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Luso: histórias que se confundem

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 9 min

 

João Rosan

A era digital e as piscinas residenciais afugentaram sócios da participação no clube

A Associação Luso Brasileira de Bauru completa 50 anos. Sua história tem inúmeros participantes e se entrelaça com vivências de dois homens que participaram da fundação e até hoje estão no quadro de diretores. A ‘dupla’ que soma mais de um século, José Salomão com 82 e Antônio Rodrigues dos Santos 90 anos, luta pela sobrevivência do clube e aposta na superação. Na receita, muito trabalho. Os dois fazem planos para o futuro e sonham com a piscina de 50 metros e com a área dedicada aos idosos. 

 

Crise não é palavra que faz parte do vocabulário de Salomão. Pessoa alegre e de bem com a vida, ele gosta de um bom papo e não cansa de elogiar José da Silva Martha, o idealizador do clube. “Minha esposa é neta de português e tinha um círculo de amizade com a família Martha. Foi ela que me aproximou deles. Aprendi muito com a festa portuguesa que à época era realizada na Avenida Nossa Senhora de Fátima.” 

 

Salomão lembra com ar saudosista que foi na preparação da festa portuguesa que aprendeu a descascar batatas. “A festa começava antes para os diretores. Fazíamos uma reunião regada a um bom vinho para preparar toda a comida para o evento. Era só alegria. Nós limpávamos sardinha e preparava os bolinhos de bacalhau para a venda. Havia uma integração muito grande entre os participantes.” 

 

O convite para assumir a diretoria de patrimônio e social foi feito pelo próprio presidente da época, José Martha. “Eu ouvi as intenções dele, a direção do trabalho que ele pretendia fazer e aceitei. Eu sempre gostei de festas, músicas, de lidar com pessoas e eventos. Encarei a empreitada. Estou na associação até hoje. Já ocupei vários cargos, como diretor, voluntário. Só não fui presidente porque recusei o convite.” 

 

Na mesma época, o José Martha conversou com Antônio Rodrigues dos Santos para que ele assumisse a parte esportiva do clube que estava nascendo. “Eu conversei com o Rodrigues e nossa maneira de pensar era semelhante. Encaramos a empreitada com a certeza de que iríamos vencer. Estávamos plantando naquela época. Hoje, estamos colhendo sonhos e ainda temos alguns para serem realizados.” 

 

O auge do clube, ressalta o diretor, aconteceu entre os anos 70 e 85. “Nesse período tínhamos 3.400 sócios. O clube viveu o seu auge nesses 15 anos. Famílias inteiras frequentavam os eventos, eram muitos shows, peças de teatro e piscinas. Havia um entrosamento enorme entre os sócios e uma confiança dos pais nos diretores.” 

 

 

A era da tecnologia

 

O clube sofreu com a chegada das novas tecnologias. Com um computador à frente, os jovens deixaram de frequentar o clube e passaram a se relacionar com os amigos de maneira cada vez mais digital.  A chegada dos condomínios somada às facilidades em instalar piscina também influenciou na ‘quebra’ dos clubes. 

 

“Hoje, a maioria das casas tem piscina, sauna e área de lazer. Os condomínios também oferecem a área de recreação. Alguns deles têm salões de festas e cozinha. Os jovens vivem em casa, no computador e na piscina do quintal. Isso afugentou os sócios”, comenta Salomão. 

 

Com saudade ele lembra da época em que os pais frequentavam os bailes juntos com os filhos. “Não tem comparação entre aquela época e hoje. Os filhos iam com os pais para os bailes, nas festas. Foi nesse período que a diretoria resolveu realizar o Carnaval, voltado aos sócios, as famílias. Naquele tempo ainda existia em Bauru, o Bauru Tênis Clube, o Clube dos Bancários, Country e Paulista.”   

 

Com pouco dinheiro em caixa, os diretores foram obrigados a arregaçar as mangas e fazer todo o trabalho. “Venderam muitas mesas e nós, diretores, carregamos mesas e cadeiras nas costas. Nós mesmos fizemos a segurança dos foliões. Foi nessa época que conquistamos o título de clube família. Os pais confiavam demais no trabalho nosso.” 

 

 O rei Roberto: duas vezes

 

Os grandes shows e orquestras marcaram a história da Associação Luso Brasileira, ressalta Salomão com orgulho. “Grandes nomes figuraram com seus shows. Destaque para as orquestras. A do Severino Araújo vinha três vezes por ano. Quando ele completou 50 anos de carreira, a comemoração foi no Luso. Eu entreguei um troféu a ele. A orquestra de Osmar Milani e tantas outras fizeram a alegria dos associados.” 

 

O rei Roberto Carlos esteve na Luso duas vezes, em menos de 30 dias, fala com alegria o diretor. “Além de Paralamas do Sucesso, Titãs, Rita Lee, cantoras da bossa nova e até Ray Connyff.” 

 

Do show do rei brasileiro, Salomão guarda lembranças com sabor de nostalgia. “Ele exigiu que o camarim ficasse 20 metros da orquestra onde ele ia se apresentar. Tivemos que fazer o camarim encima do cimentado. Era um camarim de luxo. Eu tive a oportunidade de bater um papo com ele, foi uma satisfação para mim.” 

 

A presença do cantor Cauby Peixoto gerou uma amizade que dura até os dias de hoje. “Eu admirei o Cauby desde que o conhec

 

 

História traz revelação de atletas

 

Um convite vindo do engenheiro José da Silva Martha diretamente para o então atleta Antônio Marques Rodrigues dos Santos foi a ‘chave’ para que este entrasse de cabeça num projeto que prometia ser um Clube Pinheiros do Interior. Deste start veio uma ação que gerou a revelação de grandes atletas.

