Articulistas

O tempo que temos

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 3 min

Ultimamente, aderi à ideia de utilizar menos o carro. Uso-o quando acho que realmente preciso dele. Como trabalho na cidade vizinha de Piratininga, decidi tomar ônibus, pois achei que seria bom, também, para economizar. Inexplicavelmente, é mais barato vir de carro. Gasto quarenta reais de álcool por semana (meu carro é 1.0 e econômico) para vir todos os dias, inclusive aos sábados e domingos, até Piratininga e voltar.; de ônibus, são trinta e seis reais e quarenta centavos - mas eu acabo usando o carro para outras coisas, como transportar minha filha várias vezes por semana. Ou seja, economizo mais de carro.

Piratininga, porém, é a libertação do carro. Dá pra fazer tudo a pé aqui. Isso parece ter o poder de tornar o tempo mais comprido - dá para realizar mais coisas ao longo do dia. Em cidades pequenas como Piratininga, quem adquire cultura e informação pode viver uma vida mais sofisticada - dispor de mais tempo é um dos motivos disso. Mas não estou me referindo ao conceito corrente da palavra sofisticação, que está atrelado a possuir aviões, iates, fama, mulheres turbinadas... estou falando de um conceito mais evoluído.

Qual seria a vantagem de ficar parado três horas por dia no trânsito, mesmo que dentro de uma Ferrari? Quando eu morava em São Paulo, saía do trabalho às 6 da tarde para tomar o ônibus no Alto de Pinheiros e chegar à faculdade, no Pacaembu, às 7. Nunca chegava na hora. Unem-se o cansaço, a vagabundice e a inconveniência... perdi um semestre na FAAP e dei muita grana para o Boim (era o bar aonde ia quem fazia comunicação lá). Já em Piratininga, se você sair cinco minutos antes para um compromisso, vai chegar mais cedo - a não ser que seja na zona rural. Mas é preciso ter paciência no mercado aqui. Todo mundo conhece todo mundo e a fila costuma andar devagar, pois as pessoas ficam confabulando entre si (ainda bem).

Quando deixei o emprego do Alto de Pinheiros, em São Paulo, descobri a imagem que se tornou, para mim, o símbolo da escravidão no trânsito: era um homem de uns quarenta anos, que parava em um Escort dourado no sinal da Teodoro Sampaio com a Alves Guimarães, na hora do rush, em frente à pastelaria onde eu ia sempre. Eu e meus colegas da faculdade ficávamos reparando na expressão de revolta, inquietação e raiva que ele fazia, por estar parado de novo ali. Ele costumava dar umas batidinhas secas no volante e bufava. Quando o sinal estava para abrir, já tinha levantado os braços umas três vezes, inconformado. Fiquei com aquela visão do trânsito na memória, apesar de tê-lo visto umas quatro ou cinco vezes apenas.

Quem usa o carro pra tudo esquece o prazer de caminhar. Vemos na TV inúmeras propagandas prometendo a fórmula do emagrecimento com dietas milagrosas. Desde que comecei a andar nos finais de semana aqui em Piratininga, emagreci 13 quilos comendo o que sempre comi. E nem queria emagrecer. Além disso, eu sofria de uma terrível insônia que desapareceu.

Em Piratininga existe um bairro chamado Kirilândia, que tem uma vista de cartão postal da Europa (sem exageros). Podemos sentar em uns banquinhos de concreto que a prefeitura colocou e ficar olhando a Fazenda Santa Maria e os morros da Fazenda São Pedro, que foi (ainda com o nome antigo de Fazenda Veado) da família do então presidente da República, Francisco Rodrigues Alves. Toda vez que olho pra lá, imagino por segundos o bairro do Alto de Pinheiros, em São Paulo, com as casas e as ruas passando pelos morros, e fico feliz pela fazenda estar ali na minha frente, ao invés do concreto.

Vejo muita gente ainda querendo ir para São Paulo, porque lá seria o lugar onde as coisas importantes acontecem. Acredito, porém, que o futuro descentralizará as grandes cidades. A cultura, o esporte, a arte e a educação poderão chegar em quantidade e qualidade nos pequenos centros e, com isso, desaparecerá aquela falsa impressão corrente de que em uma cidade pequena não há nada para se fazer.

O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história, jornalista e colaborador de Opinião

Comentários

Comentários