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Com novo recorde de calor, disparam vendas de ar-condicionado em Bauru

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 7 min

O que parecia impossível se confirmou. A temperatura recorde de 38,3 graus registrada na última terça-feira foi superada por uma nova marca histórica. Exatamente às 14h25 de ontem, os termômetros alcançaram os 38,7 graus, o nível mais elevado dos últimos 21 anos. E, em razão do calor extremo, aparelhos de ar-condicionado, bem como climatizadores, desapareceram das lojas. E os estoques de ventiladores estão cada vez mais reduzidos.

Segundo fontes consultadas pela reportagem, os estabelecimentos que vendem eletrodomésticos foram pegos de surpresa pela intensa onda de calor, para a qual não estavam comercialmente preparados. Sem dispor de estoque, os produtos se esgotaram rapidamente.

“A gente só não vendeu mais porque não tinha mercadoria. E não temos nem previsão para receber uma nova remessa. A gente depende do fornecedor”, reconhece o vendedor Joaquim Pedro Aneli. Na loja em que ele trabalha, o movimento de clientes se intensificou nas últimas duas semanas e, ontem, não havia um ar-condicionado sequer para ser vendido.

Com os climatizadores, a situação era idêntica e ventiladores eram poucos disponíveis. O mesmo ocorria em outra loja da cidade, que chegou a vender cerca de 120 ventiladores em um único dia. Por conta do preço médio de R$ 69,00, eles são os mais procurados pelos consumidores e, portanto, mantidos em maior volume pelas lojas.

Mesmo assim, a estudante universitária Gabriela Menin, 27 anos, enfrentou dificuldades para encontrar um modelo que agradasse o bolso e o gosto. Vinda do Guarujá, ela conta que passou os últimos três anos morando em Bauru sem precisar de qualquer equipamento para aliviar o calor.

“Até então, vinha sendo tranquilo ficar em casa e dormir à noite. Nesta semana, não deu mais. Está realmente muito quente. Mas estou achando os preços muito altos”, reclama. Se ventiladores são comercializados a R$ 69,00, os aparelhos de ar-condicionado (do tipo Split, que não demanda furação da parede) custam entre R$ 899,00 a R$ 1.299,00.

 

Classe C

Embora vendidos em menor quantidade, funcionários do comércio revelam que eles já ingressaram na cartela de produtos consumidos pela classe C. Até porque os estabelecimentos oferecem facilidades, como parcelamentos em até 12 vezes.

“Outra vantagem é que, hoje, o ar-condicionado está classificado como um eletrodoméstico de classe A, ou seja, de baixo consumo de energia. Antigamente, era de classe F, então eram poucos os que podiam manter”, comenta a gerente de outra loja, que preferiu não se identificar.

Já os climatizadores seriam um meio termo - em relação a preço e efeito de combate ao calor - entre o ar-condicionado e o ventilador. Ao custo de R$ 399,00 a R$ 429,00, ele é dotado de um reservatório de água que umidifica o ar e, assim, consegue reduzir a temperatura do ambiente.

“Depois do ventilador, é o mais vendido. Além de ser mais barato que o ar-condicionado, ele não demanda instalação, então é prático”, comenta Marcelo Gouvea, gerente de uma loja da região central da cidade.

Altas temperaturas interferem no sono e ampliam a irritabilidade das pessoas

Como era de se esperar, o calor registrado durante as últimas madrugadas desta semana tirou o sono e a paciência dos bauruenses. Segundo o Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), das 0h às 6h de ontem, a temperatura mais baixa foi de 23,4 graus.

Conforme publicado pelo JC, no último domingo, os termômetros registraram mínima de 23,3 graus durante a madrugada, que foi a mais quente dos últimos seis anos. A sensação de “forno” diuturna, conforme explica o reumatologista José Knoplich, realmente provoca reações no organismo.

“Estas temperaturas muito altas fazem com que o coração bata mais depressa para eliminar o calor. Essa taquicardia provoca sudorese e, à noite, faz com que a pessoa perca condições de chegar ao sono profundo”, observa ele, que é especialista em medicina do sono.

Sem conseguir descansar como deveria, o indivíduo enfrentará dificuldades para se concentrar no trabalho ou nos estudos. “E esse déficit de sono também causará irritação. De maneira prolongada, esse acúmulo de mal estar pode até mesmo desencadear depressão”, afirma.

