Mais de mil músicas no iTunes. Mais de mil opções para se ouvir num momento como esse. Trabalhar em rádio dá nisso. Você passa a viver dos sons, das músicas e tenta a todo o momento encontrar a letra perfeita para o que está se vivendo. Qual a melhor letra para esse momento? Como fazia todos os dias, subi as escadas do prédio, dei de cara com a árvore de Natal iluminada no último patamar e me dirigi à porta já enumerando as atividades que faria naquela tarde de trabalho. Entrei nos estúdios, cumprimentei o Reginaldo e ele me chamou para conversar.
Na cabeça de qualquer funcionário já passam mil coisas como "o que eu fiz de errado?" ou "nada de folga nas festas de final de ano", mas não, era para dar a notícia de que tínhamos que sair do ar. Sair do ar, a composição de palavras mais destruidora para quem ama o rádio. Parar de transmitir a programação, parar de desejar o tradicional "Boa Tarde" aos seus ouvintes e não atender mais as ligações da Dona Kiko. Na hora pensei nela, na amiga que eu fiz entre músicas do Ray Charles e Pat Boone.
Nunca imaginei que pudesse ficar tão amiga de uma ouvinte. Lembro-me da primeira vez que ela me ligou, elogiando minha voz, me desejando felicidades no novo trabalho e pedindo uma do Ray, sempre com vergonha de falar alguma palavra errada em inglês. Foram conversas e mais conversas seguidas de almoços dominicais, presentes de Natal, aniversários e muitos chocolates na Páscoa. Nossas famílias se tornaram próximas e nós cada vez mais íntimas. Quantos locutores têm o prazer de viver isso? Ela foi uma das primeiras pessoas a saber do nascimento da minha sobrinha, a Marina. Ligou várias vezes para mim até que pude retornar e contar a perfeição que era sentir aquele tipo de amor.
Isso é ser amigo. Mas não pensei só nela. Pensei também no Edvaldo, que adora ouvir Brian Adams; no Alcindo, que como eu adora um bom rock?n?roll; no Valdeci e sua preferência por Simple Minds a Billy Idol; na Adriana e suas escolhas românticas; na Cacilda e em sua família que participavam em peso todas as tardes; no seu Elias que sempre pedia suas músicas pelo código por não saber pronunciar o título delas em inglês e nos outros tantos que me deram o prazer de dedicar uma música a eles.
Como eu ficaria sem a presença deles nas minhas tardes? A última música que foi ao ar pelas ondas da rádio Veritas FM foi "Sweet Love", da Anita Baker. Estava no ar quando o Reginaldo entrou com o comunicado explicando a razão da interrupção da nossa transmissão. Deu um nó na minha garganta e um frio na barriga ouvir aquelas palavras, pronunciadas por um dos grandes professores que tive na vida. Estávamos fora do ar. O chiado que o rádio produz quando não consegue sintonizar o sinal é irritante e ensurdecedor, mas naquele momento era o som mais triste que eu poderia ouvir. Qual o próximo passo agora? A ordem foi desligar os equipamentos, empacotar nossas coisas, fechar tudo e esperar a decisão da Justiça. Nesse momento não tive como segurar o choro. Chorei pelos meus colegas de trabalho, pelos nossos ouvintes, pela nossa rádio, a nossa Veritas, a Veritas de Bauru que pertence a todos nós.
Em uma conversa com meu pai, contando tudo que tinha vivido naquele dia 5 de dezembro de 2012, ele me relembrou sobre a história da caneta BIC, onde muita gente não faz idéia do motivo e do porque do furo na tampa da caneta. Uns pensam que é por estética, outros pensam que não é para ressecar a tinta. A real razão daquele furo é salvar vidas. Crianças engoliam a tampa e sufocavam, mas quando a tampa ganhou um furo em sua ponta o ar poderia circular e crianças não mais se asfixiariam. Foram gastos milhões para simplesmente fazer um furo na tampa da BIC. A Veritas pode ser, a muitos olhos, apenas mais uma rádio, mas ela é um canal pelo qual passa o ar da educação, da boa música, de boas ideias e, principalmente, da amizade. Estou sentada na frente do meu computador escrevendo esse texto e passando por diversas músicas na playlist. Já ouvi Bowie, Queen, Los Hermanos, Jhonny Cash, Cat Stevens e Elis.
Ah, Elis, minha cantora favorita de todos os tempos! Parei em "Como nossos pais", a música que mais ouvi quando era adolescente e queria ir contra o mundo e mudá-lo por inteiro. Ainda quero, mas de uma forma diferente, de uma maneira "rádio" de ser. Há várias frases maravilhosas nessa letra. Entretanto, a que melhor se encaixa nesse momento é "...Você pode até dizer que eu tô por fora, ou então que eu tô inventando, mas é você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem...". Que essa pausa na nossa transmissão seja apenas o início de uma nova fase para a Veritas, onde o passado ficará bem lá trás e à sua frente apenas grandes amizades seladas pela boa comunicação e boa música. Até breve!
Beatriz Avallone