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A canga de plástico

Valderez de Mello
| Tempo de leitura: 2 min

Num reino distante, quando em época de eleições, existia o famoso palanque na praça em frente à matriz onde as pessoas, ao tomarem conhecimento da vinda de um político, faziam questão de ficar na fila do gargarejo para assistir o acalorado comício. O palanque ficava abarrotado de lambe-botas que se acotovelavam para os "flashes" ao lado da figuraça e durante o empurra-empurra muitos até despencavam das alturas. Terminado o comício, o povo seguia para a sede do partido onde eram oferecidos sanduíches, sodinha e guaraná. Uma festa! Já nesse tempo se ouvia falar na caixinha do Ademar, acanhado depositório de valores para a campanha. Hoje, muito mais arrojado, temos o mensalão. Ademar de Barros, Plínio Salgado e o integralismo, Jânio Quadros e sua famosa vassoura, Marechal Teixeira Lott e sua dourada espada e rojões de vareta riscavam o céu faiscando no azul-marinho!

Nessa época muito já se ouvia falar em voto de cabresto. Colonos, funcionários e empregados eram obrigados a votar no candidato do patrão, senão iam para a rua. Porém, o antigo cabresto garbosamente ultrapassado foi pendurado no batente do portal da história. Então, em terras de Cabral, que já era dos índios por direito e por legado, surgiu a canga, gerigonça que colocada no pescoço dos rebeldes impedia que pulassem para o outro lado e se tentassem ficavam enroscados entre os fios do arame farpado. Todavia, a canga, pesada e arcaica, dava o gratificante direito a quem a usasse de ficar espiando pelos vãos da cerca. O uso da canga foi acatado, mesmo que perdido fosse o direito à liberdade de seguir pelos caminhos preferidos. Hoje, a velha canga, fruto da modernidade, é de plástico, leve e colorida, talvez a varinha de condão do século vinte e um. Distribuída "gratuitamente", tornou-se moeda para escambo de favores e cabe na palma da mão ou no bolso do infeliz. Fato gravíssimo é que muitos adotam a canga de plástico e oferecem com servilismo o lombo para que o adorno pacificamente seja colocado, tal e qual medalha de grandes conquistas. E o cidadão troca dignidade e valores personalíssimos pelas modernas cangas do século XXI, ou seja, dinheiro de plástico, benesses como bolsa família, vale leite, gás, luz, auxílio aluguel, bolsa saúde, vale transporte, vale refeição etc. Usufruir da canga de plástico gera acomodação, irmã gêmea da subserviência, amiga inseparável da submissão, descendente legítima do voto de cabresto e madrasta da antiga fada que coordenou a milagrosa campanha do ouro para o bem do Brasil em décadas passadas!

Valderez de Mello, advogada, pedagoga, psicopedagoga. Autora dos livros: Trama e Urdidura e Lágrimas Brasile

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