apenas ser ouvido. Se, lá no DAE, um funcionário educado atende a reclamação e promete providências, para o munícipe o problema é dado como resolvido, mesmo que demore meses. Nem mesmo um escândalo nacional ? o maior da história republicana - como o "mensalão" vai ter influência nestas eleições. Lula temia o julgamento do STF e trabalhou para que se realizasse depois do pleito municipal. Os analistas políticos, pela leitura das pesquisas de tendências de voto descobriram que os partidos envolvidos estão "blindados" quanto a possibilidade de ingerência eleitoral. E nem poderia ser diferente já que o próprio eleitor, culturalmente repete há mais de cem anos a perversa dupla "corrupto-corruptor". Numa crônica de Lima Barreto do início do século 20, o autor conta a história de dois eleitores. O primeiro contava estar com dificuldade para vender seu voto por cem mil réis, para determinado candidato. O segundo aconselhava-o a pedir só dez mil réis, mas para cada um dos candidatos. A estratégia tornava mais fácil a venda da "mercadoria" e permitia ganhar na quantidade. "Assim consigo arranjar mais de cem, sem ser pesado a ninguém" - concluía o personagem.

Modernamente temos outro fator importante na eleição que é a exposição à mídia. O tempo na televisão e no rádio está subordinado ao poder dos partidos. Esse "coronelismo eletrônico" a que se referia o sociólogo Octavio Ianni, devotado estudioso das diferenças e injustiças sociais, obriga os postulantes a cargos majoritários a firmarem alianças com o maior número possível de grupos partidários. Disso resulta uma sopa de letras de tantas siglas em aliança. Mesmo que sejam casamentos por interesse, onde o coletivo passa ao largo, quem tiver mais que três segundos na televisão ganha passagem gratuita naquele que pode ser o "trem da alegria". Os sem tempo tentam definir em segundos uma vida e um programa: "Meu nome é Eneias!" Poucos podem desempenhar o papel de estrelas com aparecimentos repetidos até a exaustão, nos canais mais vistos pelo povo.

Como contraponto a essa formidável arca de alianças capaz de contemplar bichos de todas as espécies, existe o marketing digital eleitoral. Sessenta milhões de internautas brasileiros ainda são ignorados. É um contingente que ainda faz muita diferença seja para uma campanha eleitoral majoritária ou proporcional. Os cientistas políticos gastaram milhões de horas em pesquisas sobre o potencial dessa fatia do eleitorado que procura na internet uma definição de voto. Os estudos apontam que mais de 45% do eleitorado chega no dia da eleição sem ter em quem votar. Ainda mais para vereador. Como toda ferramenta o web marketing também precisa de um planejamento para não virar uma colcha de retalhos de marketing convencional, apenas porque foi digitalizado. É preciso criar laços verdadeiros com o eleitorado e com ele interagir. É uma oportunidade de repetir conceitos e discutir com o eleitor. As redes sociais são ótimas para isso. Mas, a partir daí é uma outra história.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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