Bairros

?Garimpo democrático?

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

Eder Azevedo

Restauração: Ênio Diniz trabalha com restauração de móveis feitos com madeira nobre

Com corredores estreitos ou mais espaçados, em casa ou em um espaço próprio, as lojas de roupas, calçados e acessórios usados e seminovos se espalham pelo Centro e pelos bairros de Bauru.            Os brechós são democráticos à medida que oferecem produtos para todos os gostos e, inclusive, bolsos. É possível encontrar peças de R$ 1,00 a R$ 500,00. Vestidos de noiva e jaquetas em couro estão entre as mais caras. 

No Brasil, a ideia teria surgido no século 19, no Rio de Janeiro, onde um homem chamado Belchior decidiu abrir um comércio especializado em produtos de segunda mão. Por consequência, o nome do comerciante deu origem à palavra “brechó”.

E quem entra em um estabelecimento do tipo pode se surpreender com a quantidade e variedade de produtos à venda. Valdir Gomes Teixeira, por exemplo, disponibiliza de roupas e eletrodomésticos a enfeites, utensílios de cozinha e discos de vinil em sua loja localizada na quadra 1 da rua Monsenhor Claro.

“Há 13 anos, quando comprei a loja, fiquei em dúvida se este seria um negócio lucrativo. Há muito tempo tenho a certeza de que é. Nosso público é o mais variado possível, embora a maior parte dos produtos seja composta por roupas masculinas”, aponta.

 

Herança transformada em blog

A jornalista Naiá Aiello é apaixonada por brechós e se intitula defensora de uma moda mais acessível. Sua história com os artigos de segunda mão surgiu ainda na infância, com os pais em busca de relíquias na Feira do Rolo, da rua Gustavo Maciel. Entretanto, o seu verdadeiro interesse pelo assunto surgiu há três anos, quando ela passou a garimpar sozinha. Desse interesse nasceu, em novembro de 2011, o blog “Moda Possível”, especializado em dicas e achados de brechós.

“A questão é que se vestir é sempre muito caro, principalmente para uma universitária, então, ainda na faculdade, decidi procurar alternativas para reduzir os gastos no shopping. Comecei pelos brechós virtuais e lugares na cidade em que eu morava na época, Londrina”, lembra.

A partir de então, peças de brechó se tornaram comuns no guarda-roupas da jornalista e ela passou a indicar endereços e dar informações sobre como e onde encontrar bons produtos. “Isso fez surgir a ideia de montar um blog falando sobre o mercado que ainda é pouco difundido, mas muito vantajoso para o consumidor”.

Agora, por onde passa, os brechós são pontos de parada obrigatórios para Naiá. Atualmente, a bauruense está passando uma temporada em Londres e garimpando pelos brechós mais recheados da Europa.

 

Negócio sustentável

Mais do que o sustento da família, o trabalho de Valdir lhe rende a satisfação de contribuir com um comércio mais sustentável. Atento ao tema, ele acredita que faz a sua parte ao vender itens que seriam descartados mesmo em excelentes condições de uso. “Aqui também fazemos trocas. O meu trabalho é atual e serve até mesmo para conscientizar as pessoas sobre o consumo consciente”.

Além dos brechós, os sebos, especializados em revistas e livros usados, lojas de antiguidades variadas, loja de móveis restaurados, entre outros estabelecimentos do tipo, movimentam o comércio dos usados

 

Indispensável

Ainda segundo a blogueira, garimpar é uma arte e requer muito tempo e paciência. Se uma peça não serviu, mas você adorou devido ao preço e raridade, a dica é levar e fazer uma visita à costureira.

“Não é uma tarefa das mais fáceis, mas compensa. Eu já achei camisas de seda por R$ 5,00, bolsa e óculos de grife por R$ 2,00 e R$ 3,00... Por isso, vale a pena prestar atenção na etiqueta também”, aconselha.

A blogueira ainda lembra que sempre é bom levar uma quantia em dinheiro. Embora boa parte dos brechós aceite cartão, vale a pena garantir.

