O princípio econômico da escassez pode ser utilizado em nossa vida como um todo. Na visão econômica, o fato de os recursos serem escassos exige que a sociedade faça suas escolhas, respondendo questões fundamentais, ou seja, o que e quanto produzir, como produzir e para quem produzir. Se analisarmos a vida financeira das famílias e tomarmos o endividamento como exemplo, poderemos traçar uma analogia entre escassez e escolha. A maioria das famílias tem renda escassa. Normalmente possuem uma única fonte de renda e precisa destinar seus recursos de maneira a maximizar sua utilização.
O leque de gastos é enorme. A tentação em consumir, maior ainda. A pressão dos membros da família em adquirir bens e serviços é constante, portanto, quem efetuar boas escolhas conseguirá criar valor. Gastos com alimentação, moradia, locomoção, saúde e educação são inquestionáveis. Fazem parte das prioridades da família e o papel de cada um é conseguir mais com menos. Evidentemente que mesmo em questões essenciais as escolhas devem ser adequadas. Uma casa pequena tem custo de manutenção menor, já uma casa maior, custo mais elevado. Estudar em escola particular pode oferecer melhores condições na educação dos filhos, mas tem um custo que precisa ser considerado. A saúde está primeiro lugar, mas infelizmente para alguns pode ser proibitivo contratar um plano de saúde particular.
No campo das demais despesas da casa fica evidente que o padrão de vida definido pela família deve ser compatível com a renda auferida. Possuir um automóvel ou uma moto, realizar viagens de lazer, possuir eletroeletrônicos, adquirir roupas de grife, freqüentar cabeleireiros, manicure, contratar uma emprega doméstica, enfim, abrir o leque nos gastos, garantindo conforto e comodidade, tem seu preço e é preciso possuir recursos disponíveis para bancá-los. O que se observa na prática é que poucas famílias planejam tudo isso. Entram em uma roda viva, gerando gastos e correndo atrás dos recursos para honrá-los. Se estressam e acabam com a qualidade de vida.
Para fazer boas escolhas e criar valor, é preciso ser criterioso. Analisar as opções disponíveis, reunir a família, estabelecer metas e controlar os gastos. Quem não faz isso, normalmente faz más escolhas e destroem valor. A frase "quem compra o que não precisa, venderá o que precisa" é emblemática. O supérfluo, o adiável, o descartável, poucos querem recomprar, e se a família se endividou porque comprou estes produtos e serviços de maneira exagerada, se quiser não se endividar e diria, se "enrolar" com as finanças da casa, acabará vendendo o que precisa, ou seja, algo valioso como um terreno e um bem que muitos atribuem valor.
Esta adequação do padrão de vida não é tarefa fácil em um mundo que é movido pelo consumo, mas a decisão de manter esta roda vida é de cada pessoa e de cada núcleo familiar. O que não é aceitável é não querer encarar esta realidade e pagar um preço elevado, ou seja, se ver com dívidas, pagando um absurdo em juros, perder patrimônio, ter o nome sujo na praça, entre outros. Como colocado, boas escolhas criam valor. Reflita se está criando ou destruindo valor patrimonial em seu núcleo familiar.
O autor, Reinaldo Cafeo, é economista, presidente da Acib, diretor do Corecon e articulista do JC