Há 30 anos os engenheiros eram muitos e faculdades fecharam; o resultado colhemos agora: não temos profissionais preparados para o desenvolvimento estrutural e tecnológico.
Os engenheiros passaram a ser mal pagos, desvalorizados pelo mercado de trabalho e a “vocação” migrou para outras áreas; agora estamos importando este tipo de profissional, especialmente de Portugal. Quem diria!
A “vocação” está diretamente relacionada com o estilo de vida que a profissão oferece, a remuneração e os benefícios paralelos como o reconhecimento da sociedade. Ninguém escolhe uma profissão para sofrer, passar privações e ser hostilizado, a menos que não tenha outra opção ou possibilidade do ponto de vista econômico ou intelectual.
Economistas da ONU, Banco Mundial e a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) realizaram um levantamento sobre quais eram os profissionais mais bem pagos e valorizados pelo mercado de trabalho de vários países e os professores no Brasil estão entre os mais mal pagos do mundo.
Como dizia Caetano, o Haiti é aqui: em São Paulo um professor do ensino fundamental ganha exatamente 10% do que ganha o mesmo tipo de professor na Suíça! No Brasil a média salarial do professor de ensino fundamental é inferior à média salarial de toda a população. Na Coréia do Sul este mesmo professor ganha 121% a mais do que a média da população.
Com salário baixo, o professor do ensino fundamental ainda é desprestigiado pelas péssimas condições de trabalho e ambiente hostil da comunidade onde se insere a escola. Existe falta de planejamento e adequação na relação comunidade-escola.
Alguém deve estar pensando que isto vale apenas para o ensino público. Não se engane, esta situação caótica engloba todas as escolas, inclusive as privadas. Os salários são baixos e a insatisfação profissional generalizada.
Na universidade os salários são melhores, não falta bons candidatos para ocupar os cargos, mas analisemos o que são bons candidatos. Os alunos universitários reclamam generalizadamente de que as aulas são muito ruins do ponto de vista didático e do envolvimento dos professores. Dizem: “... parecem que estão ali obrigados e cumprindo um ato burocrático e doidos para terminar para irem embora.”
Na universidade brasileira se faz docência e pesquisa ao mesmo tempo. O lado professor não é valorizado na carreira, não se ganha nenhum benefício se as aulas ministradas forem boas ou ruins. Muitos “professores” passam anos sem ministrar uma única aula na graduação. Por outro lado, a pesquisa é devidamente valorizada, pontuada e prestigiada. Em outras palavras, também temos um apagão de professores bons e médios na universidade.
Em 2012, Fernanda Gomes de Moraes, mesmo como mestre e doutora em Endodontia pela USP, apaixonada pela docência, concluiu sua graduação em Pedagogia na Faculdade de Ciências da UNESP. Seu trabalho de pesquisa de conclusão do curso foi: “A escolha da profissão docente – Perfil dos alunos no curso de pedagogia da UNESP-Bauru no ano de 2011”, sob orientação da Prof.ª Dr.ª Maria José da Silva Fernandes. Eis algumas das considerações finais:
- Ao considerar a docência como profissão exclusiva da mulher foi comum associa-la como extensão do trabalho doméstico, apontando-a como algo amador, sem base científica. A formação sólida do docente fica relegada a segundo plano!
- Alguns alunos encaram a docência como sacerdócio, o que contribui para desvalorizá-la como profissão, inibindo a luta pelos seus direitos, organização e profissionalismo que merece!
- Na graduação os alunos priorizam atividades de pesquisa, secundarizando as de formação docente;
- Os alunos escolhem ser professor porque é mais fácil passar no vestibular, os cursos são gratuitos ou baratos; depois tem emprego fácil pois ninguém quer ser professor. Na escolha a condição econômica foi fundamental: era a mais barata!
- A maioria não se enxergam professores na sala de aula. Só serão se faltar uma opção melhor! Querem mesmo fazer pós-graduação e outros cursos na universidade para que tenham oportunidades mais rentáveis e prestigiosas.
Sem considerar as exceções, escolhe-se ser professor por falta de opção, mas ganha-se mal, querem parar com a atividade quando puder e não são prestigiados pela sociedade: este é o perfil geral de quem educará nossas crianças!
Como sociedade precisamos discutir o que faremos!