Consumismo é o nome que damos a uma doença. "Autopromoção" é o nome que damos a uma escravidão. O homem contemporâneo costuma, por negligência, adoecer de consumismo e se escravizar pela própria autopromoção. É disso que sofremos atualmente e é para isso que precisamos de tratamento sério. Precisamos valorizar os cabelos brancos e a sabedoria dos mais antigos. Precisamos aprender a olhar com mais respeito para trás. E, assim, encontrar (ou reencontrar) um sujeito inspirador como Jesus Cristo. Que inspirou uma outra pessoa muito interessante, São Francisco de Assis. Este que gostava de dizer e pregar que "de uma cabana pode-se adentrar mais facilmente no Céu que de um palácio!".
Virtudes milenares à parte, nós vivemos no epicentro do Relativismo Ético ? esse relativismo intenso jamais visto em toda história humana. Se o revolucionário Marx estiver certo e, de fato, "a economia determinar a vida", então entenderemos mais facilmente esse comportamento atual. Nosso vírus consumista é que nos faz "trabalhar em empregos que odiamos para comprar coisas das quais não precisamos!" (Tyler Durden, Clube de Luta). Também ver o relativismo ético sob a economia capitalista nos ajudará a entender nossa submissão, nossa escravidão, nossa angustiada luta por fazer a própria promoção, a autopromoção de nossa imagem. "Imagem" que nos leva a gastar o que não temos e comprar inutilidades apenas, apenas, para impressionar pessoas que pouco se importam conosco. A atualidade ? com seus assombrosos meios de comunicação ? possibilitou esse reinado da "imagem". É sob ela que estamos prostrados dia e noite.
Por outro lado, que possamos dar mais uma olhada para trás. E enxergar um Sócrates ? o grande pensador ateniense ?, que poderia ser rico vendendo seu conhecimento (como faziam os sofistas de sua época), mas que racionalmente optou pela simplicidade nos bens do corpo, pois, assim, defendia ser mais fácil "se achegar aos bens da alma". Curioso como esses grandes sábios não se venderam à sua própria vaidade. Sábios como Sócrates é que cunharam o conhecido aforismo oriental: "no fim do jogo, o rei e o peão voltam para a mesma caixa". Isso nos leva à conclusão óbvia de que somente os mais tolos precisam enriquecer para, tarde, descobrir que o tempo é um bem muito mais valioso que o dinheiro. Veja os exemplos: tanto Cristo quanto Sócrates foram assassinados publicamente. Mas como eles morreram defendendo virtudes, tiveram suas almas imortalizadas no tempo; são lembrados até hoje. A partir disso, reflita um pouco: quanto tempo durará a alma do nosso multibilionário nacional Eike Batista após a sua morte?! Por quanto tempo será lembrada na história?!
Ou seja, se precisamos mesmo fazer uma hierarquia de valores, que entendamos que os bens dá alma são sempre tesouros mais reluzentes que os do corpo. Daí porque o caso da moça que leiloou a virgindade, Ingrid Migliorini, é um exemplo de exibicionismo típico da nossa "sociedade do espetáculo", diria o crítico social Guy Debord. E o fato de um pagador entregar um milhão e meio (R$) apenas demonstra o modo irresponsável e fútil como certos afortunados esbanjam seu dinheiro ? tanta coisa menos vulgar e egoísta poderia ter sido feita com toda essa fortuna!
Diante desse ?show relativista?, não custa nada darmos uma última olhada atenciosa para a sabedoria que vem dos mais antigos. Essa sabedoria que nos ensina que (ao contrário do que pensam os mais vaidosos) não há salto-alto que seja mais confortável que usar um leve chinelo de dedo. Enfim, essa sabedoria que nos recorda que nosso tempo nesta vida é curto e as virtudes podem imortalizar dignamente a nossa alma. Por isso, que evitemos ser infectados com o consumismo ou escravizados pela própria autopromoção. Pois a simplicidade é que é uma virtude que realmente vale ouro.
O autor, Wellington Anselmo Martins , é filósofo e professor universitário; graduado em Filosofia (pela USC-Bauru); mestrando em Filosofia (pela PUC-SP) / www.filosofia-devida.blogspot.com