 

Para todos os gostos e bolsos

De várias classes sociais e com as mais diversas necessidades e desejos. Assim é o público que frequenta os brechós e, segundo os próprios comerciantes, as pessoas estão se livrando do preconceito de comprar peças que já tiveram outros donos. E nem só do antigo vive os brechós, ao contrário, boa parte das peças encontradas nesses espaços são atuais e modernas.

Outra peculiaridade encontrada em tais lojas da cidade está na procura por modelos que sirvam para festas à fantasia, bailes com traje a rigor, como “Festa Anos 60, 70 e 80”, e até mesmo Festas Juninas. Entretanto, segundo os proprietários, o que a maior parte dos clientes quer mesmo é encontrar peças boas e baratas.

Entre blusas, camisas, saias, calças, shorts, sapatos e uma infinidade de acessórios para o dia a dia, como cintos e bolsas, é possível encontrar até os clássicos vestidos de noiva, e em bom estado, diga-se de passagem. Nos brechós da cidade os preços de tais peças variam entre R$ 50,00 e R$ 300,00 dependendo do modelo e do seu estado de conservação.  

Já o segredo para uma boa compra, de acordo com Fátima Silva, dona de um brechó localizado na quadra 1 da rua Jayme Bichusky, Vila Independência, é ter paciência e tempo para procurar e, é claro, saber garimpar. Dependendo da quantidade de peças pretendidas dá até para conseguir um bom desconto.  Há 10 anos no ramo, Fátima conquistou clientes de várias regiões de Bauru e das cidades vizinhas. É o famoso “de boca em boca” que faz a fama dos brechós e atrai a clientela.

 

Por caridade e qualidade

E por falar em grife, o bazar do Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac) é um dos mais procurados por suas peças de boas marcas. “Quem vem ao nosso bazar, vem sabendo que é possível pagar pouco em roupas de qualidade e peças especiais. Vendemos muitas coisas doadas pelos frequentadores e amigos do Ceac, principalmente peças sociais e roupas de festa”, ressalta Suzete Aparecida Agostinho Talon Pereira, funcionária responsável pelo bazar instalado na quadra 8 da rua Sete de Setembro.

Toda a renda das roupas, sapatos e acessórios comercializados no bazar do Ceac, ativo há 13 anos, é revertida para núcleos assistenciais mantidos nos bairros pela instituição. “Recebemos as doações, separamos uma parte que é doada e vendemos as demais por preços que variam entre R$2,00 e R$300,00”, garante Suzete.

 

‘Venda de garagem’

Na quadra 7 da rua Castro Alves, na Vila Souto, há um ano Ermelinda Aparecida Simões encontrou um jeito lucrativo de ganhar a vida com o conforto de não precisar sair casa para o trabalho: ela transformou a garagem da residência onde vive em brechó. O sucesso foi tanto que ela já conquistou clientela fixa vinda de vários pontos da cidade para garimpar principalmente as roupas e calçados femininos, que formam o maior volume de peças.

“Tenho clientes de várias classes sociais, até médicas gostam de ver as novidades. As mulheres gostam de ver e levar de tudo, já os homens focam na busca por camisas e calças de qualidade. Minhas vizinhas até brincam que o nome do meu brechó deveria ser brechó chique, por causa dos carros caros dos clientes que vêm comprar”, brinca.

 

Variedade

Cerca de 10 mil. Essa é a quantidade de peças que o brechó de Fátima abriga. E paciência é o que não pode faltar, já que as opções de escolha são muitas e o melhor achado pode estar perdido entre milhares de itens.

Mais do que artigos de segunda mão, é fácil encontrar itens ainda com etiquetas nas lojas de produtos seminovos, e o melhor, quase sempre os preços desses achados beiram o valor dos pedidos pelas roupas usadas.

