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O não-lugar

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

A cidade vai ganhando ares de "supermodernidade" com seus megacentros de compras. Inauguramos mais um shopping, enquanto o antigo é ampliado. Os atacarejos espalham-se na área urbana e hipermercados favorecem o desejo de consumo da população. É a lógica do excesso definida por um estudo famoso do antropólogo Marc Augé, que chamava esses espaços abundantes de "não-lugar". Neles as multidões se cruzam sem interagir, movidas apenas pelo desejo de consumo. Ao contrário do lugar antropológico, eles não têm identidade, não têm história e sequer permitem relações urbanas. No antigo mercado, herdado da ágora grega, os habitantes da comunidade se encontravam, discutiam seus problemas, namoravam e casavam enquanto faziam compras e vendiam bens. Infelizmente, o Mercadão de outrora desapareceu. Como conta o jornalista Luciano Dias Pires no "Bauru Ilustrado" de ontem, a feira livre da avenida Nações Unidas era "o ponto de encontro das famílias".

Em países como a Holanda e a Dinamarca, esses fatores de alienação social são combatidos por seu lado desagregador e de desertificação dos centros urbanos. Os holandeses, com as cidades destruídas pelos bombardeios ? primeiro dos nazistas e depois pelos Aliados para expulsar os alemães ?, criaram o calçadão, a céu aberto, com bancos, floreiras, obras de arte e registros históricos do que foi o local antes da destruição. Um "umbigo" de convergência urbana para as pessoas se encontrarem, identificarem-se com o passado e o presente e... comprar, se for o caso. Completamente diferente do Dubai Mall, o maior shopping do mundo com 2.400 lojas, 30 mil vagas na garagem, dezenas de cinema e milhares de pessoas chegando e saindo sem se olhar. A "identidade" ali é o passaporte que tem que bater com o nome do cartão de crédito. Aqui, RG e CPF também servem para se estabelecer uma relação meramente contratual. Trata-se de um mundo maravilhoso aparente, e gratuito. As visões paradisíacas, o distanciamento da realidade, a contemplação do mundo do consumo são oferecidos pelo espaço laboriosamente construído, onde o mundo real não entra. Ao atravessarmos a porta de ingresso no local, a impressão que se deseja transferir, desde o ar condicionado, é a do adentrar-se a um mundo puro. Puro de misérias, de pobreza, dos pedintes, dos assaltos e da violência lá de fora. Na inauguração do Shopping Nações, os convidados tiveram que passar primeiro pelas faixas de protesto dos funcionários do Hospital de Base, como a mostrar que o mundo também é feito de tristezas, de frustrações, de aborrecimentos.

No novo shopping podemos admirar a obra da nossa grande pintora Sueli Dabus, que soube transformar Bauru, com suas cores expressionistas, na cidade das "maravilhas", onde sete belezas eleitas foram poucas, e nove talvez não bastem. Importante colaboração estética da artista para uma cidade melhor. As lanchonetes americanas e as lojas italianas também reproduzem "o mundo", não exatamente o mundo como ele é, mas o mundo como as pessoas gostariam de vê-lo: cheio de cores, Papai Noel falante, enorme árvore de Natal, lojas em tons alegres, crianças brincando, belas roupas, organização e segurança absoluta. É a visão positivista que se esconde na ideologia dos dominantes: a concepção que na sociedade rege a ordem, a disciplina, a limpeza, a honestidade e tantas outras categorias idealistas desejadas da cultura.

A vida positivista é o suporte dos arquitetos desses "enclaves de prosperidade". Recria com fins mercadológicos o universo todo repleto desses signos que transitem puramente a positividade, a vida sem conflitos. Materializam o mundo de sonhos que povoa o imaginário da classe trabalhadora que, finalmente "vai ao paraíso". É a Miami acessível pelo ônibus circular. Em Bauru, liquidação também é "sale" e a loja dá "30% off". As pessoas e as coisas podem ser absolutamente reais, mas isso não é decisivo. O importante é a reordenação, o arranjo estilizado da natureza que só entra desidratada. O sol fica lá fora. E daí: as pessoas têm direito de sonhar... Quem vai ser contra? "O mundo é o mundo"- costumava dizer o saudoso Célio Gonçalves.

O autor, Zarcillo Barbosa é jornalista e colaborador do JC

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