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O Natal pelo avesso

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O Natal também tem o seu lado vazio e de doce tristeza que favorece ao devaneio e a meditação. A face cruel é a da síndrome maníaco-depressiva que ataca os solitários. Lembrei-me de "Meu Natal", crônica de Clarice Lispector publicada em "A descoberta do mundo", onde ela conta que passa a noite do dia 24 com uma amiga solitária, num restaurante cheio, para que ela veja quanta gente sozinha há no mundo, e que só no dia 25, no almoço, comemora o Natal com os filhos. Tirante essas cores mais dramáticas sei bem o que é se sentir só na noite de Natal. No início da minha carreira era "premiado" com plantões de fim de ano no jornal. Só os veteranos eram dispensados para festejar com a família. Sobrava para os "focas", como chamavam aos neófitos do jornalismo. Fechada a edição, já de madrugada, cada um corria para sua casa para pegar a ceia requentada, menos eu que tinha pais e irmãos no interior. Minha vingança se resumia em comprar uma garrafa de champanhe George Aubert, nacional das mais baratas, e a coxinha que sobrou no boteco ainda aberto. No quarto de pensão, ligava o rádio e brindava a mim mesmo. "Feliz Natal, desinfeliz".

Durante esses plantões apareciam notícias de crimes cometidos por malandros de ocasião. Como aquela do falso Papai Noel que, em vez de dar presentes tomava-os nas lojas apinhadas de pessoas e vendedores afobados. O "indivíduo" contratado para vestir o uniforme vermelho do "bom velhinho" e enriquecer o imaginário das crianças, criara uma caixa com fundo falso, como se fosse um presente envolto em papel-seda e enlaçado com fita vermelha. Bastava cobrir o eletrodoméstico com a caixa e aprisionar o objeto por um furo sob a alça. O saco do Papai Noel ficou tão pesado com as mercadorias roubadas que furou despejando a carga no chão da loja. Os furtos, comuns nesta época do ano serviram de inspiração a uma crônica de Carlos Drummond de Andrade. Ele havia lido uma notícia no jornal sobre as aventuras de "um falso velhinho, conspurcador das vestes amáveis". O jornal recomendava: "Nesta época do Natal, o melhor é desconfiar sempre". E o poeta comentava sobre a tristeza de desconfiar da moça bonita que deseja experimentar um vestido, experimenta e sai com ele sem pagar, deixando o antigo, ou nem esse. Andar permanentemente alerta para evitar surpresas desagradáveis seria o mesmo que viver "o Natal de pé atrás", do desamor. Melhor então seria suprimir a festa e, com ela, os especialistas em furtos natalinos. Imagine ter que andar com a carteira presa por um alfinete de fralda no bolso mais íntimo da calça. E o cartão de crédito, fixado com durex no bolsinho de peito da camisa... O Papai Noel a que Drummond se referia usava as botas como esconderijo dos objetos surrupiados.

Também acontece o contrário. A Mamãe Noel de Bauru foi assaltada. Da sua residência os ladrões levaram todos os alimentos e brinquedos arrecadados para o almoço que ela prepara para as crianças de bairros pobres da cidade. Dona Pierângela, a Mamãe Noel, espera que a população colabore para repor o estoque levado pelos bandidos. Ela quer cumprir, mais uma vez, o slogan da sua campanha: "Faça uma criança feliz nesse Natal". No meu tempo de plantonista, os jornalistas "Sem-Natal" faziam certas divagações filosóficas para fugir ao tédio. Um deles dizia que o Natal não tem nada de cristão. "Nem Jesus era cristão - sentenciava ? porque não poderia ser discípulo de si mesmo". Acrescia que no Ato dos Apóstolos está escrito que os discípulos aceitaram ser chamados de "cristãos" somente no ano 48, na Antióquia. Esse lixo cultural nada muda. Outro colega achava que certo estava Ebenezer Scrooge, o personagem do conto de Dickens que não dava esmolas no Natal. "O verdadeiro espírito natalino está no pão-durismo" ? alfinetava o colega sem esconder o despeito. Assistentes sociais ao redor do mundo trabalham para tirar as pessoas da indústria da esmola. Ebenezer Scrooge já havia pensado nisso no século 19. Ele também não convidava ninguém à ceia de Natal, para não ter que limpar depois a sujeira alheia. A tese atual é que gastar é bom, move a economia, gera riqueza. Lula e Obama já chegaram a pedir para as pessoas gastarem. Parece que não deu muito certo, tanto aqui como lá. No Brasil o "pibinho" e o preço do peru mostram que não é bem assim. Mas, que o dinheiro move o Natal, ninguém duvida. Drummond imaginava o dia em que todo mundo irá rir do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósitos de doces , para visitas. Nesse dia, vaticina o poeta, "Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, e outro interior, comunicando-se por um atalho invisível". Enquanto esse dia não chega, Feliz Natal a todos.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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