Adolescente na cidade de Piratininga. Tinha um amigo bem mais vivido. Seu Bepe Cocito, alfaiate a quem ouvia como um filósofo. Meu confidente. Sabia mais de mim que meus pais. Assuntos que não tinha coragem de conversar com eles. Namoradas, brigas, sexo, vícios, futebol e outros papos.
Seu Bepe era uma dessas pessoas que entram na vida da gente e moram na lembrança.
Num fim de dia na sua oficina eu lhe perguntei se tinha medo da morte. Olhou-me firme:
A questão, filho, não é morrer, mas saber como viver.
Indaguei-lhe a razão de tal afirmativa.
Viver, respondeu-me, é a difícil arte do ser humano. Porque tropeça num entrave chamado renúncia. Para realizar planos é preciso superar desafios. Abdicar de coisas. A pessoa incapaz de renunciar peca pelo egoísmo. É como se você tivesse dois tostões e precisasse repartir para alcançar o seu objetivo. E recusasse. Destruiria o sonho. Deixaria de somar valores espirituais. Às vezes é preciso dividir para multiplicar as conquistas. A avareza é a parceira da covardia.
Retruquei: quer dizer que pra ter o que quero preciso largar o que tenho?
Não é assim. Não disse largar. Falei partilhar. A renúncia é um gesto altruísta. Desapego. Abnegação. Sair de dentro de você. Olhar pro céu, pra frente, pro chão e pros lados. Deixar de olhar só para o seu interior. Você não é o mundo. Do lado de fora estão os caminhos para aprender a viver. Os vemos na consciência, espelho da nossa conduta. Nas lutas dos próximos que ignoramos. As fronteiras do mundo espiritual e do amor estão sendo violentadas pela ambição e pelo egoísmo a golpear a paz que abriga sonhos e esperanças...
Palavras do Bepe Cocito.
Depois de amanhã começa o ano 2013. Setenta décadas se passaram desde a juventude. Não me esqueci. Ainda olho o mundo do jeitinho que ele me mostrou. Mais em saber viver do que me preocupar com a morte. Por que me inquietar com o que sei que vai acontecer? Conduzir a vida aqui na Terra do jeito que Deus abençoe para merecer descanso numa das suas moradas. Continuar olhando pra fora, pro meio da rua, pra calçada do lado de lá. Ver a vida de verdade. A vida do próximo. Dividir sem desejar tapinhas nas costas.
Confesso-me comovido ao lembrar-me do Bepe na minha Piratininga. Até parece que ele está ao meu lado ajudando a recordar o que me disse, e a escrever...
Ah, não contei! Foi ele quem fez o terno para o meu casamento!
Bonito como a minha saudade...
O autor, Munir Zalaf, é membro Academia Bauruense de Letras