João Rosan |
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Renúncia de Bento XVI é profética, diz Dom Caetano Ferrari |
Corajosa, humilde e profética. Assim foi classificada em Bauru a renúncia do Papa Bento XVI, que aos 85 anos surpreendeu não só fiéis e o próprio clero como também o mundo, nesta segunda-feira (11). Conforme anunciou durante o consistório para a canonização dos mártires de Otranto, ele deixará seu pontificado no próximo dia 28 de fevereiro sob a justificativa da idade avançada. O Vaticano afirmou que o papado ficará vago até que o sucessor seja escolhido (o que deve acontecer antes da Páscoa) depois da convocação de um conclave.
No entanto, a partir dessa decisão, pode haver mudança de perspectiva em relação ao líder da Igreja Católica. De acordo com o bispo de Bauru, Dom Caetano Ferrari, diante do mundo atual, foi necessária humildade, coragem e visão profética para compreender que, frente às grandes decisões e desafios que se apresentam ao Papa, ele exerça a função enquanto tiver condições físicas, psíquicas e espirituais. “Não basta cumprir o tempo numa perspectiva de sacrifício, fé e oração”, diz.
Na opinião dele, as questões modernas também exigem as perspectivas humana e realista. Para Dom Caetano, Joseph Ratzinger abre uma nova expectativa para o futuro. Talvez, eventuais renúncias deixem de ser tão raras futuramente. A anterior a dele data de 1415.
Com relação aos bispos, que também já foram cargos vitalícios, estabeleceu-se 75 anos como idade limite. A partir do 75º aniversário, renunciam. Já Bento XVI assumiu o papado com 77 anos.
Abençoado
“A renúncia foi uma surpresa. Ele estava sendo um Papa excelente. Foi uma grande bênção tê-lo como Papa. Antes tivemos receio, mas ele estava fazendo um trabalho tão bom, que ainda contávamos com ele”, comenta Dom Caetano Ferrari, que esteve com Ratzinger pela última vez em 2010.
Já o vigário geral da Diocese de Bauru, Luiz Eduardo Fontana, não teve a mesma oportunidade de encontra-lo em Roma, por exemplo. Mas daqui, no entanto, exalta a humildade do Papa com o anúncio feito ontem. “É um cargo único no mundo que, independentemente dos credos, as pessoas respeitam. Apago para mim os holofotes que estão acesos”, comenta.
Padre Fontana ressalta também a coragem de tomar uma iniciativa tão rara, mas que consta no Código de Direito Canônico. “É o cânone 332,2. Se um romano pontífice, que é o Papa, renunciar a seu ofício, requer-se para a validade que a renúncia seja livre e se manifeste formalmente, mas que não seja feita por ninguém”, explica.
Como o papa é um título concedido ao bispo de Roma, padre Fontana acredita que, a partir do dia 28, Bento XVI torne-se um Papa Emérito. “É algo tão raro e que tomou todo mundo de surpresa que só alguém muito especialista, o que eu não sou, para dizer o termo específico”, acrescenta.
Rara, decisão de Ratzinger assusta religiosos e fieis
O padre Enedir Gonçalves Moreira, assessor da Pastoral da Comunicação da Diocese de Bauru, disse ter levado um susto ao ouvir o pronunciamento do Papa. Entretanto, para ele, esta foi uma atitude corajosa do pontífice que teve um gesto de humildade por amor à Igreja ao renunciar por se julgar incapaz de continuar o trabalho por falta de forças. “Quanto ao sucessor, acredito ainda ser cedo para citar qualquer nome”.
Morador de Bauru, Marcello Zanluchi Surano Simon é jornalista e assessor de comunicação da Jornada Mundial da Juventude (JMJ). Além do seu trabalho de pesquisa como mestrando da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru ser sobre a imagem do papa na imprensa brasileira, quando fez um estágio na Rádio Vaticano, em 2004, ele conheceu Bento XVI quando este ainda era cardeal e gostava de alimentar pombos e gatos da Praça de São Pedro.
Para o pesquisador, a renúncia também foi uma surpresa. Contudo, ele lembra que, em entrevista a um jornalista alemão no ano de 2010, Joseph Ratzinger deu indícios de que renunciaria ao cargo se fosse preciso. “Ele assumiu o papado como um colaborador da verdade, está cansado e é um homem coerente”.
Zanluchi ressalta que muito se fala sobre o novo papa ser asiático ou africano. Mas não descarta, também, que o novo pontífice seja um americano, como o cardeal Odilo Pedro Scherer, arcebispo de São Paulo. “Acho que agora a Igreja olhará para outras regiões do mundo”. (Ana Paula Pessoto)
No Brasil
O pesquisador lembra, ainda, que a primeira viagem internacional do novo papa provavelmente será para o Brasil, por causa da 28.ª Jornada Mundial da Juventude (JMJ), que deverá reunir cerca de 2,5 milhões de participantes no Rio de Janeiro entre os dias 23 e 28 de julho e contava com a presença de Bento XVI.
De pessoa amável à identidade negativa
Zanluchi disse ao JC que, ainda cardeal, Joseph Ratzinger se mostrava uma pessoa amável. “Ele me cumprimentava, perguntava coisas sobre o Brasil... Enfim, mostrava amabilidade. E, quando assumiu como papa, eu vi que houve uma mudança de posicionamento”, comenta.
Na visão do pesquisador, o pontificado de Bento XVI começou com uma identidade negativa construída, principalmente, por ele ser alemão e ser prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, ele era o guardião da fé católica.
“Eu vi isso tudo como um sinal de que eu poderia estudar a imagem de Bento XVI na imprensa brasileira”, diz Zanluchi, que também é tenor e cantou para o Papa quando este comemorou 85 anos de idade e sete de papado.
Vida reclusa
Antes de ser eleito papa, recorda Zanluchi, Joseph Ratzinger desejava ter uma vida reclusa e voltada para a oração. “Acredito que isso será feito agora. Este será o seu momento de descanso”.
Reuters |
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Bento XVI anunciará sua renúnica ao pontificado no dia 28 de fevereiro |
Números
- Bento XVI, de 85 anos, foi o Papa de número 265 da história da Igreja Católica.
- Ele foi o mais velho papa eleito nos últimos 300 anos.
- O pontificado de Bento XVI começou em abril de 2005, após a morte do Papa João Paulo II.
- O último Papa a renunciar foi Gregório XII, em 1415.
