Há um ditado muito citado no mundo dos negócios, especialmente entre texanos que não escondem o velho vício, que diz que "o melhor negócio do mundo é uma empresa de petróleo e o segundo melhor negócio do mundo é uma empresa de petróleo mal administrada"... Ele tem sido lembrado entre nós por muitas pessoas que trocaram suas economias ou aplicações para investir em ações da Petrobrás e não conseguem entender por que seus recursos têm sido reduzidos de forma dramática na Bolsa.
A Petrobrás é uma das maiores empresas do mundo, desenvolveu mecanismos de pesquisa ultra-sofisticados, gerou lucros extraordinários, mas reduziu a velocidade de exploração e passou a ser olhada hoje como uma empresa menor no continente americano. Uma explicação é que talvez os governos tenham dado à Petrobrás mais tarefas do que ela pode desempenhar. Ela foi usada, por exemplo, nessa questão da correção dos preços de combustíveis, para retardar os aumentos e nós sabemos que toda a vez que se recorre a uma empresa estatal para ajudar a controlar os preços, duas coisas acontecem, seguramente: piora a qualidade do combate à inflação e compromete a saúde financeira da própria estatal.
Em outro campo de atividade, a Petrobrás precisaria participar com 30% de qualquer furo que seja feito no Brasil? Poderíamos ter utilizado a lei anterior, com participação simplesmente mudando a tarifa e não fazer esta mudança que foi feita, alterando a forma de apropriação do excedente. Porque a descoberta do Pre-Sal mudou a forma de tratar as questões do petróleo e estamos pagando um preço muito caro pelo fato de termos dado à Petrobrás mais tarefas do que ela podia aceitar.
Creio, porém, que já existe a percepção de que é preciso mudar, como ficou evidente na última apresentação da presidente Graça Foster, há duas semanas, mostrando que o governo entendeu que deve dar mais satisfação aos que acreditaram nele. Vemos que ela tem uma clara consciência que não se pode deixar sem resposta essas pessoas que trocaram suas economias ou aplicações para acompanhar a Petrobrás na Bolsa e agora veem esses recursos serem reduzidos de forma dramática.
Sua posição é muito firme, mas é preciso compreender que ela é parte do governo. Mas houve uma mudança muito sutil e importante na orientação oficial: não se está defendendo privatizar a Petrobrás, mas dar a ela uma direção técnica como se está tentando agora. É preciso voltar às origens, aumentar o esforço de exploração, entendendo que pelo simples fato de que ela tem um vento de cauda muito forte, não precisava fazer muita força para atingir seus objetivos. Porque se ela pode continuar dando lucros, mesmo quando mal administrada, não quer dizer que não venha a dar prejuízo se começar a tropeçar nas próprias pernas...
O autor, Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC