Um fato atípico no trânsito vem chamado atenção das Polícias Civil e Militar (PM) de Bauru. Considerados raros, os acidentes entre motocicletas têm se mostrado cada vez mais constantes em meio ao caos que se forma no trânsito, principalmente nos horários de pico. Apesar de esses casos não serem contabilizados de modo separado oficialmente pela polícia, um levantamento realizado pelo JC mostra que esse tipo de ocorrência está cada vez mais comum no cenário urbano.
Malavolta Jr. |
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Francisco Chagas de Souza diz que não dá mais para arriscar a vida andando de moto |
De acordo com o Departamento Nacional de Transito (Denatran), a frota de motocicletas em Bauru obteve crescimento de 167% em dez anos, chegando a quase 50 mil em 2013.
O número, que representa quase o triplo da frota de 2003, se destaca por englobar 22% da quantidade total de veículos existentes na cidade, que atualmente é de 231 mil. Para fins comparativos, na mesma década em que as motos cresceram 167%, os demais veículos aumentaram 84% no município.
“É um fato atípico que chama atenção em meio ao trânsito, que se torna caótico a cada dia com o aumento da frota. Grande parte dos acidentes ocorre por falta de observação e pela pressa do condutor. Às vezes eles chegam a ultrapassar pela direita para poderem se adiantar. Acredito que as autoridades logo deverão se reunir para pensar em novos sistemas, como por exemplo o rodízio, com intuito de evitar o crescimento de problemas como esses”, aponta o delegado Dinair José da Silva, titular do 1º Distrito Policial, responsável pelo recebimento das ocorrências de trânsito quando não há registros de mortes.
“O pessoal insiste em não respeitar a distância de segurança. Os tais corredores são proibidos assim como ‘costurar’ no trânsito. Geralmente, esses acidentes ‘raros’ acontecem por conta desses tipos de imprudência”, reforça o sargento José Roberto Francelozo, comandante interino do Pelotão de Trânsito da PM.
Acidentes
Em menos de 15 dias, três acidentes envolvendo a colisão de motocicletas com outras motocicletas foram registrados no plantão permanente da Polícia Civil. Por sorte, todos os casos resultaram em ferimentos leves para os condutores.
Convivendo com o trânsito de Bauru há 20 anos e vítima de seu segundo acidente na última semana, o motociclista Francisco Chagas de Souza, 46 anos, desabafa: “De uns três anos para cá a coisa piorou muito no trânsito. Não dá mais para arriscar a vida andando de moto, irei vendê-la o quanto antes. A saúde compensa mais do que qualquer economia”, lamenta Souza, mostrando à reportagem os ferimentos nos joelhos, no pé e nas mãos que restaram após o acidente envolvendo duas motocicletas na quadra 17 da avenida Rodrigues Alves, que aconteceu por volta das 18h40 do dia 26 de fevereiro.
A colisão entre duas motocicletas também fez outra vítima na noite do dia 4 de março. Dessa vez, o fato ocorreu no cruzamento da avenida Rodrigues Alves com a rua Treze de Maio.
Segundo o registro policial, Viviane Cristina da Silva, 23 anos, seguia para casa após mais um dia de aulas no curso de enfermagem, quando foi atingida por outro motociclista que seguia, no sentido Centro-bairro, pela avenida.
Da colisão, restaram apenas escoriações pelo corpo e inchaço no tornozelo da estudante que, apesar do acidente, diferentemente de Souza, não pensa em abandonar o veículo. “Meus pais são a favor do uso do ônibus, mas eu não troco a moto por nada. Além de ser mais econômica, é prática e rápida. A única coisa que vai mudar mesmo a partir de agora é o aumento da prudência que terei em relação aos outros. Afinal, esse é o segundo acidente que sofro com a moto em pouco mais de um ano”, comenta Viviane, que obteve a permissão para conduzir motos em outubro de 2011.