Segundo Fátima, os artigos etiquetados normalmente são peças do vestuário feminino. Vestidos, blusas, saias e até jeans que as “fornecedoras” compraram ou ganharam de presente e acabaram vendendo para o brechó por não terem gostado. “Isso é muito comum inclusive com produtos de grife. Hoje eu conheço as marcas, mas, há alguns anos, eu cheguei a vender uma saia da Daslu por apenas R$ 3,00”, diz com bom humor.

 

Muito além de roupas e acessórios

Nem só do comércio de confecções, calçados e acessórios vive o mercado dos seminovos e usados. Com tempo e vontade de procurar, em Bauru é possível encontrar bons e até exclusivos móveis talhados em madeira nobre, itens de decoração, eletrônicos antigos e muitas outras antiguidades consideradas relíquias por colecionadores.

Entre rádios, televisores, relógios, brinquedos e uma infinidade de antiguidades e até produtos novos, como ferramentas, o comerciante Licius Marcelo Fahal guarda um de seus mais novos achados considerado por ele uma relíquia exclusiva: uma garrafa de uísque 12 anos encontrada no porão de uma casa antiga que traz no rótulo amarelado pelo tempo as datas de 1885 e 1897.

“É algo raro de ser encontrado. Um antigo morador da cidade faleceu e a família me chamou para avaliar algumas coisas que estavam guardadas no porão da residência. E lá estava essa preciosidade. Já recebi algumas ofertas pela garrafa, não aceitei por achar o valor oferecido injusto, mas estou aberto às propostas”, conta Licius.

Apaixonado por antiguidades, Licius acredita que a sua loja, localizada na quadra 1 da rua Júlio Prestes, foi a primeira a vender eletrônicos usados em Bauru. Entre as inúmeras raridades disponíveis aos colecionadores está uma máquina japonesa, provavelmente da década de 1960, usada para passar veneno em formigueiros.

 

Túnel do tempo

Frequentador assíduo de lojas de antiguidades, o prestador de serviços Walter Coimbra Júnior comenta que lembra da infância e dos bons tempos que se foram quando entra nesse tipo de estabelecimento. Para ele, encontrar produtos já não disponíveis no comércio convencional é como encontrar um tesouro perdido.

“Muita gente desconsidera o que é antigo, o que é raro, mas, além de servirem como objetos de decoração, com criatividade, eles podem ser aproveitados no cotidiano”, aponta.

 

Restaurar o que há de bom

Feitos com material de demolição ou restaurados por verdadeiros artistas da madeira, os móveis antigos ganham destaque quando o assunto são as antiguidades. Em Bauru, os estabelecimentos especializados na compra e venda de tais elementos podem ser encontrados em vários pontos da cidade. Já os valores das peças podem ser bastante altos e variam de acordo com a raridade da madeira e a dificuldade da restauração.   

Lixa daqui, conserta ali e restaura acolá. Assim é a rotina do restaurador e vendedor de móveis usados Ênio Marcos Ferreira Diniz. Ao lado da mulher e dos filhos, ele trabalha atualmente com mais de 200 peças de madeira nobre como a imbuia e a peroba-rosa, entre outras, na quadra 1 da rua Campos Salles.  

“É com muito prazer que pego uma peça toda danificada com mais de 100 anos e a deixo bela outra vez. Considero cada móvel destes uma obra de arte, já que você não os encontra em qualquer lugar, principalmente pelo valor das madeiras de qualidade, muitas vezes já extinta”, expõe Edinete Pereira Butra Diniz, esposa de Ênio.  

 

Demanda

O entrevistado lembra que o negócio da família começou há cinco anos com a restauração e a venda de uma cômoda. A procura foi tanta que foi preciso montar uma loja e um depósito para abrigar as peças que não param de chegar e sair.

E o trabalho começado em Bauru em breve será realizado na Paraíba, terra natal da família que pretende voltar para a casa em um futuro próximo. Antes disso, Ênio pretende vender todo o estoque da loja: “Guarda-louças e aparadores são as peças mais procuradas pelos clientes. Mas temos de tudo um pouco, desde pequenas peças como banquetas, até guarda-roupas”, frisa.

 

 

 

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