Para evitar a indisposição, a solução ideal, segundo Knoplich, seria manter um aparelho de ar-condicionado no quarto ou mesmo no ambiente de trabalho. “Com o calor neste patamar, o ventilador já não resolve porque só faz circular o ar quente”, completa.

Os amigos aposentados Edson Moreti, 59 anos e Marcos Antonio Minto, 61 anos, sabem bem do que o especialista está falando. Ambos dizem gostar do calor e não reclamam na hora de dormir porque dispõem de ar-condicionado em seus respectivos quartos.

“Também tenho ar no carro. Nesse calor, não tem condições de ser diferente”, diz Moreti, que aproveitava a tarde quente de ontem na companhia do amigo no melhor clima de “sombra e água fresca”. “A gente se encontra todo dia para conversar e aproveita: toma uma água com limão e gelo para refrescar”, completa Minto.

Já a operadora de cobrança Rosana Antunes, 33 anos, conta que ainda ter de recorrer ao ventilador para aliviar o incômodo durante a noite. “Coloco na velocidade máxima e, mesmo assim, continua quente. Não tem o que fazer. A gente fica se revirando na cama e acorda a toda hora. No dia seguinte, o cansaço é evidente”, pondera.

Com 80 anos, Maria de Jesus dos Santos também lamenta o desconforto de noites tão mal dormidas nos últimos dias. Para ir ao Calçadão da Batista de Carvalho, não dispensou a sombrinha, a garrafinha d’água e uma pequena toalha para secar o suor do rosto. “É o que a gente pode fazer. Eu prefiro frio, o calor incomoda, mas baixar a temperatura a gente não consegue, né? Só Deus”, brinca.

 

Custo para instalação de ‘ar’ ainda é um entrave

Com melhor efeito “refrescante”, o ar-condicionado vem, aos poucos, ganhando as paredes das casas das famílias de classe média de Bauru. Com o avanço tecnológico que permitiu que ele se transformasse em um eletrodoméstico de baixo consumo de energia e com as facilidades de pagamento oferecidas pelas lojas, o que antes era artigo de luxo está se tornando um produto cada vez mais popularizado.

Mas, segundo uma gerente que preferiu não se identificar, existem alguns entraves que ainda afastam os consumidores menos endinheirados. Um deles é o custo de instalação do equipamento (do tipo Split), que gira em torno de R$ 300,00.

“Outro problema é que o aparelho funciona em 220V e quem tem relógio (de energia) monofásico precisa fazer a conversão para bifásico, o que deve custar mais uns R$ 300,00”, relata.


‘Feriadão’

Segundo o IPMet, o feriado prolongado de Finados será de calor e possibilidade de chuvas isoladas até o domingo, principalmente nos finais de tarde. Amanhã, as temperaturas devem cair um pouco e não ultrapassar os 34 graus. A partir sexta até o final do “feriadão”, os termômetros devem registrar mínimas de 18 graus e máximas de 30 graus.

 

Temperatura pode ter chegado a 43 graus

Ainda que os termômetros do IPMet tenham registrado 38,7 graus na tarde de ontem, as temperaturas podem ter alcançado até 43,7 graus em áreas pavimentadas e menos arborizadas da cidade. Isso porque, conforme explica o meteorologista Fernando de Almeida Tavares, a medição oficial é sempre feita à sombra, conforme preconizado por normas internacionais.

“E o IPMet fica em uma região de áreas verdes, o que ajuda a reduzir a temperatura. Nas áreas mais centrais, é possível que a temperatura seja até cinco graus mais elevada”, comenta.

De acordo com o instituto, a marca de 38,7 graus registrada às 14h25 de ontem é a mais alta dos últimos 21 anos e a segunda mais elevada dos últimos 27 anos. Em outubro de 1991, o calor alcançou os 39,4 graus na cidade. Em novembro de 1985, o recorde histórico hvaia chegado a 39,5 graus.

E o fato de os níveis mais elevados se concentrarem nesta época do ano não é mera coincidência. De acordo com Tavares, a primavera – e não o verão – figura historicamente como a estação mais quente do ano. “Trata-se de um período de pouca nebulosidade, em que as chuvas ainda estão começando e não são suficientes para aumentar a umidade do solo. Quando o verão chega, as temperaturas ficam um pouco mais controladas”, frisa. 

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