Ainda na avenida Nações Unidas, outro acidente do mesmo tipo também foi registrado por volta das 7h50, no dia 19 de fevereiro, na quadra 38 da avenida, na altura do Jardim Contorno.
Conforme o registro policial, um analista de sistemas de 42 anos, proprietário de uma JTA/Suzuki Bandit, teve ferimentos leves após se envolver em um acidente com um tapeceiro de 21 anos, não habilitado, que conduzia uma Sundown/Hunter 100.
De acordo com os registros, as duas motocicletas trafegavam pelo mesmo sentido o motivo do abalroamento, entretanto, não foi informado.
Os três casos acima, conforme a polícia, exemplificam os registros que passaram a ocorrer de modo rotineiro na cidade.
Apesar de serem registrados, os acidentes envolvendo motos versus motos na cidade não estão elencados de modo separado no banco de dados da Polícia Militar, fato que dificulta a contabilidade total do número de casos em um curto prazo de tempo.
‘Corredores’ e ‘Costura’
Considerados entre os principais motivos de acidentes envolvendo motocicletas, os chamados corredores e a ação denominada como “costurar” o trânsito, são infrações que podem levar até mesmo à suspensão da habilitação do motorista.
Prevista como multa grave pelo artigo 192 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), a falta da distância de segurança entre veículos pode resultar em multas de até R$ 127,00 para o condutor, além de pontos na carteira.
Além disso, o motorista flagrado em situações de direção sem o cuidado indispensável à segurança, como as manobras para “costurar” o trânsito, pode ser penalizado pelo artigo 169 do CTB, que prevê multa leve no valor de R$ 54,00.
“Diferentemente do que muitos pensam, a moto é para ser conduzida como se fosse um carro. O condutor deve manter a distância de outros veículos de modo que possa enxergar o pneu traseiro do veículo da frente”, alerta o sargento Francelozo.
Morte na esquina
Em 2011, um caso envolvendo acidente entre motocicletas causou comoção na cidade. Na ocasião, um jovem de 23 anos morreu depois de se envolver em uma colisão no cruzamento entre as ruas Rio Branco e Machado de Assis, no Altos da Cidade. Conforme o JC divulgou na época, o registro policial dizia que Willian Deliberal Zuquiere, conduzia sua moto pela quadra 12 da Machado de Assis, tendo como garupa a namorada de 18 anos, quando outra motocicleta conduzida por um homem de 32 anos teria ultrapassado o sinal vermelho na rua Rio Branco, sentido Centro-bairro, colidindo contra o casal.
Com o impacto, os três foram jogados ao chão e quase invadiram um estabelecimento comercial que fica na esquina do cruzamento, devido à força do impacto.
40% dos acidentes envolvem motos
Dados fornecidos pela Polícia Militar mostram que as motocicletas estão envolvidas em pelos menos 40% dos acidentes com vítimas que ocorrem por ano na cidade.
Em 2010, quando ocorreram 8.017 acidentes, ao menos 1.700 englobavam ocorrências com ou sem vítimas que estavam em motocicletas. Neste mesmo ano, o número de motociclistas mortos no trânsito foi o maior até hoje, com 15 vítimas fatais.
Em 2011, quando 10 motociclistas sucumbiram aos acidentes, das 8.094 ocorrências no trânsito, 1.630 envolveram motocicletas.
Já no ano passado, 11 pessoas morreram em acidentes com motocicletas e dos 6.760 registros de acidentes, 1.750 envolveram veículos de duas rodas.
Neste ano, somente em janeiro de 2013, a PM contabilizou 570 acidentes no total, sendo que 117 envolveram motocicletas.
“As motocicletas se envolvem em 40% dos acidentes com vítimas. Isso ocorre porque geralmente os acidentes são mais graves. Esses tipos de veículos deixam os ocupantes mais vulneráveis”, frisa o oficial de relações públicas do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), capitão Alan Terra.