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Como moldar o mundo

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 4 min

O jornalista Clóvis Rossi declarou no último domingo, na TV Folha, que Barack Obama é melhor para o Brasil do que Mitt Romney. Para argumentar, lembrou que Romney dissera, dias antes, que os Estados Unidos deveriam moldar o mundo. " Imaginem quando ele falar pra Dilma que os Estados Unidos vão moldar o mundo! Qual será a resposta dela?", ironizou Rossi. É um tanto óbvio que nossa relação com os Estados Unidos será mais fácil com Obama, pois ele defende uma política multilateral no mundo, enquanto Romney defende a supremacia americana e ponto.

"Moldar o mundo", portanto, significa o predomínio dos EUA na política, na economia e no militarismo, coisa que os americanos já fazem desde o final da Segunda Guerra Mundial com metade do planeta. Quando o comunismo caiu na Europa, os americanos decidiram moldar o resto do mundo, mas ficou difícil, pois os muçulmanos não quiseram ser moldados - nem antes, nem depois do término da Guerra Fria. Para piorar a situação, nos últimos anos os árabes derrubaram vários ditadores sustentados por essa política ocidental de moldar países e estão elegendo governos que pregam a reação a ela (ou que têm um discurso bem próximo disso).

Se vencer as eleições, Romney deve ligar as turbinas dos aviões para dar o corretivo nos muçulmanos (só nos que não quiserem ser moldados). Essa guerra santa que governa o espírito republicano parte da visão de que o islã precisa ser controlado e convertido às regras da economia e da política "liberais" (desculpe, mas não dá pra escrever isso sem aspas). Para alguns, a conversão deve chegar à religião. No mesmo programa da TV Folha, um cabo eleitoral de Romney (o tal pastor radical que financiou o video ofensivo a Maomé) disse que o Islã é o mal, que deve ser combatido e derrotado. Ou seja, nos casos mais apaixonados, o espírito republicano confunde-se com a moral dos quakers, dos puritanos, dos mórmons; é um pensamento que está afinado com a missionária conversão de infiéis "anti-liberais" por todo o globo e que chega a tocar as ideologias de extrema direita dos confins dos EUA - certamente, supõe-se que o pessoal da Klu Klux Klan faça campanha para Romney e odeie Obama.

Porém, seja qual for o resultado das eleições, estamos em um mundo um pouco mais difícil de ser moldado pelos Estados Unidos. E não só por causa dos muçulmanos. A China, a Índia, a Rússia, o Brasil e boa parte da América do Sul têm interesses bem diferentes do molde norte-americano. Hoje os Estados Unidos dependem da China e de outras economias, pois no auge da riqueza virtual das décadas passadas, seus empresários demitiram massas de trabalhadores por lá e foram abrir suas fábricas em outros países, para pagar centavos a pessoas menos exigentes - aos americanos demitidos restou viver de empréstimos que não foram pagos. Já a Europa, poderosa aliada dos americanos, está em crise dupla: a econômica e a de consciência (sobre a legitimidade da União Europeia e do mercado financeiro dominarem seus governos e povos). Nos tempos da Guerra Fria era mais simples moldar o mundo, pois era possível entrar em acordo com este ou aquele governo (ou colocar o governo que se queria) em troca de proteção contra o comunismo - ou contra o imperialismo americano, no caso dos soviéticos. Hoje as invasões também são acompanhadas de discursos sobre a democracia e a liberdade, mas ninguém mais acredita nisso, a não ser os eleitores republicanos, alguns por inocência e outros por má fé.

Romney sente-se à vontade em seu papel de xerife do mundo. Combina bastante com a identidade dos republicanos e com aquela cultura de colecionar armas pela casa e desconfiar de tudo e de todos. É a velha verve conservadora do "nós contra eles" que disputa as eleições com o pequeno new deal de Obama. Em um comício próximo a uma base militar no último fim de semana, Romney foi interrompido pelo barulho de um jato que passava: "-Eu amo esse som", disse sorrindo e apontando para o ar - numa sutil ameaça contra os que não querem ser moldados.

O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história, jornalista e colaborador de Opinião

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