Naquela tarde cinzenta de um ano qualquer ele sentou-se na cadeira de espaldar alto. Mormaço na rua, pequena aragem inundava o ambiente sempre suave como deve ser em todas bibliotecas. Consultava livros, revistas novas e antigas, jornais completos ou páginas recortadas com algum assunto estimulante para sua incorrigível curiosidade. Em dado momento olhou para o calendário e viu tratar-se do dia 20 de novembro, data aparentemente sem nenhum brilho ? um dia como outro qualquer e, no entanto, ao pesquisar livros antigos deparou-se com a obra escrita por David Nasser (1917-1980).
Quando ele escreveu o livro cujo título tomo por empréstimo (2ª Ed. 1948, Editora: Do Povo), o autor esmiuçava a agressiva atuação militar e política de Filinto Strubing Müller (1900-1973 ), um dos mais temidos chefes de polícia durante o período ditatorial iniciado em 1930 acrescido do Estado Novo até 1945 com as violações dos direitos humanos ocorridas na época. Para o autor, o déspota deveria sentar-se no banco dos réus daquele Tribunal. O dia marcado pelo calendário e o título do livro eram recorrentes e para esses dois pontos teve seu interesse aguçado. Realmente, no dia 20 de novembro de 1945 instalava-se na cidade de Nuremberg, Alemanha, o Tribunal Militar Internacional encarregado de processar e julgar os principais dirigentes/criminosos do nazismo na Segunda Guerra Mundial.
Inicialmente com 24 sentados no banco dos réus. Resultado: 12 condenações à forca. Na manhã do dia 16 de outubro de 1946 apenas 10 subiram aos patíbulos (3) instalados no presídio de Nuremberg. Três à prisão perpétua, dois a 20 anos de prisão, um a 15 anos de prisão, um a 10 anos de prisão, um suicidou-se, três foram absolvidos, um teve a acusação cancelada. Até o final do julgamento em 1° de outubro de 1946 o Tribunal analisou 117 acusações contra os criminosos e dentre eles médicos, juristas, generais do alto comando, políticos, bem como empresários ligados à indústria bélica. Os fatos antigos e os contemporâneos ensejam reflexões... nomes e calendários quando bem observados mexem com a memória !
O entardecer continuava cinzento como este texto. O que fazer? Se ligar a televisão, se o jornal do dia for revisto ou folhear a última revista irá constatar, acabrunhado, a repetição de tantos fatos lamentáveis. Lá e cá. O melhor no seu sentir era fazer as orações da noite, conciliar o sono e amanhã, logo pela manhã no jardim da casa grande, ao lado de sua amada respirar o ar impregnado do perfume das orvalhadas flores e aguardar o sol tingir de ouro o alvacento céu...
Roque Roberto Pires de Carvalho