Tribuna do Leitor

O removedor de montanha


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Ainda na década de 60, lá pelos lados da Bela Vista, onde hoje existe o cemitério Cristo Rei, era um lugar feio, quase deserto, e em meio ao mato ralo do cerrado havia uns pés de frutas, algumas moitas de bananeiras e até umas flores e árvores ornamentais entrelaçadas de cipós e ervas que serviam para esconder a pobreza de um barraco com paredes de madeira e outras de taipas com pisos de chão batido, onde um ermitão com fama de benzedor e curandeiro interagia com o mundo e a natureza. Tudo isso me fascinava, me atraia e me levava a visitá-lo uma vez ou outra, sempre ao cair da tarde, já quase noite, quando o cansaço do dia exigia de mim uma pausa física e mental.

Aquele ritmo de vida modorrento e o desapego ao mundo materialista me contagiava, e por algumas horas eu tinha a sensação de estar lendo algumas páginas de antigos clássico da literatura brasileira, seus causos eram documentos vivo da sua rica estória de vida entre índios, boiadas, grandes fazendas de café e até resquícios de escravidão.

Na sombra da rústica morada, um tronco de madeira servia de banco onde sentávamos e seu primeiro gesto era preparar um cigarro de palha, ficava um tempão picando o fumo e preparando uma palha de milho e após enrolar seu cigarro, já com a faca espetada na madeira a seu lado, batia na binga de pedra onde as faíscas serviam para dar início ao fogo com o qual acendia seu cigarro e no rítmo da fumaça eram desenroladas as mais belas e curiosas estórias, quase sempre recheadas de muita fé e misticismo, que entre expressão de medo e de alegria eu esquecia da vida, das preocupações, eram momentos de terapia e repouso absoluto, que só eram interrompidom com o chamado de alguém lá fora.

Nesse instante ele muda a fala e de forma séria e semblante compenetrado responde autorizando a entrada do visitante, uma mãe de face surrada pela pobreza, trazendo nos braços sua única riqueza, uma criancinha entrouxada em trapos que lhe servia de cueiro. Com ares tímido e voz contida, nos cumprimenta e pede a seu Benedito para benzer a menina, no que é prontamente atendida.

Entram na casa e na parede que separa a sala da cozinha há um pequeno altar com uma caneca em ágata com algumas trincas já enferrujada contendo água, ao lado de imagens, flores, fitas coloridas, uns tocos de velas e fotos amareladas de pessoas que já recorreram aos seus benzimentos.

Ao entrar em casa o benzedor levou consigo uns ramos de arruda e, posicionado-se ao lado da mãe aflita, faz algumas orações com a voz em murmúrio espargindo água na criança que arde em febre nos braços da mãe que, contrita, acompanha a cerimônia onde um carvão em brasa e jogado dentro da caneca com água. Ao final, serve uns golinhos à menina adoentada, a mãe se retira aliviada, na certeza que sua filha voltará a brincar. Eu fico pensando no esforço daquela mãe tentando mover a montanha pela fé.

Ao retomar nossa prosa, eu vejo que o sol se faz mortiço, levanto-me e, agradecendo pelos momentos de descontração e aprendizado, estendo-lhe a mão me despedindo e me afasto daquele recanto de onde é transmitido simplicidade e paz transcendental às pessoas que o procuram para alívio de males visíveis e invisíveis e retorno ao meu mundo de ceticismo e cansativa luta diária.

Lázaro Carneiro

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