Bauru registrou temperatura negativa na madrugada. Em 5 de julho de 1953, os termômetros registraram -2ºC na zona rural do município. Bem diferente dos 40ºC notados em setembro de 2006.
Os índices não são divulgados através de fonte meteorológica oficial. Quem atesta as oscilações climáticas, desde períodos de chuvas intensas até longas estiagens, é o agricultor Shozo Sakai, 85 anos.
Imigrante japonês, o “meteorologista amador” é um abnegado registrador do clima em Bauru. Desde 1949, religiosamente em três períodos diários, ele anota a temperatura, checada em três termômetros espalhados pela casa onde mora com a família e, em caso de chuva, registra os índices de precipitações apontados no pluviômetro fixado no quintal.
Toda manhã, antes de ir para a roça, ‘seo’ Shozo verifica a temperatura, anota no caderninho e sai para a labuta. Faça chuva ou faça sol, o clima deve ser registrado. “Quando ele viaja, deixa a tarefa a cargo de alguém aqui em casa”, testemunha a nora e “auxiliar meteorológica” Regina Sakai.
Enquanto o galo canta, Shozo anota, detalhadamente, a temperatura apontada nos três termômetros espalhados pela casa. A agricultura, atividade que motivou a vinda do imigrante ao Brasil, onde aportou ainda criança, é o que incentivou o japonês a medir e registrar, diariamente, a temperatura no sítio. “É importante para o plantio”, justifica.
Shozo também cultiva o hábito de falar, diária e fluentemente, a língua materna. Tanto é que é no Português que o imigrante ainda se enrosca um pouco com as palavras. A disciplina é outra herança da Terra do Sol Nascente.
Em diversos cadernos, é possível observar a temperatura, em três períodos distintos, de todos os dias, desde quando ele começou a “medir” o clima. Índices pluviométricos também estão marcados, sem faltar uma data sequer.
Contudo, além das estações do ano, o clima muda de uma maneira nada animadora, acredita o experiente agricultor, que já plantou algodão, arroz, cana-de-açúcar e café.
Segundo as aferições da caneta de Shozo, estaríamos com um grau, em média, a mais do que quando ele começou a registrar a temperatura nos seus cadernos já amarelados, também por força do tempo.
Além da temperatura medida criteriosamente todos os dias e atividade na lavoura (hoje dedicada apenas à plantação de eucalipto), Shozo também é um aficionado pela literatura, claro, toda em Japonês. Autor de quatro livros no idioma nativo, registra em obras impressas as viagens que fez.
Poeta, coleciona obras publicadas em veículos nipônicos, para os quais envia trabalhos – “aqui, o meu nome”, orgulha-se apontando o crédito em revista oriental.
Muitos destes poemas, atribui o autor/meteorologista amador/agricultor, são fruto da inspiração em observar o tempo na zona rural de Bauru, onde o relógio ainda teima em correr mais devagar, ou para o céu, seja daqui ou de áreas onde as estrelas dão as caras de forma mais cintilante. “No Pantanal é melhor para enxergar o céu, sem poluição”, diferencia.
Afastado da astronomia amadora, chegou a ser um contumaz espectador celeste, com direito a telescópio a postos em casa, Shozo também já enxergou muito a frente de seu tempo. Numa época em que o termo sustentabilidade estava longe de ser a moda que é hoje, com muita gente empregando o conceito sem conhecer a essência, Sakai dava exemplo.
Trinta anos atrás, foi um dos primeiros moradores a adquirir aquecedor solar. “Ele dizia que um dia faltaria água e que haveria escassez de energia. Isso há mais de três décadas”, orgulha-se a nora, ao comentar que o aquecedor adquirido pelo sogro segue instalado no sítio com a mesma eficiência de quando era artigo raro e “de luxo”.
Pai de oito filhos, avô de 16 netos e bisavô de 11, Shozo diz que não para de “medir” o tempo tão cedo. “Quero anotar por mais 20 anos”, vislumbra ele, que pretende ainda, um dia, ter a oportunidade de conhecer de perto o trabalho dos meteorologistas profissionais e respectivos equipamentos do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Unesp, em Bauru.