Tribuna do Leitor

Falar com um livro


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Apenas com a intenção de arrumar os livros ele atravessou a sala grande e chegou até sua modesta biblioteca. É de madeira escura e a estante predileta fica à esquerda de quem olha para ela. Além da mesa maior, existem cadeiras, sofás, aparelho de som, vasos com flores e vasos com plantas sem flores, álbuns de fotografias e nas paredes , fotografias de pessoas muito queridas.

Há também um piano Schvartzmann, uma peça de madeira com entalhe da deusa grega da Justiça, recebida como presente do artista por vocação o amigo Júlio Vaz.

Antes porém de começar as tarefas de arrumar e limpar o pó, passar um produto conservante na madeira com a clássica flanelinha amarela, de espanar cada volume cuidadosamente sem a preocupação de ler, sequer, o título da obra ou o nome do autor ficou a olhar distraidamente esses livros, alguns de capas vermelhas e outros de capas escuras qual uniformes, nos moldes de um batalhão em dia de desfile. O aspecto elegante e sóbrio oculta, na monotonia da cor, a diversidade das pessoas que neles deixaram a riqueza do saber. São os livros de Direito, de Filosofia e de Pedagogia, de História Mundial, de amenidades e de recolhimento nas horas calmas de alguns dias.

São as melhores encadernações que ele possui, sem sentir ainda a paixão por volumes exóticos das encadernações luxuosas, edições raríssimas, não deixando, igualmente, de apreciá-las como merecem. Prefere encontrá-las nas bibliotecas públicas a esforçar-se por possuí-las. Os livros de Direito são os mais belos da sua pequena seara do conhecimento. Hoje, fitando-os mais uma vez com suas roupagens grenás, mais escuras ou mais claras, com as letras douradas tão semelhantes, recordava o mundo da sua inesquecível sala de aula com seus alunos, destinatários finais de todo o saber jurídico-filosófico-pedagógico, emanados dos melhores e conceituados autores. A multiplicidade do pensamento científico-cultural desses homens e mulheres, permitiram saciar a sede do conhecimento, vivenciar os sonhos da juventude já distante e encontrar a segurança nessas páginas antigas, porém, sempre e muito atuais. Na arrumação da estante, encontrou uma apostila, nome muito singelo para uma obra de altíssimo valor acadêmico, autoria do saudoso professor Francisco Ribeiro dos Santos, aliás, seu primeiro professor e seu primeiro livro de Introdução à Ciência do Direito (Filosofia do Direito), oportunidade que teve para conhecer os nomes de Kelsen, Duguit, Del Vecchio, Cossio, Savigny e tantos outros luminares dessa ciência.

Na prateleira superior, alinhados um ao lado do outro ou enfileirados como militares com seus galões dourados, livros de doutrina e de jurisprudência prestam continência e se apresentam aos consulentes. Logo abaixo, numa miscelânea de estilos e épocas, revistas antigas e atuais, recortes de jornais, apostilas, dicionários em vários idiomas, teses universitárias em Educação, Direito, Odontologia e Medicina, envelopes, diplomas, cartões de prata com suas gravações alusivas a solenes eventos, registram frases que ficaram para sempre na memória de quem os recebeu e de quem teve a oportunidade de participar desses momentos que, sem dúvida, foram inesquecíveis, foram emocionantes.

Em igual contingente aos livros de Direito , encontram-se os livros de Psicologia, Pedagogia e de Filosofia que acompanharam uma inesquecível Mestra , em toda sua carreira de magistério no ensino médio e superior. Esses livros, hoje professores silenciosos, parecem lhes dizer alguma coisa... Enquanto ele passava a tal flanela amarela parecia ouvir, nas prateleiras, seus pedidos...

Estavam ali inertes aguardando apenas o momento de colocar à disposição suas permanentes luzes, respondendo perguntas e solucionando tantas dúvidas. Cada livro é uma alma e na sua biblioteca estão algumas das mais belas almas do conhecimento e do saber. Nada entretanto, distingue-os na aparência e, por mais rica que seja a sua encadernação ou mais modesta que seja a capa de papel ordinário há uma riqueza para quem os busca, para desfrute de algumas horas.
Entre o autor e o leitor cria-se uma simbiose, uma sintonia fantástica ! Há uma interação prazerosa, folhear e ler as páginas de um livro é como embarcar para uma viagem acompanhado de um cicerone escolhido com o maior interesse e carinho. Independentemente da modernidade tecnológica vinda pela internet , manusear um livro tocar suas páginas com as mãos, acariciar suas letras, é transportar-se até o pensamento do seu autor em comunhão e para ele, consulente, era o mesmo que falar com um livro.

Roque Roberto Pires de Carvalho - e-mail: Maryroque@uol.com.br

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