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Trânsito faz 24ª vítima fatal no ano

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

“Algo tem que mudar”.Foi esta a frase que Jacqueline Pereira Pires Alves, 27 anos, disse em relação ao trânsito de Bauru minutos após ver seu marido, Jonas Ribeiro Alves, 32, ser enterrado na tarde de ontem. Após mais de dois meses internado, o entregador se tornou a 24.ª vítima fatal do trânsito na cidade. Faltando ainda mais de um mês para o fim do ano, 2012 registra 24 mortes, saldo trágico que já supera os números dos dois anos anteriores.

O motociclista Jonas Alves se acidentou no cruzamento entre a rua Sérgio Malheiros e Octacilio de Andrade Tourinho, no Jardim Carolina, na noite do dia 15 de setembro. Segundo o boletim de ocorrência (BO), Jonas conduzia sua moto quando não parou na sinalização e colidiu com um Ford Ka. Na motocicleta havia ainda outro homem, de 44 anos, que também ficou ferido.

Jonas foi internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Base (HB). “Na manhã de ontem (anteontem), nosso pai foi vê-lo e ele estava melhor. Quando foi à tarde, veio a notícia de que ele morreu. Perdemos uma pessoa que era querida por todos”, lamenta Ageu Ribeiro Alves, 34 anos, irmão da vítima.

De acordo com o hospital, Jonas morreu às 18h de anteontem. Ele engloba uma triste estatística: é a 24.ª vítima fatal do trânsito bauruense somente em 2012. A realidade preocupante já foi levantada pelo JC em várias edições, como a do último domingo (leia mais abaixo).

As 24 mortes já superam 2011 e 2010. De acordo com dados da Polícia Militar (PM), o ano passado teve 19 registros, número que já havia sido ultrapassado há meses.

Agora, com a morte de Jonas, o trânsito se torna mais violento também que em 2010, quando ocorreram 23 mortes.

Esta estatística, infelizmente, ainda deve ganhar contornos mais dramáticos, uma vez que faltam ainda os dados de dezembro, quando aumenta muito o fluxo de veículos na cidade.

 

‘Condutor’ de Bauru

Se a grande parte dos condutores bauruenses precisa ter mais educação e atenção para que o trânsito melhore, um dos motoristas tem uma responsabilidade “um pouco” maior. Trata-se do prefeito Rodrigo Agostinho, que também sofre em meio ao trânsito.

“O trânsito é agressivo o tempo todo. O interesse individual prevalece. E isso ocorre com o motorista, motociclista e mesmo o pedestre. Com todo mundo. É preciso mais educação, algo que não se conquista em curto prazo”, explica.

Mas se a educação resolveria o problema em longo prazo, o que fazer agora? O prefeito afirma lidar com um paradoxo complexo, uma vez que precisa dar mais fluidez ao trânsito e, por outro lado, controlar esse fluxo.

“A maior parte das ações viárias visa dar fluidez ao trânsito, pois a frota só aumenta. Quando aumenta a fluidez, aumenta a velocidade. Nossa missão é investir para controlar esse efeito”, complementa o prefeito.

 

‘Vai rolar festa no céu...’

Familiares e amigos deram o adeus a Jonas Ribeiro Alves, 32 anos, na tarde de ontem no Cemitério Redentor. Uma mensagem no cartaz com a foto da vítima exemplificava a alegria descrita por seus conhecidos: “Vai rolar festa no céu...”.

“Aqui”, porém, o clima era de muita tristeza. O entregador, que trabalhava em um centro de entreposto, deixou um filho de apenas 6 anos. “Ele era uma ótima pessoa. Muito alegre. Não tem quem não gostava dele onde morávamos, no Núcleo Geisel”, conta a esposa, Jacqueline Alves, em meio às lágrimas.

“Perdi meu parceiro de truco. Perdi meu parceiro da vida”, lamentava Ageu Ribeiro Alves, 34 anos. Irmão da vítima, ele relembra a alegria de Jonas. “Adorava uma festa. O mundo perde uma grande pessoa”.

 

Motocicletas preocupam Emdurb

José Gomes dos Santos, 60 anos; Maria Zilda Euflosina dos Reis, 42, Pedro Henrique Rosalin, 19 anos, e agora Jonas Alves, 32. Nomes que vão muito além dos números e representam dores indescritíveis para as respectivas famílias. Todos morreram em novembro, vítimas de acidentes envolvendo motocicletas.

De acordo com dados da PM, foram 11 mortes relacionadas a motos somente em 2012, o que ultrapassa o ano passado todo, quando foram registrados dez casos.

Os números de motociclistas mortos este ano representam 45% do total de vítimas do trânsito todo, o que preocupa, uma vez que, de acordo com os últimos dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), as motos equivalem a cerca de 20% da frota.

“É um trabalho que eu não estou conseguindo vencer”, afirma o presidente da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), Nico Mondelli, demonstrando a preocupação das autoridades com a questão.

De acordo com ele, será preciso uma campanha muito grande de conscientização, aliado a ações conjuntas. “Há muito desrespeito. Precisaremos de ações específicas de conscientização, principalmente junto aos motociclistas. Além disso, é necessário intensificar a fiscalização em ações conjuntas da Emdurb com a PM”, aponta o presidente.

E parece que ninguém escapa de ter uma história para contar. “Eu mesmo já sofri um acidente na Albino Tâmbara (local onde morreu um jovem de 19 anos este mês). Estava com minha criança, de 6 meses. O trânsito realmente está preocupante”, conclui Nico Mondelli.

 

40 semáforos

Para tentar frear a violência do trânsito, o prefeito Rodrigo Agostinho afirma que serão instalados cerca de 40 novos semáforos em cruzamentos da cidade. Porém, não é algo para já. “É um investimento caro. Esperamos concluir a instalação dentro de dois anos. Também estamos analisando implantar novos radares”, revela.

Agostinho ainda destaca o Plano de Mobilidade como uma das armas para tentar driblar o desafio do trânsito violento. “O plano visa fazer com que as pessoas se desloquem menos, trabalhando perto de ondem moram, por exemplo. Outra meta é fazer com que o uso do transporte coletivo volte a ganhar força”, finaliza o prefeito.

 

Por um trânsito mais cordial

Com o preocupante ano de 2012 em relação ao trânsito, o Jornal da Cidade passou a dar destaque ao tema em suas edições. No último domingo, ampla reportagem mostrou que o principal problema é falta de educação e respeito nos protagonistas desse cenário.

A ideia de um “Código” de convivência, como o que ocorre na Capital, surgiu como uma das soluções viáveis. Lá, com um trânsito bem mais caótico do que o bauruense, não é raro ver cenas de cordialidade.

Outros setores estão preocupados com o contexto. Uma campanha organizada pela ST Corretora de Seguros distribuiu 15 mil folhetos nas Igrejas Católicas, Presbiterianas Independentes e Luterana, onde as comunidades rezaram pelas vítimas de trânsito e seus familiares. Também foi criada uma Fan Page no Facebook (Trânsito seguro em Bauru). 

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