Viajar enriquece, quando conseguimos entrar na alma do lugar novo que encontramos, respirando e vivendo no mesmo ritmo do povo local. Ao chegar, adolescente, numa praia do litoral norte pra acampar, firmei amizade com o cara que tinha uma barraquinha à beira-mar. Instalei-me ali do lado dele e passei a ajudar no seu dia a dia: eu não tinha pressa, estava acampado e o peixinho frito da sua barraquinha era saboroso e barato. Barato porque eu passei a não pagar nada do segundo dia em diante daqueles 15 que teria de férias. Cedinho já íamos escolher os peixes pra serem servidos aos turistas. Eu era responsável por levar a cervejinha: então estava formada a dupla, o que me fez hoje sabedor dos costumes das famílias caiçaras daquela região, bem como suas dificuldades, prazeres a até seu linguajar, que me pareceu mais familiar. Além da amizade despretensiosa, porém honesta, que me fez voltar pra lá, mais umas duas ou três vezes.
Fui visitar um parente na longínqua Porto Velho, estado de Rondônia, no fim dos anos 80, experiência avassaladora e inédita. Dotada de um sol só pra ela, a capital portovelhense, às margens do rio Madeira, causou espanto logo ao sair do avião. Foi como uma bofetada na cara aquela fornalha imediatamente após voar sob ar refrigerado.
Peixes em abundância, avenidas de terra batida, uma capital feia, por ter saído do status de Território para Estado por aquelas épocas. Logo ao chegar na casa do meu cunhado, fomos abordados por um padre de bicicleta, que tencionava invadir um terreno ali do lado, cujo dono ninguém sabia quem era. Atitude corriqueira, segundo os de lá, naquela região, onde é dono quem se manifesta primeiro. Assusta um habitante da região sudeste, cujo desenvolvimento e civilidade fazem aniversário.
No centro da cidade, comi a famosa saltenha, um pastel assado de carne originário da Bolívia, assaz apimentado, mas muito gostoso. No ambiente comercial da capital de Rondônia, o que me causava admiração era a música ambiente, muito animada e requintada. Tratava-se de um ritmo com uma languidez produzida por um naipe de sopros, junto de uma guitarra ritmada, que fazia você sem querer, começar a se mexer.
E daí mexe-se como cada cristão sabe. Luiz Gonzaga dizia que cabra da peste não mexe "daqui pra baixo", só "daqui pra cima". Referia-se ele à cintura do abestado, porque daqui pra baixo cabra macho é trancado, não remexe não.
Numa noite calorenta daquelas, fomos todos a uma festa na casa de uns amigos. Nem cheguei perto e já ouvi aquele saxofone malemolente, numa levada que chamava pra dançar. E não deu outra: as mulheres de saia já estavam a mexer as ancas percorrendo todo o quintal da residência do anfitrião, sozinhas ou acompanhadas, mas percebi que elas preferiam dançar livres, embaladas por aquela música que eu nunca tinha ouvido antes.
Passados alguns anos, apareceu a lambada, que me fez lembrar um pouquinho de toda aquela cena musical inusitada e que parecia existir apenas ali no norte do país. Agora, o descendente daquele ritmo é o chamado tecnobrega, que faz uso de alguns sopros.
Mas hoje, apenas hoje, por incrível que pareça, fiquei sabendo o que era aquele painel mágico de sons e levadas de guitarra, que chamava pra dançar: era - e é - o siriá.
O autor, Marcondes Serotini Filho, é ortodontista, cronista e autor dos livros "O Sonho: Crônicas Escolhidas" e "Os caçadores de Tirisco".