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Upgrade cultural

Luís Victorelli
| Tempo de leitura: 3 min

"Um país não muda pela sua economia, sua política e nem mesmo sua ciência; muda sim pela sua cultura". A frase é do sociólogo Betinho e a reproduzo para falar de uma riqueza nem sempre percebida ou devidamente valorizada. E a riqueza aqui, a cultural, não reside necessariamente na reprodução de hábitos de nossos antepassados ou na imitação viral dos ídolos midiáticos de hoje. Falo da nossa capacidade de somar mundos, estes e tantos outros que nos rodeiam, e inserir o que existe de nós mesmos dentro deles. Uma tarefa mais difícil do que talvez possa parecer. Injetar em nossas veias e almas, sulcadas desde o primeiro sopro ancestral, novos saberes, experimentações e sensações não é algo tão simples. Quase sempre erramos o ponto, mas quando dá certo, ganhamos prêmios raros: originalidade, grandeza, sabedoria.

E não caia na armadilha de achar que há cultura melhor ou pior; tudo é muito subjetivo, relativo, tênue. Vamos imaginar que são diferentes. Há muitas formas de expressá-la, um canto, um rango, um sotaque. Eu tendenciosamente vou destacar uma forma tradicional de expressão cultural, porque particularmente gosto: O Cinema. A chamada 7ª Arte sempre me fascinou, por me contar histórias de encher os olhos, literalmente. Mas não é sobre o modo de fazer cinema que vou falar, mas no de assistir. Nesta safra atual de filmes, de bom nível, tive a grata satisfação de apreciar mais uma versão cinematográfica da magistral obra de Victor Hugo, "Les Misérables", desta vez dirigida por Tom Hooper. Um musical levado à película com uma perfeição incomum. Mas para a minha surpresa, logo nas primeiras cenas percebi o incomodo de várias pessoas, jovens e outras nem tanto, com o formato.

As personagens cantavam, em vez de falar. Diante do estranho, parte do público, uma minoria a de se registrar, levantou-se e saiu da sala. Nada contra o exercício do direito de gostar ou não, mas o que me apreende é a pouca chance que nos damos em permitir experimentar algo que vá além de "Hasta la vista, baby". É verdade que os musicais, no cinema, não são lá tão compreendidos, e eu particularmente engrosso esse estereótipo, mas este se diferenciou. Se tivessem ficado mais um pouquinho, como muitos se permitiram, acompanhariam uma boa, bela e bem contada história humana que valeu cada centavo pago pelas 2 horas e 40 de projeção. Mas não estamos acostumados, ou melhor, essa mesma indústria de "junk food" cultural que adestra nosso paladar intelectual não nos ensinou a consumir as raras iguarias que ela mesma produz, de vez em quando.

E a sina de Jean Valjean é uma dessas iguarias; uma obra prima que, confesso, sou admirador. Tudo em "Os Miseráveis" é majestoso. Consumi alguns filmes, há mais de 50 versões para as telas (a do Lino Ventura no papel central foi a que me cativou), assisti ao musical, já encenado em mais 18 idiomas, e li o livro, na edição original beira a 2 mil páginas, mas há versões como a do Walcyr Carrasco, sintética, mas não menos emocionante.

Com tanto exagero, o seu conteúdo não poderia ser diferente. A acentuada carga de sentimentalismo e prece não tira o brilho desta narrativa grandiosa que trata de injustiças, trapaças e dor, mas também de coragem, liberdade e bondade. Ah, a condição humana. É preciso uma velha história, escrita em meados do século retrasado para nos lembrar que a generosidade pode e deve ser exercida, não importa o quanto injustas ou ricas sejam as nossas vidas. Basta nos permitirmos.

O autor, Luís Victorelli, é jornalista. lvbauru@gmail.com

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