Doha - Os divididos grupos de oposição da Síria finalmente deixaram de lado diferenças profundas e declararam apoio a um novo líder de uma coalizão que os aliados ocidentais e árabes esperam que consiga derrubar o presidente Bashar al-Assad e assumir o país.
Após dias de discussões acirradas no Catar sob pressão constante de autoridades árabes, dos EUA e de outros líderes, representantes de grupos rebeldes, incluindo dissidentes das Forças Armadas e minorias étnicas e religiosas, concordaram, no domingo, em participar de uma nova assembleia para formar um governo no exílio. Eles elegerem por unanimidade o clérigo reformista de Damasco Mouaz al-Khatib como seu presidente.
Khatib, um pregador de voz suave que já foi imã da antiga mesquita dos Omíadas em Damasco, imediatamente fez um pedido a soldados para que abandonem o Exército sírio e para que todas as seitas sírias se unam.
“Exigimos a liberdade de todos os sunitas, alauítas, ismailis (xiitas), cristãos, drusos, assírios... e os direitos de todas as partes do harmonioso povo sírio”, disse ele a repórteres.
Ainda não se sabe se a Coalizão Nacional Síria para a Oposição e as Forças Revolucionárias conseguirão superar as suspeitas mútuas e os combates internos que enfraqueceram o movimento de oposição de 20 meses, que tenta acabar com quatro décadas de governo da família do presidente Assad.
Mas para os aliados no exterior, que esperam uma repetição na Síria do Conselho Nacional de Transisção da Líbia que derrubou Muammar Gaddafi, o acordo foi bem-vindo num dia em que Israel disparou um míssil depois que uma bomba de morteiro lançada da Síria atingiu as Colinas de Golã, e em que as forças de Assad fizeram ataques pelo ar ao longo da fronteira da Turquia.
“Vamos nos esforçar a partir de agora para ter este novo órgão completamente reconhecido por todas as partes... como o único representante legítimo do povo sírio”, disse o primeiro-ministro do Catar, xeique Hamad bin Jassim, um importante aliado dos rebeldes.
O ministro das Relações Exteriores da Turquia, Ahmed Davutoglu, disse que “não há mais desculpas” para governos estrangeiros não apoiarem a oposição síria unida.
Apoio ocidental
Os Estados Unidos também se esforçaram para o sucesso do encontro em Doha para unir as várias facções e, notadamente, transformar o anteriormente ineficaz Conselho Nacional Sírio em um órgão mais amplo que incluísse todas as minorias de um país de diversidades étnica e religiosa.
A França, aliada dos rebeldes e que no passado já governou a Síria, saudou o acordo. “A França vai trabalhar com os seus parceiros para assegurar o reconhecimento internacional desta nova entidade como representante das aspirações do povo sírio”, disse o ministro das Relações Exteriores francês, Laurent Fabius, num comunicado em que chamou o governo Assad de “regime criminoso de Damasco”.
Vinte meses depois que as manifestações de rua inspiradas na Primavera Árabe provocaram uma resposta militar de Assad, seus inimigos esperam que uma oposição mais coesa possa quebrar um impasse na guerra civil e ganhar mais apoio militar e diplomático do exterior por parte de aliados que até então vinham sendo cautelosos diante da presença de militantes anti-Ocidental, alguns deles ligados à Al Qaeda.
Rússia e China, que bloquearam iniciativas anteriores contra Assad no Conselho de Segurança da ONU, não devem alterar suas posições exigindo diálogo com Assad. Os dois países dizem que os grupos de oposição estão sendo escravizado pelo Ocidente.
Israel abre fogo contra a Síria e retalia Gaza
Jerusalém - Israel viveu ontem mais um dia de escalada militar em duas frentes. No norte, o Exército israelense abriu fogo contra a Síria pelo segundo dia consecutivo, em reação à queda em seu território de morteiros do país vizinho.
No sul, ao menos 20 foguetes da faixa de Gaza atingiram Israel, que respondeu com novos ataques ao território palestino e ameaçou ampliar a retaliação.
Anteontem, Israel disparou contra a Síria pela primeira vez desde a Guerra do Yom Kipur, em 1973, numa advertência ao regime sírio.
Ontem, após mais um morteiro da Síria atingir as colinas do Golã - território que ocupa desde 1967 -, Israel passou da advertência ao ataque, com disparos de tanques que acertaram duas artilharias móveis sírias.
Segundo comunicado do Exército, o ataque atingiu “a origem” do morteiro disparado horas antes, que caiu perto de uma posição militar sem deixar vítimas ou danos.
Israel decidiu abrir fogo apesar de acreditar que os disparos que atingiram o Golã foram de “morteiros perdidos” da guerra civil síria, e que Damasco não tem interesse em uma escalada militar além de sua fronteira.
Apesar disso, o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, advertiu que o país “não permitirá que ninguém viole nossas fronteiras ou atire em nossos cidadãos”.