A medida que as estradas de ferro vão substituindo as antigas locomotivas a vapor pelas diesel, o apito dos trens vai-se recuando para o passado. As locomotivas diesel podem ser mais velozes e econômicas, mas não produzem vapor. Em vez do apito, a buzina pneumática.
É difícil descrever exatamente o som desse instrumento. Não é assobio, balido, ganido, zurro, vivo nem guincho, mas uma combinação de todos esses sons. Há quem o compare ao grito de uma coruja triste traída e abandonada, chorando suas mágoas num galho, para outros parece o pio de um caburé desafinado. Seu inventar deve ter sido algum gênio surdo que não sabia o que estava fazendo. O apito a vapor era grato aos ouvidos, especialmente a noite e a distância. Era um som cheio, e quando vinha de longe, pela noite afora emprestava asas a imaginação e proporcionava viagens de sonho a cidades e terras desconhecidas.
Com ele vinha uma sensação de segurança e de justeza das coisas. Por pequena e isolada que fosse uma aldeia um pouquinho do mundo passava por ela, as fitas de aço que costuram a unidade do país ganhavam vida e vibração no silêncio da noite, o apito do trem marcava as horas e às vezes servia para encerrar o dia, muitas famílias esperavam que a máquina 710 e 715 apitasse na encruzilhada e a última vibração dissolvia-se em silêncio, alguém apagava as luzes e todos iam dormir. O antigo apito talvez avivasse a inquietação daqueles que sem cansam de viver, sempre as mesmas quatro paredes, mas trazia também a impressão mais profunda de que tudo ia bem no fundo.
Joaquim C. Vieira