Tribuna do Leitor

Eu decido meu fim


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Em um domingo de muito sol ele perambulava pelas ruas da cidade. Olhava vitrine, parava para admirar as árvores e flores do jardim, apreciava o verde da grama e no seu íntimo elogiava as formigas trabalhadeiras e o cantarolar dos pássaros matinais. Estava feliz e sentia-se feliz. Mesmo caminhando sozinho não se sentia só. Ao passar por uma banca de jornais para comprar o seu exemplar deparou-se com a manchete acima reproduzida. Insculpida na capa de uma revista de grande circulação e merecedora do respeito de seus inúmeros leitores e entre eles, o próprio.
O título da capa o deixou intrigado. Nos modestos conhecimento de poucas coisas achava que decidir a própria vida ou o próprio fim estava umbilicalmente ligado a idéia de suicídio, o que se diz daquele que salta de um prédio ou aceita uma dose de veneno. Tomado de curiosidade pelo assunto - "Testamento Vital" , comprou a revista e no recesso da sua biblioteca atentamente procurou entender do que tratava. Conhecia alguns tipos de testamentos mas esse acrescido de "Vital" para ele era uma novidade. Fez a leitura do conteúdo e depoimento de pessoas que já haviam subscrito esse testamento.

Precisava entender...Procurou refletir sobre o assunto tão amplamente noticiado.Tratava-se de uma resolução do Conselho Federal de Medicina facultando aos médicos de pacientes terminais ou portadores de doenças incuráveis "oferecimento de todos os cuidados paliativos disponíveis e respeitar a vontade do paciente, previamente registrada expressamente ou na sua impossibilidade, a de seu representante legal". Para ele o assunto era paradoxal ! Paradoxal porquê ao homem ainda não foi dado o poder de dispor e decidir a própria vida. Tal poder é, como sabido, exclusividade do Criador de todas as coisas em todo o Universo e nesse caso, como noticiado, cuidava de uma resolução humana e por isso suscetível de erros.

Ao contrário dos atos humanos a lei Divina ou lei Natural antecipa, de qual gênero de morte o homem será submetido e dessa sentença que fixa o termo de sua existência deverá aguardar serenamente, resignando-se a suportá-la. Voltando à revista, examinou novamente os objetivos do Testamento Vital e nada encontrou de atenuante para o caso da morte iminente. O vocábulo "Eu" utilizado pela revista para sua chamada de capa, exprime o grau de consciência, ou seja, o centro do Ser, destacando-se a personalidade do paciente. Estudos da Filosofia e da Psicologia tocaram de leve a superfície do Ser consciente.

Se para os antigos tratava-se do sentir íntimo ? manifestação da vontade, para os contemporâneos só podemos falar em introspecção. O "Eu" pode sobreviver e sobrevive realmente não só nas desintegrações secundárias que o afeta no curso da vida, mas também a desintegração derradeira que resulta da morte corporal. Pela leitura da reportagem e reflexões necessárias sobre a finitude da vida é possível o entendimento de algo muito antigo, ou seja, a morte no tempo certo pois na vida de cada um não existe antecipação nem adiamento. Axiomático outras reflexões, basta observar o jardim da casa grande.

As sementes germinam, crescem e exibem as flores de exuberante colorido. A introspecção aqui citada é o processo pelo qual prestamos atenção a nossos próprios estados e atividades internas para identificar as pontes do poder do universo ? Deus. Perceber a verdadeira realidade do mundo que nos rodeia é fator imprescindível para vivermos bem na intimidade de nós mesmos. Em assim sendo o Testamento Vital é mera angústia com o nada que em graus e sentidos diversos busca o não-Ser.

Roque Roberto Pires de Carvalho

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