De uma amiga para a outra no metrô, em São Paulo: "Estou preocupada, pois estou chegando à menopausa". Ao que disse um senhor de muita idade ao meu lado, no banco detrás: "Ah, isso não é nada... e eu que estou diante da grande pausa!" A grande pausa é uma situação existencial na qual hibernam nossas expectativas e ansiedades; nela não há o livre-arbítrio, nela perdemos o controle. Entregar-se, deixar que a alma nos conduza, é a única forma de navegar por ela e quando não compreendemos a lei de seu fluxo ficamos angustiados. Reagir é remar contra a maré, é nadar contra a corrente de nossa própria vida. Na grande pausa cessam todas as conquistas transitórias, nos desvencilhamos de um recipiente por isso, diante dela, sentimos medo e isso me lembra o relato de um grande mestre.
Uma criança tropeçou e caiu. Seu pai ao levantá-lo percebeu que havia um espinho em seu pé. Rapidamente procurou extrair o espinho, sem dar atenção ao choro da criança. Logo após ambos, pai e filho, ficaram temerosos: o pai, pela possibilidade de uma infecção e o menino, por ter que, em algum momento futuro, sentir a mesma dor. O pai temia a ferida, o menino temia a cura. Há na grande pausa um elemento de cura que a criança existencial em nós teme. Entretanto, deveríamos nos comportar como o pai, temer que algo infeccioso se alastre e macule nossa vida. A infecção impediria a alma de se alimentar da energia das boas ações que a pessoa poderia realizar em vida.
Devemos, também, com grande sensibilidade, perceber que a vida está imersa e embebida no oceano da morte; perceber que não há descontinuidade na morte, que há, sim, um ruidoso e ofuscante revigoramento de algo que a vida, em sua também ruidosa e ofuscante dimensão, não nos permite perceber. Para que vivamos, é necessário que a própria estrutura de nossas células saiba morrer e se reciclar. Enquanto vivemos, milhões de mínimas partículas de nós mesmos estão constantemente morrendo. A morte e a vida são parceiras... ora para preservar a vida, ora para preservar a morte. Quando a grande pausa chegar, o indivíduo precisa ter a experiência necessária para saber que ela é parte integrante e não intrusa da vida. Como aquela criança, a maioria das pessoas está despreparada para lidar com a vida. Essas pessoas desejam esculpir a si próprias; estão viciadas na expectativa da ordem. Por ordem aqui entende-se o desejo constante de que as coisas sejam do jeito que gostaríamos que fossem e não do jeito que deveriam ser.
Na época em que lecionava na Pós-Graduação, era comum ouvir dos alunos manifestações de ansiedade e o desejo em se qualificar cada vez mais; de fazer mais este ou aquele curso de especialização ou de pós doutorado no exterior. Eles se portavam como se estivessem esculpindo ou construindo a si próprios. Nenhum mal nisso, mas fazia questão de contar a esses alunos a vida do boi. O boi todo o dia pela manhã sai de seu estábulo, vai para o campo, ara a terra e é levado de volta a seu estábulo. Isso é feito dia após dia e nada muda em relação ao boi - porém, a cada ano a terra arada dá a sua colheita. Nossa vida não é só celebrada quando nos diplomamos ou quando concluímos os currículos que imaginamos para nossas vidas.
O que vale na história de vida desse boi são os campos arados, semeados e colhidos. São os campos arados, ou seja, nossos feitos, que terão impacto sobre nós mesmos e sobre o mundo. São eles a nossa contribuição e a construção que realmente importa. São eles que dignificam e justificam a grande pausa.
O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru