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Bento XVI tem despedida emotiva

Folhapress
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Stefano Rellandini/Reuters

Cerca de 150 mil pessoas se despediram do papa Bento XVI ontem, na Praça São Pedro, na Cidade do Vaticano

O Papa Bento XVI despediu-se emotivamente dos seus fiéis na última audiência geral do seu pontificado, ontem, quando disse que  está “consciente da gravidade e novidade” da sua renúncia, porém que tomou a decisão com “profunda serenidade de espírito”. “Nesses últimos meses senti que minhas forças tinham diminuído. E pedi que Deus me iluminasse para me ajudar a tomar a decisão mais correta, para o bem da igreja.”

Bento XVI reconheceu que, em seus quase oito anos de pontificado, teve momentos de alegria e luzes, mas também “momentos difíceis”. “O Senhor nos deu muitos dias de sol e ligeira brisa, dias nos quais a pesca foi abundante, mas também momentos nos quais as águas estiveram muito agitadas e o vento contrário, como em toda a história da Igreja, e o Senhor parecia dormir.”

Max Rossi/Reuters

Bento XVI abençoa uma criança no papamóvel

O Papa disse que se sentiu como são Pedro com os apóstolos na barca, no lago da Galileia, e que sempre soube que o Senhor estava na barca. “E sempre soube que a barca da Igreja não é minha, não é nossa, mas Sua, e não a deixa se afundar. É Ele quem a conduz, certamente, através dos homens que elegeu. Esta é uma certeza que nada pode ofuscar e é por isso que meu coração está cheio de agradecimento a Deus, porque não me fez faltar a toda a Igreja e também seu consolo, sua luz e seu amor”, acrescentou.

Bento XVI deixou claro que não irá “retornar à vida privada”. “Não abandono a cruz, mas permaneço, de maneira nova, perto do senhor crucificado”, disse. No discurso, o Papa disse também que “amar a igreja significa ter a coragem de tomar decisões difíceis, tendo sempre em mente o bem da igreja, e não o próprio”.

Bento XVI anunciou a renúncia no último dia 11. A decisão será oficializada hoje, com a quebra do anel que marca o seu pontificado e sua retirada, de helicóptero, rumo a Castel Gandolfo, a residência de verão dos líderes da Igreja Católica. Essa é a primeira vez em 598 anos que um Papa renuncia ao cargo. O último a fazê-lo foi Gregório 12, em 1.415.

“Hoje é um dia de agradecimento”, diz Bento XVI. “Gostaria de que cada um sentisse a alegria de ser cristão.” “Estou comovido, vejo a Igreja que está viva”, disse, em meio aos aplausos de milhares de fiéis presentes.


Renúncia 

O Papa disse também que, a despeito da renúncia - que só encontra paralelo quase 600 anos atrás - não vai voltar à sua vida privada.

“Quem assume o ministério de São Pedro não tem mais qualquer privacidade. Ele sempre pertence totalmente a todos e a toda a igreja. Não retorno à vida privada, a uma vida de viagens, encontros, conferências. Não abandono a cruz, sigo de uma nova maneira com o Senhor crucificado”, disse Bento XVI na praça de São Pedro, no Vaticano.

“Sua vida é, por assim dizer, totalmente excluída da esfera privada. Eu pude experimentar isso e experimento agora.”

Bento XVI disse ainda que não vai se afastar da igreja, pois continuará a fazer parte de encontros religiosos. “O Papa pertence a todos, e todos pertencem a ele. Minha decisão de renunciar ao exercício ativo do ministério não revoga a este cargo. Continuarei tendo encontros e participando. Em orações, continuo, por assim dizer, no recinto de São Pedro”, afirmou.

Bento XVI disse também agradeceu aos fiéis pela “compreensão com qual receberam uma notícia assim tão importante”. Disse que está “consciente da gravidade e novidade” da renúncia, porém que tomou a decisão com “profunda serenidade de espírito”. “Nesses últimos meses senti que minhas forças tinham diminuído. E pedi que Deus me iluminasse para me ajudar a tomar a decisão mais correta, para o bem da igreja.”


Multidão lotou a Praça São Pedro

Uma multidão estimada em 150 mil vinda de toda a Itália e do Exterior começou a lotar a ampla Praça São Pedro no começo da ensolarada manhã de ontem. As audiências gerais do meio da semana geralmente são realizadas em local fechado, mas desta vez ela foi transferida para a praça a fim de acomodar todos os que queriam ver pela última vez o alemão Joseph Ratzinger investido no cargo de Papa.

Com a cerimônia já iniciada, a reportagem flagrou organizadores pedindo a fiéis que se aproximassem para preencher espaços vazios visíveis às câmeras de televisão. O quorum de cardeais à beira do altar também foi reduzido. A reportagem contou 65, pouco mais da metade do número de participantes do conclave que escolherá o novo Papa. Isso significa que muitos abriram mão de antecipar a viagem a Roma para se despedir pessoalmente do pontífice.


Pouca emoção

A despedida pública do Papa Bento XVI dos fiéis foi fria, ao estilo que marcou os oito anos de seu pontificado.

As cenas de emoção de 2005, quando os católicos choravam a morte do carismático João Paulo II, deram lugar a reações contidas, assim como a personalidade do teólogo alemão que deixa hoje a liderança da igreja. Na praça, fiéis elogiavam a renúncia de Bento XVI como um ato de “humildade” e “coragem”, mas se esquivavam de compará-lo com o antecessor mais popular. “Foi um grande Papa, mas é claro que não podemos compará-lo com João Paulo II. A igreja é como uma grande família, uns irmãos são mais calmos, outros mais elétricos”, ponderou o aposentado Giuseppe Antonio.

Bandeiras de diversos países, sendo dezenas do Brasil, tremulavam a cada pausa na fala do Papa.


Brasileiros fazem críticas

Visível em quase toda a praça São Pedro, a bandeira do Brasil presa a um mastro de cerca de 1 metro transformou a sorridente irmã gaúcha Cecilia Berno numa pequena celebridade - foram dez entrevistas em pouco mais de uma hora.

Mas a demonstração de apoio ao Papa Bento XVI escondia uma avaliação bastante crítica do pontificado.

“O papa tem sido muito duro com o Brasil, silenciou muitos teólogos brasileiros da Teologia da Libertação (movimento que prega aproximação com os movimentos sociais e o marxismo) “, disse Berno, que, contrariando orientação de Bento XVI, defende a flexibilização do celibato e a ordenação de mulheres.

Segundo a religiosa, que vive em Roma, o papa não levou adiante as conclusões do Concílio Vaticano II (1962-5), que preconizava uma abertura maior da Igreja Católica. “A sociedade cobra desse Papa e da igreja essa posição. Jesus foi revolucionário, e a igreja não pode deixar de ser revolucionária, tem de responder aos anseios mais profundos do ser humano.”

O tom crítico de Berno em relação a Bento XVI estava longe de ser uma exceção entre os religiosos brasileiros - embora todos considerem a renúncia um ato de humildade.

Mestrando em história em Roma, o padre paranaense Marcos Roberto dos Santos, 35 anos, afirma que ele foi excessivamente eurocêntrico. “Embora muito querido, ele entendeu que era hora de dar mais atenção à Europa. Mas priorizar uns é se esquecer de outros.”

Já dom Geraldo Majella Agnelo disse que o papa não aparentava um “estado de alma intranquilo”. “Ele tinha de tocar na sua renúncia, mas deu uma visão de futuro, que há de ser bom para a igreja”, afirmou.

 

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