Depois de uma denúncia formal feita pelo Ministério Público (MP) à Polícia Civil de Bauru, o pedreiro aposentado Aélcio Rodrigues Paulo, 70 anos, foi preso, na manhã de ontem, acusado de estupro de vulnerável. Visitas de profissionais da Sebes e do Núcleo de Assessoria Técnica Psicossocial (NAT) do MP constataram indícios de que o aposentado estaria abusando sexualmente da enteada Maria (nome fictício), 41 anos, portadora de deficiência mental (segundo a Polícia Civil), de quem ele era curador há mais de 30 anos, no Núcleo Popular Ipiranga.
A delegada da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Bauru, Alexandra Aparecida Gonçalves Ramos Nogueira, explica que, há pouco mais de um mês a Polícia Civil recebeu denúncia formal sobre o caso, pedindo instauração de inquérito. Aélcio, na ocasião, tinha a curatela de Maria e de José (nome fictício).
“A denúncia formal do Ministério Público, do Creas e da Sebes dizia que tinham sido feitas visitas na residência desse suposto autor. Ele cuidava de dois enteados, portadores de deficiência mental e que ele tratava demasiadamente bem a mulher, o que causou suspeita da vizinhança do local.”
No relatório do MP, feito com base nas visitas dos profissionais do NAT, segundo a delegada, foram anexadas fotos que mostravam que realmente o abuso poderia ter acontecido na residência. “Esses psicólogos já tinham feito visitas lá com fotos, que relataram que realmente poderia ter acontecido um abuso lá. Viram preservativos, cesto com roupas sujas de sangue, geladeiras trancadas com cadeado e correntes. A higiene do local também era muito ruim”, explicou a delegada.
Fora do lar
No entanto, no dia 4 de setembro, quando já tinha sido instaurado inquérito policial, Aélcio perdeu a curatela dos enteados, que passou para a filha de José. Por isso, o acusado de estupro teria recebido uma ordem para deixar o lar.
“Entramos em contato com essa filha dele, que disse que o acusado não deixava ela ter acesso à casa. Ela até queria a guarda do pai (José), mas como constam nos autos que esse senhor cuidava dele há mais de 30 anos, os irmãos não queriam sair de lá. Depois dessa suspeita nós ouvimos ela, que disse que os vizinhos já tinham avisado dos fatos, quando ela ia lá tentar visitar o pai”, explicou Alexandra. Os vizinhos teriam relatado à filha de José que viam Aélcio atrás de Maria no quintal, muitas vezes nu. A Polícia Civil começou a investigar e foi pedida a prisão temporária dele por 30 dias. Na semana passada, Maria passou por exame clínico na Maternidade Santa Isabel. O resultado deve sair nos próximos dias. Os irmãos ficaram sob os cuidados da nova curadora e Aélcio seguiu Garça. Na manhã de ontem, foi preso pela equipe do Setor de Investigações Gerais da DDM em um asilo.
‘Eu morro com a consciência limpa’
Acometido por arritmia cardíaca e enfisema pulmonar, Aélcio Rodrigues Paulo, pedreiro aposentado, afirmou em entrevista ao JC: “Eu sei que não vou durar muito tempo, principalmente com essas doenças, mas morro com a consciência limpa”. Ele pediu espaço à imprensa para se explicar. Contestou todos os posicionamentos e relatos do Ministério Público e Polícia Civil. Relatou como ganhou a curatela dos enteados após a morte de sua esposa, em 2011.
“Eu me casei duas vezes. A primeira vez não deu certo e tivemos um filho. Na segunda vez, a minha esposa já tinha esses dois filhos, que foram criados comigo. A menina começou a apresentar problemas mentais com 12 anos. O (José, nome fictício) era normal, casou, teve duas filhas. Depois começou a apresentar problemas mentais e veio morar comigo. Dei abrigo, comida, remédios para os dois. Consegui benefícios para os dois e acho que é por isso que estão falando tudo isso de mim”, opinou.
Aélcio explicou que a casa ficava suja porque não conseguia limpar tudo sozinho. A geladeira, segundo ele, permanecia acorrentada porque Maria (nome fictício) e José costumavam tirar os alimentos de lá.
“A geladeira eu deixava trancada quando eu saía para eles não quebrarem as coisas. Os preservativos foram colocados por aquelas moças da vistoria no chão, não tinha nada lá. E com relação às roupas sujas da (Maria), vou te explicar. Isso é normal porque quando ela menstrua não consegue se cuidar direito por conta do problema mental.”
O acusado se revolta e chora quando lembra das acusações. “Acho tudo isso um absurdo. Vou pagar por algo que eu não fiz. Cuidei deles com todo o carinho e agora estou aqui.” Segundo a delegada Alexandra Aparecida Gonçalves Ramos Nogueira, o acusado foi levado no final da tarde de ontem para a Cadeia Pública de Barra Bonita. O caso segue para a 4ª Vara Criminal.