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Nossa fantástica realidade

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Em seu discurso na cerimônia de entrega do Prêmio Nobel, o escritor colombiano Gabriel García Márquez contou que não tinha dificuldades para encontrar personagens e enredos para produzir o seu realismo fantástico, justamente porque vivia na América Latina. E ilustrou seu discurso com diversos fatos históricos, ligados a governos de países do Cone Sul, que em nada ficavam a dever em extravagâncias e bizarrices às suas ficções.

Houve um "benefactor del pueblo", como eram chamados os ditadores de plantão, que deixou ordens escritas com exigências a serem rigorosamente cumpridas no seu funeral. Queria ele que vestissem o seu corpo com a farda de gala, com todas as condecorações e fosse velado sentado num trono. Assim se fez. Outro generalíssimo quis erguer uma estátua em praça pública em sua auto-homenagem. Como não havia escultores de talento na sua república bananeira, mandou comprar uma obra em bronze de segunda mão, em Paris. O enviado achou uma pechincha empoeirada num depósito. Era a estátua do marechal Michel Ney, montada num fogoso cavalo. Este cavaleiro havia tomado uma decisão fatal na Batalha de Waterloo, ao comandar um dos exércitos de Napoleão. Em meio à fumaça dos canhões e à confusão das tropas em guerra pensou que os ingleses estavam recuando e ordenou o toque de "avançar" à cavalaria. Morreram 25 mil soldados e Napoleão perdeu a guerra. Ney, o vilão da derrota, deixou de ser herói e teve a estátua retirada do Trocadéro.

Em tempos modernos, novas Macondo continuam surgindo abaixo do Rio Grande, com personagens que parecem inspirados na família Buendía. O povo venezuelano reuniu-se em praça pública para comemorar a "não posse" do comandante Hugo Chávez, agonizante em um hospital de Cuba. A Constituição do país obriga o presidente eleito a estar presente para a posse. Como dizia o caudilho brasileiro Getúlio Vargas, "Lei, ora a lei..." Quando Hugo Chávez, apoiado pela presidente Dilma Rousseff, puder se levantar da cama voltará para administrar. Até lá, o vice-presidente eleito fica guardando o lugar. O povo assim quer, e assim será. O povo é opressor. É a tal tirania da maioria, a qual se referia Tocqueville (A democracia na América), no século 19.

No Brasil também padecemos de "cem anos de solidão". O deputado Genoíno, condenado a seis anos e 11 meses por corrupção ativa e formação de quadrilha, assumiu uma cadeira na Câmara de Deputados, que está em férias. Pior que isso só o vice-prefeito de Nazaré Paulista, preso preventivamente por crimes financeiros. Quer tomar posse no Cadeião de Pinheiros, onde é hóspede do Judiciário. Todos aceitam e o povo aplaude. Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), em " Raízes do Brasil", define o brasileiro como "o homem cordial". Somos regidos pela emoção mais do que a razão. Eventualmente, variamos os parâmetros éticos e evitamos a todo custo o embate das ideias. Todos são inocentes e todos são cúmplices. O sexo inspira decisões de Estado. Postos no alto escalão da República são preenchidos debaixo dos lençóis. A filial manda mais que a matriz. Milhões de homens e mulheres já se imaginaram fazendo sexo numa cabine de avião, a 11 mil metros de altura. Nitroglicerina pura. Principalmente se for com a amante. A corrupção no Brasil, sentenciou uma vez Nelson Rodrigues, "pinga do teto e escorre pelas paredes".

Zeca Pagodinho, num desabafo, disse ter nojo dos políticos, depois de ver a sua aldeia soterrada pelo lixo levado pelas enxurradas. A presidente Dilma Rousseff, que tanto criticou os apagões do tempo de FHC, fez com que grande parte do Brasil vivesse o mesmo drama da escuridão. Os reservatórios das hidrelétricas estão vazios por falta de chuvas. As novas usinas de Jirau e Santo Antonio não podem entrar em operação porque as linhas de transmissão não ficaram prontas. Dilma alega falha humana: "Gargalhem se disserem a vocês que é falha do sistema". Lembra a piada de Grouxo Marx: "A culpa é minha e eu boto a culpa em quem eu quiser". Para fechar as contas de 2012, o governo Dilma criou uma contabilidade paralela, apelidada pelo jornal inglês Financial Times de "superávit elfo", em alusão àquele ser mitológico escandinavo capaz de manobrar a terra, o fogo e o ar. Até em Bauru temos o nosso dia de Macondo. Li no JC que o prefeito vai "comprar" a dívida da Cohab. Já ouvi falar em aquisição de "créditos", mas "dívida", nem de graça. Resvalamos para um realismo fantástico caingangue de dar inveja ao velho Gabo.

O autor Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC

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