A partir de 1958, o trono de São Pedro foi ocupado por dois papas que buscaram dialogar com um mundo em forte transformação social, comportamental e tecnológica. Ao permitir o uso de linguagens vernáculas no lugar do latim, nas missas, o Papa João XXIII reduz a dimensão do mistério e amplia as dimensões da comunicação e do amparo espiritual nas cerimônias religiosas. Paulo VI, o papa que vem a seguir, aceita e incentiva a ação social do clero, sobretudo na América Latina, fato determinante para o fortalecimento da chamada Teologia da Libertação. Resulta, da ação desses dois papas, uma situação paradoxal: ao mesmo tempo em que a Igreja torna-se mais presente no dia a dia dos fiéis (conferindo-lhe mais respeito reverencial), aumentam as pressões para que as demandas comportamentais advindas da liberação feminina e da legitimação social para o homossexualismo fossem aceitas pela hierarquia religiosa.
E, no terreno da política e da economia, a Teologia da Libertação acaba por abrir uma brecha para uma surpreendente aproximação de padres (e até bispos!) com a ideologia marxista. Em 1978 inicia-se o papado de João Paulo II. Robustecido por décadas de militância anticomunista em sua terra natal, o papa que conduzirá a Igreja por 27 anos é uma peça importantíssima para o colapso do chamado comunismo real no Oeste Europeu e na própria União Soviética. Independentemente de sua inegável vocação midiática e de sua simpatia pessoal, João Paulo II é um conservador convicto que ? dedicando-se à evangelização ? bloqueia as ações da Teologia da Libertação e nega qualquer possibilidade de modernização estrutural da Igreja em relação a mulheres, celibato, anticoncepcionais ou minorias sexuais. De novo, temos um resultado paradoxal: ao mesmo tempo em que os fiéis amam João Paulo II, ocorre uma drástica diminuição do número de seminaristas. Enquanto o Papa leva multidões de fiéis às ruas e praças, o número de fiéis, nas missas, definha. Bento XVI, o papa que agora renuncia, sentou-se no trono de São Pedro para liderar a Igreja em um momento particularmente difícil. Como, ao mesmo tempo, modernizar a Igreja e evangelizar o rebanho de acordo com as tradições? Como manter o celibato em tempos de erotização desvairada? Como conciliar os ensinamentos da Bíblia e as informações do Google?
Mesmo sendo um intelectual refinado (talvez o mais original e capacitado em toda a longa história da Igreja!), Bento XVI não conseguiu vencer o desafio: alguns padres, derrotados pelos apelos eróticos e impossibilitados de se aliviarem obtendo os favores de moças dóceis (a liberação feminina destruiu essa possibilidade), acabaram por construir constrangedores escândalos vinculados à pedofilia. O número de seminaristas diminuiu ainda mais; os ateus se multiplicam na Europa; os evangélicos tornam-se legião, na América Latina. Os católicos tornam-se menos numerosos que os muçulmanos. No ambiente de crise, muitos bispos e cardeais rompem os laços hierárquicos para tentar resolver problemas regionais sem ouvir a voz do papado. Bento XVI, derrotado, renuncia. E entrega para o seu sucessor uma Igreja menos forte do que era na época em que chegou ao cargo. Assim, o herdeiro do Trono de São Pedro precisará de muita força, precisará de iluminação, para enfrentar os grandes desafios que terá diante de si.
O autor, Ney Vilela, é historiador, colaborador de Opinião