O motociclista Pedro Henrique Rosalin, 19 anos, que morreu ontem após colidir com uma ambulância (leia mais abaixo e na página 5), entrou para uma triste estatística em Bauru. Segundo informações da Polícia Militar (PM), o jovem foi a oitava vítima fatal de acidentes envolvendo motocicletas somente em 2012. O número já ultrapassa em duas mortes o mesmo período do ano passado e acende um sinal de alerta nas autoridades.
De acordo com os dados, das oito pessoas que morreram este ano, sete eram condutores das motos e apenas uma vítima era passageiro. No ano passado, foram seis mortes de janeiro até o começo de novembro. A violência envolvendo motocicletas converge com a situação do trânsito em geral de Bauru, que já registrou mais mortes do que todo o ano passado.
Faltando ainda dois meses para acabar 2012, o registro das oito vítimas fatais com motos já se iguala ao total do ano passado. E esses números não apontam exatamente a realidade, que é ainda pior. É que a PM só computa as mortes no local ou a caminho do hospital.
Para o oficial de Relações Públicas do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), capitão Alan Terra, esse índice de acidentes é um reflexo do aumento do número de motocicletas nas ruas de Bauru.
Por conta da facilidade de aquisição, as motos se proliferam nas ruas. De acordo com os últimos dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), há quase 50 mil motos em Bauru, o que representa cerca de 20% do total da frota.
“Percebe-se muita imprudência quando se fala em motociclistas. O que eles precisam entender é que possuem grande fragilidade. Mesmo com os itens de segurança, costumamos dizer que o para-choque de um motociclista é a sua própria testa”, alerta Alan Terra.
Para o capitão, a combinação de imprudência e velocidade cria uma fórmula quase fatal aos motociclistas. Há casos, porém, em que eles não são culpados. “Mas, por conta da fragilidade em que está exposto, quem conduz uma moto precisa redobrar a atenção”.
Agilidade
Nas motocicletas, a vantagem inerente ao próprio meio de transporte surge como um dos principais perigos: a agilidade. “A moto é conhecida pelas ‘facilidades’ que tem no tráfego. Por isso, as pessoas fazem movimentos perigosos, como ‘costurar’ o trânsito e também andar pelos famosos ‘corredores’”, explica Terra.
Além da queda em si - que geralmente é grave -, o motociclista está exposto a outro grande perigo. “Muitos fazem a curva ao lado de veículos de grande porte, como caminhões e ônibus. Se o motociclista se envolve em um desses acidentes, há grande possibilidade de que ele seja jogado para baixo desses veículos e atropelado”.
O relações públicas da PM complementa que a quantidade de mortes é relativamente pequena quando verificada a frota bauruense. Contudo, os números preocupam muito.
“São vidas que se perdem e que poderiam ter sido evitadas. O condutor tem que se conscientizar. À polícia, cabe fazer a fiscalização de trânsito. Cada vez mais estamos atuando com esse foco e com campanhas de educação”, finaliza o capitão Alan Terra.
‘Ganhar por entrega’ amplia riscos
Quanto mais entregas fazem, maior o lucro ao fim do dia. O que pode parecer uma lei normal do mercado de trabalho possui uma consequência preocupante. Para a PM, o ganho por produtividade dos motofretes é um estímulo à imprudência.
O capitão Alan Terra afirma que o fato de o profissional não ter um salário fixo e ganhar por entrega pode ser visto até como “uma falta de responsabilidade do empregador”. “Isso estimula que o entregador seja imprudente. Eles vão correr mais para lucrar mais”.
Além de abusar da velocidade, os motofretes, de acordo com Terra, cometem outros abusos. “Para chegar mais rápido, eles fazem manobras arriscadas no trânsito e não respeitam a sinalização”, destaca.
O presidente do Sindicato dos Taxistas, Caminhoneiros e Transportadores Autônomos de Bauru e Região, Vitor Talão, confirma que a maior parte das tratativas entre empregadores e motofretes é o ganho por entrega. “Eles possuem um valor fixo que ganham por cada entrega feita”.
Ele concorda que tal modelo de contrato de prestação de serviço aumenta a situação de risco dos profissionais. “Isso também ocorre naquelas empresas que colocam um prazo limite para as entregas. Existem municípios que proíbem isso”, afirma.
Talão propõe que uma alternativa para o modelo atual do lucro por produtividade seria aumentar o valor fixo a ser recebido por cada entrega e impor um limite de entregas por horário. “Porém, para discutir e lutar por essas e outras questões, precisamos de uma regulamentação antes. Estamos um passo atrás ainda”, finaliza o presidente do sindicato.
Tragédia anunciada
Além dos familiares de Pedro Henrique Rosalin, 19 anos, que morreu na manhã de ontem após colidir sua motocicleta contra uma ambulância na rua Albino Tâmbara, dezenas de pessoas estiveram no local e protestaram.
Moradores próximos ao local do acidente diziam que uma tragédia como a de ontem já era esperada. De acordo com eles, há uma semana um acidente entre dois carros arrancou um poste de sinalização em frente ao Centro de Saúde do Trabalhador.
“Só neste ano já foram mais de oito acidentes. As marcas nos muros do centro ali na esquina não me deixam mentir. Para entrar na garagem de casa é uma dificuldade. Os motoristas não param e descem a rua em alta velocidade”, reclama Valdecir Jacinto, morador da rua Albino Tâmbara, apontando para o Centro de Referência em Saúde do Trabalhador.
“Toda semana tem acidente por aqui. Não tem uma lombada, fiscalização ou um semáforo por perto. Os motoristas invadem o ‘Pare’ mesmo”, aponta Cláudia Lopes de Oliveira, funcionária de uma lavanderia em frente ao acidente.
“Essa rua virou pista de corrida e do outo lado ninguém respeita a sinalização. Está na hora de tomar uma providência”, fecha questão o engenheiro civil Sebastião José de Almeida, que também é morador das proximidades do fato.
2012 violento
Em relação ao total de mortes no trânsito, 2012 já ultrapassou os registros de todo o ano passado. Entre acidentes de carros e motos, são 21 vítimas fatais, enquanto 2011 teve 19 casos.
Curiosamente, Bauru vinha seguindo uma curva decrescente. De acordo com a PM, em 2010 foram 23 mortes e, no ano anterior, foram 32 vítimas fatais.
Dois acidentes graves
Quando se pensa em acidente com motocicletas, muitos imaginam que aqueles que estavam sobre duas rodas são os culpados. Apesar de as apurações estarem em andamento para constatar as causas das colisões, nos dois casos graves desta semana não foi bem assim.
Ontem, Pedro Henrique Rosalin seguia na preferencial quando, segundo testemunhas, a ambulância não respeitou a parada obrigatória e causou a colisão.
Na terça-feira, uma mulher também se acidentou gravemente no Jardim Bela Vista. De acordo com duas testemunhas, a vítima, Maria Zilda Euflosina dos Reis, 42 anos, trafegava em uma Honda Biz preta quando, por volta das 7h30, foi atingida pelo motorista de uma caminhonete Chevrolet no cruzamento da rua Alto Juruá com a Padre Anchieta. O boletim de ocorrência (BO) do acidente confirmou a versão das testemunhas.
A motociclista estava, até o fechamento desta edição, internada em coma na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Base (HB).