Bairros

Jovem adota marquise como casa

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 4 min

Éder Azevedo

Em meio aos papelões, Roberdan sonha com sua casa

Enquanto muitas pessoas ainda compartilham as lembranças das viagens e encontros familiares realizados durante as festividades do final de ano, alguns moradores de rua têm apenas uma preocupação: garantir a alimentação do dia e sonhar com uma vida melhor em 2013.

É o caso de Roberdan da Silva Lima, 19 anos. Morando há cerca de um mês com seu irmão mais velho debaixo de uma marquise da antiga sede da Associação Luso Brasileira, na zona sul de Bauru, ele e seu fiel companheiro “Doido” - cão que o acompanha há algumas semanas - perambulam o dia todo pela cidade em busca de materiais recicláveis para vender.

Curiosamente, Roberdan conta que, durante esses trajetos, ele também utiliza objetos encontrados em meio ao lixo que possam servir de “artigos de decoração” para o local que ele escolheu como sua “casa”.

“Estava andando por aí um dia à noite e vi papelões jogados aqui na frente. Achei esse lugar seguro, dormimos aqui alguns dias e depois resolvi que montaria minha própria casa”, detalha o rapaz.

Em meio a pedaços de papelão amarrados com barbantes, tablados de madeira e cobertores velhos, colocados próximos aos degraus da antiga sede da associação que por décadas abrigou grandes eventos culturais na cidade, o jovem relata sua história de vida e faz planos para 2013: “Queria muito largar o crack e poder viajar, conhecer o mar”.


Sonho

Detalhes do mar, inclusive, fazem parte da decoração ambiente que Roberdan, junto a seu irmão Ricardo da Silva de Lima, 26 anos, e uma moça - que preferiu não identificar -, escolheu para dar uma ‘ar’ mais alegre à casa improvisada debaixo da marquise, na quadra 5 da Rua Luso Brasileira.

As páginas coloridas grudadas na parede, assim como um vaso de flores brancas colocado nos degraus da pequena escada, saíram do lixo para colorir a moradia improvisada.

“Meu maior sonho é ter uma casa, mas ninguém dá oportunidade para usuário (de crack). É triste morar na rua, mas aqui tenho minha liberdade”, ressalta Roberdan, lembrando que alguns moradores da região e as equipes da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes) também o ajudam, constantemente, levando alimentos.

Sem a preocupação com o passar das horas, dias ou anos, Roberdan, que afirma arrecadar ao menos R$ 5,00 por dia com a venda de recicláveis e fazendo malabares em semáforos, demonstra se preocupar apenas com a alimentação diária dele e de seu cão.

“Sempre saio por aí pedindo comida pra mim e ração para o Doido. A vida na rua é triste assim”, lamenta.

Segundo Roberdan, além dele e do irmão, que não se encontrava no momento em que a reportagem esteve no local, um casal apelidado como “Cavalo” e “Tieli” também utilizaria o local improvisado como casa, mas há alguns dias eles deixaram o ponto.


Tentativas de resgate

Ao ser comunicada, na última semana, sobre o paradeiro do jovem e a possibilidade de aceitação do tratamento, a secretária Municipal do Bem-Estar Social, Darlene Tendolo, enviou uma equipe de busca ativa do Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Creas) ao local apontado pela reportagem.

Entretanto, segundo a própria secretária, o jovem não foi localizado e a equipe seria reenviada em outra tentativa de convencer o jovem a aceitar ajuda. “Nós não iremos desistir dele. Se ele demonstrou interesse, nossa prioridade é o resgate”, salienta Darlene.


Vício e abandono

Viciado em crack há 11 anos, desde que sua mãe, Regina da Silva Lima, 28 anos, faleceu em razão de um enfarte, Roberdan da Silva Lima, 19 anos, conta ter saído da casa onde morava com o padrasto, no Parque das Nações, por não aguentar as brigas diárias.

Por volta dos 10 anos de idade, já perdido no mundo das drogas, Roberdan acabou abandonando a escola onde cursou seu último ano letivo, a 4ª série da Escola Estadual Luiz Braga.

Com o vício, a rua foi consequência e as internações para tratamentos, por mais de cinco vezes, não surtiram efeitos. Atualmente, o rapaz possui um cadastro na Sebes, que aguarda a aceitação do usuário para o início de uma nova tentativa de reinserção.

“Para casa eu não volto. Ajuda eu também não vou procurar, mas se eles (Sebes) vierem me buscar e quiserem me ajudar, talvez eu aceite”, fecha questão Roberdan.

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