Uma tragédia causada pelo desrespeito daqueles que deviam dar o exemplo. Foi assim a morte de Luciana Lucas, 64 anos. Após ter caído em um “mar de santinhos” no último domingo, a aposentada morreu na manhã de ontem no Hospital Estadual (HE). A causa da morte, de acordo com a instituição, foi uma tromboembolia causada pela queda. O Ministério Público Eleitoral diz que analisará o caso.
O caso, que revoltou a população, ocorreu por volta das 10h da manhã em frente à escola estadual Francisco Alves Brisola, na quadra 2 da rua Doutor Ivo Giunta, conforme divulgado pelo JC. Luciana, moradora do Jardim Carolina, estava acompanhada de seu vizinho, o frentista Roberto Ferreira, 42 anos.
“Já tinha votado e fui levá-la para votar. Peguei a dona Luciana pelo braço e fui acompanhando ela até a escola. No portão, paramos. Foi quando eu larguei o braço dela para pegar o título de eleitor e o RG em sua bolsa”, conta.
Nesse momento, a mulher se desequilibrou e caiu. “Ela escorregou naquele monte de santinhos. Não tenho dúvidas”, diz, inconformado.
Uma policial militar que estava no local prestou o auxílio e acionou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). “O Samu demorou muito para chegar. Foi aí que a polícia chamou o Corpo de Bombeiros”, conta. A Unidade Resgate (UR) levou Luciana Lucas até o Pronto-Socorro Central (PSC) com muitas dores e com suspeita de uma lesão na região pélvica.
A partir daí, o quadro da mulher só se agravou. Por volta das 17h, ela foi transferida para o HE. Segundo a assessoria de comunicação da instituição, o óbito foi registrado exatamente às 6h da manhã de ontem.
Crônica renal
Luciana Lucas tinha insuficiência renal e fazia hemodiálise três vezes por semana. A princípio, muitos apontaram que a doença teria sido o fator decisivo na morte da mulher. Entretanto, de acordo com o próprio HE, não foi.
A assessoria de comunicação da instituição explica que a tromboembolia é um quadro relativamente comum em queda de idosos. No caso de Luciana, ela teve uma fratura no quadril com envolvimento do fêmur, ou seja, a “cabeça” do osso quebrou.
A fratura libera uma espécie de gordura na corrente sanguínea, que se aloja nos órgãos, principalmente, no pulmão. Ela foi tratada com antitrombolíticos, porém, seu quadro se agravou.
De acordo com a assessoria, ela nem chegou a passar por qualquer cirurgia. Antes, teve um choque cardiogênico. O corpo de Luciana Lucas foi velado na funerária da Saudade e sepultado às 14h30 no Cemitério do Redentor.
Sem familiares, vítima ‘fazia de tudo’ e ‘adorava viver’
Cerca de dez pessoas estiveram presentes no velório e no sepultamento de Luciana Lucas no começo da tarde de ontem. Sozinha, a mulher foi descrita como alguém que adorava viver.
“Quando eu estava levando ela para votar, ela disse que queria ir a uma churrascaria da cidade. Disse que estava com vontade de comer churrasco”, conta o frentista Roberto Ferreira, 42 anos, amigo de Luciana.
O homem, que estava com a vítima no momento em que ela caiu, relata que Luciana era uma mulher muito boa. “Ela adorava viver”, confirma a vizinha Goreti Di Giacomo, 50 anos.
Luciana morava nos fundos da casa de Goreti. “Ela não tinha familiares. Era viúva e não tinha filhos. Tinha um irmão. Tentamos encontrá-lo, porém, nunca o localizamos”.
A solidão em que vivia na casa alugada na quadra 4 da rua Demétrio Arieta, no Jardim Carolina, não afetava o bom humor de Luciana. Evangélica, foi descrita como alguém de um astral incrível. “Ela fazia hemodiálise três vezes por dia. Saia de lá e nem parecia que tinha feito nada. Estava sempre feliz”, conta a vizinha e amiga.
Além do astral, Roberto Ferreira destaca que o problema renal da mulher nunca a impediu de fazer nada. “É um absurdo saber que ela escorregou em um santinho e morreu assim. Ela fazia de tudo. Andava por todo lugar. Minha esposa e eu sempre ajudávamos no transporte, mas era uma pessoa independente. Ia para o supermercado, feira, tudo”, finaliza o frentista.
Além dele e da esposa, que é enfermeira no HE e acompanhou de perto o drama da aposentada, havia, no velório, outros vizinhos e pessoas da igreja que Luciana Lucas frequentava. Um adeus simples para um caso que revoltou e, certamente, vai levantar grande polêmica.
Santinhos espalhados nos colégios: crime eleitoral e infração ambiental
O caso trágico da morte da aposentada Luciana Lucas desnuda e coloca em evidência o desrespeito dos candidatos quanto ao uso dos santinhos. Quem os distribui depois das 22h do dia que antecede a eleição está cometendo um crime eleitoral.
O fato se configura como boca de urna, previsto no artigo 39, parágrafo 5, da Lei 9.504/97. A pena é de detenção de 6 meses a 1 ano, com a alternativa de prestação de serviços à comunidade pelo mesmo período, e multa no valor de R$ 5 mil a R$ 15 mil.
Quando os santinhos são espalhados pelas vias públicas, ocorre ainda outra infração. De acordo com o Código Sanitário do Município, “é proibido lançar ou atirar nas vias, jardins, escadarias, córregos, rios, bocas de lobo, ou outras áreas e logradouros públicos, papéis, invólucros, resíduos ou lixo de qualquer natureza”.
A Vigilância Ambiental informa que multa o infrator quando há flagrante e o valor da punição varia de R$ 180,00 a R$ 4.100,00, de acordo com a reincidência.
Queda anunciada
A queda de Luciana Lucas já havia sido noticiada pelo JC na segunda-feira. Na ocasião, o jornal revelou, com exclusividade, o nome da vítima e também que ela tinha sofrido uma lesão na bacia. O momento foi flagrado pela esteticista Gleise Keller, 32 anos, que fotografou o socorro da vítima. “Senti muito pelo que ocorreu. É um absurdo”, reafirmou ontem.
Além da queda que resultou na morte da aposentada, outros casos foram flagrados pela reportagem. No colégio Ernesto Monte, Altos da Cidade, a vítima foi uma criança de 1 ano e 10 meses. Acompanhada pela mãe, a pequena Eliza escorregou e caiu. Por sorte, não se feriu com mais gravidade. Logo após o tombo, Eliza foi erguida pela sua mãe, Karla Poleti. O risco também foi para a mulher, que está grávida de 7 meses.
Investigações
Quem seriam os verdadeiros culpados pela queda que tirou a vida de Luciana Lucas? A resposta óbvia em direção ao desrespeito dos candidatos não é tão fácil de ser apurada. O caso, inclusive, pode ter uma investigação na Polícia Civil.
De acordo com o delegado Ismael Cavalieri, titular do 4.º Distrito Policial (DP), as investigações partem da comunicação do óbito da vítima. “Podemos investigar uma queda acidental, mas, é algo complexo. Precisamos ver o que fazer”, aponta. O delegado seccional Marcos Mourão afirma que a “polícia não foi comunicada e, por isso, o trabalho já foi prejudicado”. Ontem, uma equipe foi até o HE para apurar a situação. “É difícil falar algo no momento. É provável que iremos instaurar um boletim de ocorrência não criminal para apurar a queda”, complementa Mourão.