Cerca de 200 manifestantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) de Bauru e região realizaram um protesto pacífico na manhã de ontem em frente ao prédio da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), localizado na Vila Industrial.
Munido de cartazes, bandeiras e uniformizado, o grupo repudiou a suspensão das cestas básicas disponibilizadas às famílias acampadas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Segundo um dos líderes do movimento, Luciano de Lima, 34 anos, o corte no fornecimento dos alimentos pelo governo federal acontece há seis meses e tem afetado milhares de famílias no País.
“Estamos saindo às ruas para arrecadar alimentos e doações. Muitas famílias estão passando fome. Não dá para sobreviver apenas com o que se planta. A cesta básica foi uma conquista de mais de 20 anos que, agora, está sendo dilacerada”, aponta Luciano.
Além da liberação dos alimentos, que são fornecidos pelo Incra e armazenados na Conab em Bauru, os manifestantes também reivindicam o recadastramento das famílias, a arrecadação de terras para os acampados embaixo de lonas às margens de rodovias e o fim da venda de lotes em assentamentos.
“Sentimos que falta muita vontade política para as causas sociais. Somos muito mais do que as 7.784 famílias e 170 acampamentos que o governo reconhece”, completa o líder do movimento.
A ocupação da área em frente ao prédio da Conab, na avenida Sorocabana, teve início por volta das 8h e reuniu manifestantes de Assis, Paraguaçu Paulista, Gália, Rancharia, Lucélia, entre outras cidades.
Após duas horas de manifestação, quatro representantes do MST foram chamados para uma negociação dentro da sede. “No final da tarde, a comissão foi informada que amanhã (hoje) sai a documentação para a retirada das cestas, assim como a data da entrega”, disse Luciano.
A Polícia Militar (PM) foi acionada e compareceu ao local por volta das 11h para acompanhar a manifestação até a desocupação dos manifestantes, que ocorreu por volta das 18h, logo após o final das negociações.
De direito
Participante do Movimento Sem-Terra há três anos, Vânia Francisco dos Santos, 29 anos, acampada junto a outras nove famílias no município de Quatá (204 km de Bauru), relata as dificuldades que tem enfrentado após o corte das cestas básicas.
“Além de plantar, eu faço faxinas para complementar a renda, mas mesmo assim não dá. A cesta básica está fazendo muita falta”, conta a manifestante, segurando um dos quatro filhos pequenos no colo. “Estamos desesperados e viemos pedir o que é nosso por direito”, completa.
Mãe de três filhos, a ex-faxineira Naty Rodrigues, 47 anos, conta ter entrado para o Movimento Sem-Terra após não conseguir pagar sozinha o aluguel de R$ 200,00 na pequena casa que morava com os filhos em Assis (184 km de Bauru).
Ela e as crianças ocupam atualmente uma área da divisa de Paraguaçu Paulista (183 km de Bauru) junto a mais 300 famílias.
“Cheguei a tomar água com sal para deixar o que comer para os meus filhos. A chuva estraga nossa produção. Apesar de todos nos ajudarmos, não é o suficiente. Não temos água encanada e nem luz no acampamento, para você ter ideia”, diz a manifestante.
Outro lado
Em nota, a assessoria de imprensa da Conab esclareceu que a situação vivida pelos manifestantes em Bauru é um problema dos acampados com o Incra, e que a companhia apenas armazena os itens.
O Incra disse que iniciou uma série de ajustes com o objetivo de aprimorar o controle da entrega das cestas de alimentos a famílias acampadas e a sua integração a outros programas sociais do governo federal. Segundo a assessoria de imprensa do instituto, foram encontradas algumas inconsistências na lista apresentada pelos representantes dos acampados no Estado de São Paulo, assim como em outros locais do País.
“O programa de distribuição de cestas de alimentos beneficia atualmente cerca de 115 mil famílias acampadas. Especificamente sobre a situação em São Paulo, já foram entregues 1,4 mil cestas a famílias que estavam com o cadastro correto. A autarquia está em diálogo permanente com as entidades para resolver a situação o mais breve possível”, conclui a assessoria.