 

“A história do clube português começou com o convite para eu ser o responsável pela parte esportiva do clube. José Martha tinha feito engenharia em São Paulo e jogava tênis no Clube Pinheiros. Ele me disse: Quero fazer um Pinheiros pobre, menor. Você conhece profundamente aquele clube. Eu topei. Realmente conhecia o Pinheiros. Meu sobrinho Manuel dos Santos era nadador olímpico, todos os meus sobrinhos frequentavam lá”, diz Antônio. 

 

Português ‘legítimo’, Rodrigues nasceu em Mortede, região de Coimbra e conquistou vários títulos como atleta e nessa época era diretor da Federação Paulista de Basquete e de Natação. “O José Martha conhecia minha trajetória esportiva e sabia que isso facilitaria os contatos com os clubes de São Paulo.” 

 

A ideia de Martha era a de um clube esportivo. “Ele não tinha a intenção de trabalhar a parte social. Queria que atingisse a cidade de Bauru. Não seria exclusivamente para sócios, era para ter equipes esportivas e para isso teríamos que manter contato com os não sócios.” 

 

 

Pesquisando 

 

Rodrigues partiu para uma pesquisa para descobrir onde estavam os jovens bauruenses em condições de serem atletas de competição. “A maioria dos que tinham condições de fazer alguma coisa estavam nas vilas, mais especificamente na Bela Vista. Entrei em entendimento com as diretoras de ginásios e grupos e convidamos os alunos para participar. Atingimos não o associado, mas as crianças que tinham condições de serem atletas. O começo das equipes foi assim.” 

 

O sucesso foi grande na opinião de Rodrigues. “Eu contei com pessoas como Flávio De Angelis, Paulo Zuicker e tantos outros. Conquistamos títulos com o basquete, vôlei e natação. Construímos uma piscina de 25 metros. Era a única de Bauru com essa metragem.” 

 

Relembrando o auge esportivo, Rodrigues diz que o basquete masculino foi campeão paulista em um jogo realizado na Panela de Pressão. “A equipe de basquete feminino foi montada com as alunas do Colégio Guedes de Azevedo e do Instituto de Educação Ernesto Monte. Foi essa equipe que revelou a Jacy Guedes, a melhor pivô de Bauru até hoje. A Suzete se juntou ao grupo vindo de Penápolis. Fomos buscar atletas fora de Bauru para completar nossas equipes”, conta.

 

O time da época quase não tinha páreo nas competições. “O basquete feminino teve como adversário somente Piracicaba, o famoso. Depois era o nosso e em algumas oportunidades chegamos a ganhar deles em São Paulo. Teve uma época que tinha 150 crianças em treinamento no basquete.”, recorda.

 

 

O sonho não acabou

 

Entusiasta por natureza, Salomão garante que o sonho que começou em 62 ainda não acabou. “Nosso sonho continua, vai ter mais coisas. Hoje a Luso é um clube em pleno vapor, com construções. A academia é um luxo, sauna, o salão social com ar condicionado. Tem a piscina que eu chamo de mar porque tem uma ilha no meio. É a coisa mais linda, um poliesportivo. Estamos terminando a obra da lanchonete. O próximo passo é a construção de uma área dedicada aos idosos. Não é para já, mas futuramente, nós vamos ter um lugar dedicado a melhor idade. O Projeto Suavidade tem mais ou menos 200 integrantes.” 

 

Na opinião dele, o clube está evoluindo. “Os funcionários, sócios e diretores concentram esforços para fazer do clube um ‘lar’. Tem diretor que não vai para casa. Estou no conselho fiscal e se Deus quiser vamos fazer uma capelinha para morar lá”, brinca... 

 

Para mostrar que o trabalho está dando resultados positivos, o diretor enfatiza que até o final de novembro a associação está vendendo títulos. “Nós fizemos no começo do mês, o lançamento de novos títulos familiares. São 24 pagamentos de R$ 100,00. Em 20 dias vendemos 418 títulos, sendo que 12% deles foram vendidos para moradores da região. Queremos chegar a 600 sócios com a promoção que vai até o final de novembro, então vamos encerrar as vendas.” 

 

Antônio Marques Rodrigues dos Santos, também diretor, faz planos para o futuro. “Eu considero que o que me propus a fazer lá foi benéfico e promissor para Bauru. Hoje, não tem nem metade disso. Eu pretendo pressionar a diretoria para que seja construída uma piscina de 50 metros, oficial. A piscina de 25 metros não registra mais tempo. Se quiser ter tempo para homologar tem que fazer uma de 50.”

 

 

História do clube

 

A Associação Luso Brasileira nasceu em 08 de julho de 1962, da iniciativa de um grupo de portugueses que desejava integrar as comunidades do Brasil e Portugal. A festa mais famosa se perpetua até hoje, a Festa Portuguesa. No último nos, o evento foi visitado por mais de 3,5 mil pessoas. 

 

A iniciativa foi do então Comendador José da Silva Martha, aliado a um grupo de bauruenses luso-brasileiros que lançou uma semente para a formação de uma associação com fins culturais, recreativos e filantrópicos. Nessa noite memorável era realizada a festa “Noite Portuguesa” e a semente da Luso era plantada. Floresceu. Ficou adulta. Frutificou.

 

Em julho deste ano, o clube passou oficialmente a ocupar a sua sede de campo, na rodovia Marechal Rondon, ao lado do Alameda Quality Center. A mudança se deu por conta da venda da sede social para a empresa Zopone Engenharia. 

 

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