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O último caudilho

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O homem que dominou a política venezuelana durante 14 anos deixa uma herança política contraditória, com a sua morte. Por um lado, é inegável que a "revolução bolivariana" beneficiou milhões de pobres que sempre estiveram alijados da maior riqueza do país, o petróleo. Antes de Hugo Chávez, somente uma elite corrupta se enriquecia com o chamado "ouro negro". Ao povo restavam migalhas, e às vezes nem isto. Os fatos colocam o presidente morto aos 58 anos num lugar destacado na história contemporânea da Venezuela. Mas, por outro lado, o seu carisma, a tendência autoritária e a alimentação propagandística do culto da sua personalidade produzem agora sombras capazes de toldar o peculiar projeto do "socialismo do século XXI" . Essa utopia tem servido de inspiração, também, para outros líderes sul-americanos. O presidente morto tinha uma concepção binária do mundo. Dividia-o entre amigos e inimigos, entre traidores e patriotas.

Chávez deixa a chefia política do seu partido numa situação de orfandade que o seu sucessor, Nicolás Maduro, terá enorme dificuldade de gerenciar. A sacralização do caudilho (como chamam os cabeças, os mandachuvas das ditaduras militares da Espanha e da América do Sul), cria um fantasma permanente a assombrar os futuros governantes. O corpo embalsamado permanecerá em visitação perene, a exemplo do de Lênin na Praça Vermelha e de Mao Tsé-Tung, em Pequim. Na Argentina, os ditadores militares tiveram que esconder o corpo de Evita Perón um cemitério europeu, em sepultura com nome trocado. Hoje, no mausoléu da família Perón, na Recoleta, a Argentina ainda chora por Evita. Cristina Kirchner tenta aproveitar-se do mito a seu favor. Chávez foi um misto de Perón e Evita, ao mesmo tempo. Os três marcaram posição em favor dos "descamisados", ocupavam a mídia com longos discursos, faziam desfeitas para as potências ocidentais (imperialistas) e praticavam jogos de cena o tempo todo. Na Argentina, o trigo e a carne sustentaram todos os gastos sociais e as obras faraônicas. Na Venezuela, Chávez aproveitou-se do dinheiro do petróleo que foi, desde o primeiro governo, de 20 dólares para 150 dólares o barril. Hoje o óleo estabilizou-se nos cem dólares. Isto permitiu ao presidente venezuelano, não só ajudar os pobres de seu país, como também a beneficiar "los hermanos" do Equador, da Bolívia, de Cuba e da própria Argentina. Chávez gastou 1 bilhão e 200 milhões de dólares na compra de títulos podres para dar fôlego ao governo falido de Cristina Kirchner. Inusitada é a troca de 100 mil barris de petróleo, enviados a diariamente a Cuba, em troca da expedição de médicos e paramédicos, professores e policiais, para atender ao povo venezuelano. No Brasil, anos atrás, o então governador Iris Rezende, de Goiás, chegou a importar médicos cubanos para suprir a falta crônica de pessoal nos postos de saúde.

A experiência ia bem, mas o Conselho e os Sindicatos Médicos não gostaram. Forçaram juridicamente o fim do convênio. Cuba não tem nada para vender, a não ser açúcar, rum e charutos. Deu-se bem com a exportação de mão de obra especializada, em troca de petróleo que antes vinha da antiga União Soviética. É o que o regime dos Irmãos Castro precisa para sobreviver. Na espécie, é caso único na história mundial. Lá, na Venezuela, a qualidade de vida do povo melhorou. Mas tudo tem seu preço. "Ninguém almoça de graça", dizem os odiáveis economistas do neocapitalismo: o déficit fiscal é de 20% do PIB venezuelano, ou seja, uns 70 bilhões de dólares. A inflação de 23% é a mais alta da América. As intervenções seguidas na economia expulsaram os investidores estrangeiros, desabasteceram o mercado interno e desincentivaram a produção local. Até agora o regime se sustentava graças ao carisma de um homem. Morreu como um santo e com este status o corpo permanecerá no panteão da pátria.
O grande herói da independência de vários países sul-americanos, Simón Bolívar, patrono do socialismo bolivariano, certamente não aprovaria as diatribes do seu discípulo. Disse ele, na sua Carta aos Cidadãos: "Se for necessário que um homem só, sustente o Estado, então este Estado não deve sequer existir".

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC

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